Ainda somos os mesmos

É engraçado como, à medida que envelhecemos, vamos ficando, mesmo involuntariamente, cada vez mais parecidos com nossos pais.

Ainda somos os mesmos

É engraçado como, à medida que envelhecemos, vamos ficando, mesmo involuntariamente, cada vez mais parecidos com nossos pais. A careca, a corcunda, o jeito de se vestir e de andar, a bebedeira…

Ontem mesmo, enquanto Tico e Teco degladiavam-se atrás de algum insight novo sobre a reforma da Previdência, me vi no espelho com um tipo de expressão rigorosamente igual a que meu pai mantinha quando de situações de tensão. O corpo levemente inclinado para frente, com as duas mãos sobre a pia e os dedos voltados para fora, olhos para cima e sobrancelhas levantadas, como se procurasse em instância superior, seja ela material ou metafísica, algum tipo de iluminação.

Ainda bem que não virei torcedor da Portuguesa. Se eu tenho um preconceito na vida, é com vira-casaca. Pra mim, pode mudar de cor, de religião, de país, de partido, de planeta, do avesso, de sexo, de gênero, número e grau – só não pode mudar de time. Se fosse eu, baixava uma lei: mudar de time não pode.

Mesmo minha rigorosa teimosia poderia aprender com aquela repetição ad nauseam: “Bolsa tem todo dia. Você não precisa ganhar todo o dinheiro de uma vez.” Você não precisa de um plano para hoje, mas de um projeto para sua vida financeira inteira – a solução pode vir do Combo da Construção de Patrimônio.

Em momentos em que rola barata-voa no pré, eu primeiro respiro. E penso: metade do PSB ainda está com o governo, cuja base, mesmo combalida, é grande. Se a reforma da Previdência não será aquela que os economistas esperavam, certamente é, em grande medida, culpa da irresponsabilidade, do despreparo, do egoísmo e da demagogia dos políticos. Mas será que o não atendimento do “ideal” não se deve também ao platonismo dos economistas, ótimos em estática comparativa e exercícios de maximização, e péssimos com situações do mundo real? Não espere por uma reforma definitiva; espere várias reformas, uma atrás da outra. Vamos ajeitando conforme nossa complacência permite.

Transformar-me no meu pai é também, em alguma dose, uma metaformose em direção a mim mesmo, às minhas origens, à minha bagagem cultural e às minhas crenças formuladas ainda quando as coisas não estavam estruturadas racional e formalmente aqui dentro.

Um homem jamais poderá estar em paz consigo mesmo se não estiver agindo rigorosamente conforme suas convicções mais viscerais. Pense, fale e aja exatamente da mesma forma. Esse é o caminho do equilíbrio. Acho que foi o Dalai Lama que falou isso. Ah, se não falou, dessa ele esqueceu.

Estruturar um método de investimentos não é fácil. Mas ainda é muito mais fácil do que agir com tudo e só aquilo que o método prescrever, sem tergiversar ou desviar do caminho. Não nos deixeis cair em tentação. A Walk on the wild side é ótimo de ouvir – obrigado Lou Reed – mas, por definição, perigoso de viver, principalmente na Bolsa.

Só pode haver um único lado. Aquele que você desenhou como sua filosofia de investimento. Escreva sobre isso. Facilita a lealdade a disciplina.

Quando eu me transforme em mim mesmo?

Quando compro ações e títulos controlando o downside, tentando garantir (é mesmo apenas uma tentativa) que as surpresas (a realidade é muito mais complexa do que nossos modelos mentais podem contemplar) estarão do lado positivo, ciente de que o caminho será permeado por dúvidas, tentações a retroceder e, principalmente, muita volatilidade.

É a famosa perseguição implacável a retornos assimétricos. Uma obsessão não por saber o que acontecerá amanhã. Isso é apenas neurose, mera terapia ocupacional, um exercício de adivinhação para fazer os meteorologistas passarem menos vergonha. Representação de nosso desejo de controle, uma emoção disfarçada de racionalidade.

Se vier o pior, você X. E se vier o cenário bom, ganha Y. Sendo Y necessariamente maior do que X. É o que tem pra hoje. Muito prazer, Miranda.

Mercados iniciam quarta-feira demonstrando maior aversão a risco, principalmente nos contratos de juros futuros, que voltam a subir mesmo após a disparada de ontem. Nova alta do dólar e preocupações com andamento das reformas voltam a trazer tensão.

Lá fora, expectativa é por anúncio de Trump envolvendo plano fiscal, com promessas de “fenomenal” corte de impostos. Moedas emergentes sofrem e commodities recuam.

Internamente, reformas estruturais dominam a pauta. Revés do governo em destaque proposto pelo Solidariedade em pacote de socorro dos estados, eximindo aumento da contribuição previdenciária de servidores, gerou desconforto.

Reforma trabalhista foi aprovada em Comissão ontem, mas volta a plenário hoje, em cotação que deve ser encerrada apenas amanhã. Cresce a preocupação com o tema diante de número elevado de destaques e incremento da adesão à greve de sexta-feira.

Agenda doméstica trouxe queda da confiança do consumidor de 85,3 para 82,2 pontos e deflação de 0,08% medida pelo INCC, enquanto esperava-se estabilidade do índice. Dados da arrecadação, nota de crédito e sondagem da indústria completam referências importantes. Nos EUA, saem estoques de petróleo, cujo barril se mantém abaixo de US$ 50.

Ibovespa Futuro abre em leve baixa de 0,2 por cento, dólar sobe 0,8 por cento contra o real e juros futuros avançam.

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