De volta para o futuro

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Dizem que uma mentira repetida cem vezes torna-se verdade.

E quantas vezes uma verdade precisa ser dita para ser percebida como tal?

Eu sei. Você vai falar que foi sorte. E, sinceramente, eu concordo.

Outros, notadamente os jornalistas e os isentões politicamente corretos produtores de textos intermináveis no Facebook, falarão que foi uma irresponsabilidade. Afinal, a pessoa física jamais poderia investir em opções, esse instrumento do mal, extremamente arriscado. Esses simplesmente não entenderam nada. Quando você compra opções fora do dinheiro, está apenas indo atrás de proteção ou de uma possibilidade de se aproveitar de um cenário positivo remoto, sabendo que provavelmente vai perder aquele dinheiro – ainda assim, faria muito sentido a aposta, quando compreendida dentro de sua estratégia agregada de alocação (se isso ainda não é tão simples pra você, sugiro fortemente a assinatura do Gamma Trader; ele transforma gregas em português e lucros no seu bolso).

Sujeito, do mais alto nível da desonestidade intelectual, pega uma frase solta de Warren Buffett (“derivativos são armas de destruição em massa”), aplicada a um contexto específico de desregulação financeira, alavancagem excessiva e venda a descoberto (a Empiricus nunca, nunca e nunca recomendou, recomenda ou recomendará venda a descoberto e/ou alavancagem com opções), e tenta aplicá-la a outro escopo diametralmente oposto, em que as opções servem como hedge e possibilidades de ganhos assimétricos. É vergonhoso. Do alto de sua superioridade por trabalharem no brilhante (?) mercado financeiro, condenam as pessoas físicas ao curral das estratégias medíocres. Claro, essas são as mesmas pessoas que, pragmaticamente, nunca fizeram nada pelo investidor, além de tuítes e textos politicamente corretos, desprovidos de fundamentação epistemológica. Se meus detratores me conhecessem melhor, me odiariam ainda mais.
Volto ao ponto central. Não há postura mais insuportável do que aquela do “eu não falei?”. Peço a Deus diariamente para não me tornar essa pessoa. Conto a narrativa a seguir somente para servir de exemplo para o que pode ser à frente. Um exemplo passado para ser processado e aplicado no futuro. Nesta segunda-feira, não há como não lembrar de Marty McFly pegando as guitarras e, antes de começar o riff de Johnny B Goode, “lá vai uma das antigas….bom, ela é antiga na época em que eu vivo..”

Escrevo hoje demonstrando uma aplicação prática do que é tail hedging – é muito curioso como as críticas à estratégia partem daqueles que não as consomem.

Deixe-me contar uma história. Nada de hipóteses, estimativas, suposições. Apenas fatos e sua crueldade. De novo, reitero: não apresento o caso como uma tentativa de provar uma competência individual. Resultados de curto prazo – e três meses são curtíssimo prazo – são bastante suscetíveis à aleatoriedade. Portanto, muito do que estará nas próximas linhas é resultado, exclusivamente, da sorte. É sempre fundamental lembrar também que passado não enche barriga, tampouco serve de parâmetro para performance futura. O que parece sólido pode facilmente desmanchar-se no ar, basta um segundo de guarda baixa. Apenas quero oferecer-lhes um método. Importa a filosofia do que está por trás da coisa.

A Carteira Empiricus subiu 3,49% em janeiro e mais 3,77% em fevereiro. No bimestre, o CDI marcou 1,95% (portfólio sugerido acumulou 7,40%, 380% do CDI). O resultado muito acima do benchmark e da média dos fundos multimercados no período derivou, principalmente, da alta posição em ações e em títulos de longo prazo. Hoje, temos 25% da Carteira alocados em Bolsa e isso é muito, mas muito mesmo, mais do que o sugerido por alocadores e carregado pela maior parte dos gestores multimercados. Como a Bolsa subiu fortemente nos dois primeiros meses do ano, fomos beneficiados fortemente por isso.

Seria natural imaginar, portanto, que, com o Ibovespa caindo quase 4% em março, a Carteira Empiricus, muito pesada em Bolsa, estivesse sofrendo fortemente agora. Nada mais óbvio. Deveríamos esperar isso. Mesmo se assim o fosse, o saldo no ano seria positivo e é isso que interessa. Ganhamos muito quando a Bolsa sobe; sofremos quando a Bolsa cai – como saldo da renda variável em 2017 ainda é favorável, estaríamos ganhando. Ótimo.

Mas não é só. Carteira Empiricus sobe em março, com resultado bem alinhado ao CDI (marginalmente abaixo), mesmo com seu book de ações caindo destacadamente (embora muito menos do que o Ibovespa). Isso foi possível simplesmente por conta das puts fora do dinheiro compradas previamente como seguro.

Elas nos permitiram transitar de forma amena agora, mesmo com uma posição enorme em ações. Subimos muito quando a Bolsa avançou. E não estamos caindo agora com a Bolsa no vermelho. Isso se dá por conta das respostas não lineares das opções fora do dinheiro, que nos permitem, com uma fração ínfima do portfólio (temos cerca de 1% em puts fora do dinheiro), proteger um percentual bem grande da Carteira.

Diante das mazelas da Operação Carne Fraca e de outras questões idiossincráticas, as puts de BRF recomendadas na Carteira Empiricus sobem nada menos do que 205%. Isso segurou bastante o portfólio, mesmo num momento de banho de sangue na Bovespa.

Note que eu também havia recomendado puts de BRF na série Palavra do Estrategista, como uma forma de proteger os ganhos que acumulávamos no ano com as acertadas sugestões de carteiras de ações – elas subiram 95% somente na sexta-feira. Ou seja, 100 mil pessoas puderam ter acesso a uma estratégia de PROTEÇÃO anteriormente restrita apenas a profissionais. Confesso que esse é motivo de orgulho. Falem o que quiserem. Não vão nos abalar. Try harder. Precisa de muito mais pólvora para nos tirar dessa missão de levar às pessoas físicas estratégias que antes elas sequer sabiam que existiam.

Gostaria ainda de tecer pequenos comentários sobre a Operação Carne Fraca, também tentando nos apropriar de um pouco de teoria para aplicação prática. Não tenho dúvidas de que houve exageros na divulgação da Polícia Federal – algumas coisas, como aquela do ácido ascórbico, chegam a ser anedóticas. Desde o famoso Powerpoint do Deltan Dallagnol, talvez não houvesse algo tão histriônico.

Do ponto de vista da realidade operacional estrita, são pouquíssimas operações afetadas, estatisticamente insignificante. Sob a ótica da análise fundamentalista clássica, portanto, os valores intrínsecos de BRF e JBS estariam pouco afetados, de modo que as quedas poderiam até ser aproveitadas como oportunidades de compra.

Feliz ou infelizmente, porém, a coisa não funciona assim. No meu entendimento, trata-se de um caso clássico da aplicação da teoria da reflexividade de George Soros. Não importa apenas a realidade das marcas. Também precisamos olhar para a percepção sobre essa realidade. Se Sadia e/ou Seara passarem a ser percebidas como as “empresas da carne podre”, mesmo não sendo, isso muda o valor intrínseco delas. É a percepção interferindo na realidade, num processo dialético clássico, conforme proposto por Soros.

De minha parte, ainda vejo pressão de curto prazo sobre as ações, principalmente após notícias veiculadas na Bloomberg sugerirem restrição temporária pela China à importação de carne brasileira. Fala-se que a União Europeia também estuda ações semelhantes. Agora, até provar que focinho de porco não é tomada exige tempo e muito gasto com marketing.

Mercados iniciam a segunda-feira demonstrando cautela. Bolsas internacionais registram leve queda, assim como petróleo, diante de aumento das perfurações nos EUA.

Agenda é fraca lá fora, aguardando apenas atividade na região de Chicago e declarações de diretores do Fed.

Localmente, mercado monitora relatório Focus, com revisão para baixo nas estimativas para Selic e para cima no caso do PIB – parece se consolidar prognóstico de redução de 1 ponto no juro básico na próxima reunião do Copom (mais sobre isso abaixo, na nota da Marília, com a competência de sempre).

Temos ainda balança comercial semanal e vencimento de opções sobre ações, o que pode trazer volatilidade à Bolsa hoje. Desdobramentos da Operação Carne Fraca elevam aversão a ativos brasileiros e já se fala em impacto sobre contas externas.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,60%. Dólar procura tendência definida, ponderando maior aversão a risco e notícias de perspectiva de ingressos de recursos por montanha de dinheiro chinês. Juros futuros predominantemente em alta, principalmente os mais longos.

PS.: Encerraremos ainda hoje as adesões ao PRP. Restam as últimas vagas para o projeto liderado pelo Rodolfo – falo de coração: o Rodolfo é uma das pessoas mais brilhantes que eu já conheci na minha vida e, na minha opinião, o maior responsável pela Empiricus ter conseguido crescer.

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