Contra os professores

Só há um investidor imaculado: aquele que não começou. Se você ainda não errou, apenas não está tentando o suficiente.

Contra os professores

“Errei mais de 9.000 cestas e perdi quase 300 jogos. Em 26 diferentes finais de partidas, fui encarregado de arremessar a bola que venceria o jogo…e falhei. Eu tenho uma história repleta de falhas e fracassos em minha vida. E é exatamente por isso que sou um sucesso.”

As palavras são de um jogador de basquete menor, chamado Michael Jordan. Está começando agora, mas suspeito que tenha futuro.

Eu já errei várias vezes como investidor e analista. Por mais diligente e esforçado que seja, vou errar muitas outras ainda. Na verdade, acho que erro todos os dias. Faz parte do processo. Só há um investidor imaculado: aquele que não começou. Se você ainda não errou, apenas não está tentando o suficiente. A dinâmica de construção de patrimônio obedece à mesma lógica das grandes descobertas, dos grandes feitos, das verdadeiras realizações. Estamos circunscritos ao universo da tentativa e erro.

O segredo não está em não errar, mas em fazê-lo com menos frequência e/ou intensidade do que o acerto. Erre pequeno, acerte grande. O mercado financeiro não admite heróis, seres apegados à honra de suas opiniões pregressas. Se você está errado, apenas corte na própria carne e saia da posição perdedora.

Embora normalmente tenha uma convivência razoável com os equívocos, há um erro de que não me perdoo. Jamais poderei me desculpar pela traição de minhas próprias convicções. Sua alma há de se vingar de você sempre que perceber deslealdade.

Falo das ações da ex-HRT, hoje Petro Rio, que, na época, recomendei aos meus clientes e também comprei para mim mesmo, na física. Perdemos dinheiro aqui, juntos. Ruim, ok. Claro que me incomoda. Mas não é essa a razão de minha incapacidade de digerir a coisa. O problema maior vem do fato de eu ter contrariado a mim mesmo, minha filosofia, minhas crenças mais viscerais.

O que aconteceu ali?

Eu basicamente acreditei no discurso do “especialista”. Fui ludibriado pela campanha vendedora de um “PhD”, o douto vestido em terno bem cortado, porém vazio, aquele capaz de expulsar o leigo da discussão através do uso de palavras técnicas, como se ele fosse o portador de uma verdade que os pobres mortais não poderiam acessar. Aquele discurso que, sendo falso ou verdadeiro, não podemos combater, simplesmente porque não dispomos do conhecimento apropriado.

O sujeito começa a falar da era mesozóica, dos movimentos das placas tectônicas, da gondwana e da pangeia, de como a formulação geológica da costa brasileira era semelhante à da costa oeste africana por conta da sua proximidade no paleozóico, o que garantiria analogias importantes entre a sedimentação da Bacia de Campos com aquela de Angola, e da Bacia de Santos com a Namíbia.

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Está armada a falácia da narrativa, contra a qual eu luto todos os dias. Encantado por aquela abertura espetaculosa da latinha de Coca-cola em que o gás, menos denso, vai para cima e o líquido preto, imageticamente com paralelo instantâneo com o petróleo, temos uma tese perfeitamente crível, montada por um dos maiores especialistas da área, Mr Go Deeper.

O mesmo que, com a disposição de sempre, me ligou uma certa vez aos berros:

  • “Pode falar?”
  • “Estou na academia. Só um minuto que estou indo para fora. O barulho aqui não me deixa ouvir… pronto, desculpe a demora, agora consigo escutar.”
  • “Estou ligando para você marcar um dia na sua agenda. 17 de julho. Vamos ter muita alegria.”
  • “Ok, anotado.”
  • “Abraço”.
  • “Abraço”.

Eu não escrevo isso para culpar o sujeito – certamente, vender 70 milhões de reais em ações enquanto fomentava a compra em conferências e apresentações institucionais, sob alegação de comprar um apartamento para a filha, foi muito pior (fico pensando o que seria um apartamento de 70 quilos de alcatra).

A culpa foi integralmente minha, por ter acreditado naquela baboseira, por ter, por algum tempo, me esquecido de que minha empresa não chama Empiricus à toa; ela é uma homenagem a Sextus Empiricus, filósofo pós-socrático, um dos pais da escola cética e autor da obra Contra os professores, um combate ao pseudocientifismo, à montagem de teorias sofisticadas sem embasamento empírico, aos ternos vazios que depois viriam a povoar a Faria Lima e também à Avenida Atlântica.

O que os outros vão falar para você pertence aos outros. Cabe somente ao ouvinte acreditar ou não. Tomar uma decisão baseada no discurso alheio aponta para a sua própria responsabilidade individual.

Evite investimentos fora do seu círculo de competências, aquele com os quais você não pode contra-argumentar por estar expulso da discussão técnica. Invista normalmente no que você entende.

Não sou um purista. Até admito que você possa quebrar a regra acima, aplicando em coisas que não domina. Tudo bem, mas o faça sob a abordagem do tinkering, em que você espalha seu dinheiro por vários instrumentos, numa proposição altamente diversificada, tentando apenas um grande acerto para justificar vários erros pequenos. Apreenda que, desses, de fato, a maior parte será prejuízo e a convexidade de um grande lucro pagará a conta toda.

Se não for assim, fique de fora. Não incorra no mesmo erro deste pobre redator.

Contei essa história hoje justamente para que você possa evitar esse mesmo caminho. Como diria Taleb, “para ensinar alguém uma verdadeira competência, ensine-o a forma de falir. Ele nunca vai aprender isso na escola. E nenhum não-tomador de risco poderá ensiná-lo essa grandeza.”

Entre erros e acertos, mercados tentam definir uma tendência positiva, após alguma fraqueza no início das negociações. Juros futuros voltam a ceder com um pouco mais de vigor, no dia que marca início da reunião do Copom, com aposta majoritária de corte de 1 ponto na Selic, mas expectativa grande por sinalização sobre o futuro. Conab voltou a reforçar panorama positivo para inflação ao revisar para cima estimativas de safra para milho e soja.

Ibovespa Futuro sobe 0,25 por cento, atento à intensificação das negociações em prol da reforma da Previdência. Após notícias negativas nos últimos dias e recuos do Planalto, Temer endurece o discurso e parece, na margem, ganhar terreno. Certamente, tema ainda trará muita volatilidade. Dólar cai ligeiramente contra o real.

Agenda doméstica é relativamente fraca, contando com prévia do IPC-Fipe (+0,31%) e pesquisa industrial regional.

Nos EUA, temos otimismo de pequenas empresas e relatório Jolts com dados de emprego. Na Zona do Euro, sai produção industrial e sentimento econômico alemão. Temos ainda inflação no Reino Unido e na China (à noite).

Encerro com duas recomendações de leitura. A primeira é o relatório sobre o fundo Verde Scena, distribuído pela XP, feito com brilhantismo pela Luciana Seabra. E a segunda se refere à promoção relâmpago e muito especial do Trader-X, que se encerra nas próximas horas.

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