Em busca do tesouro indireto

Investir seria algo como um processo indireto, permeado por rodeios e desvios, em que você cede primeiro para ganhar depois.

Em busca do tesouro indireto

Júlio é mestre de obras. Ao menos era. Foi rebaixado a uma condição pior em meio à recessão brutal e à paralisia da construção civil. Está fazendo jornada dupla agora. Com a mulher desempregada e dois filhos na faculdade, precisava de uma nova fonte de renda. O porte físico privilegiado, combinado à cara de mau, barba por fazer e sobrancelhas grossas quase unidas por uma penugem espessa também entre as taturanas presentes em sua testa, garantiu-lhe a função de vigia noturno do condomínio Outeiro do Horizonte. Carinhosamente, o edifício recebia de seus funcionários, tratados sempre com arrogância e desprezo pelos condôminos, a alcunha que substituia sua primeira letra (“O”) por “P”.

Ele recebe seu salário semanalmente, sempre às sextas-feiras à tarde. É o dia da glória. Exausto, Júlio sai do primeiro turno e, supostamente, caminha para a segunda jornada. Ele não resiste à tentação. Para no Bar do Toninho, onde é tratado com proximidade. Os encontros ali são frequentes. Ele tem amigos com o mesmo hábito. A combinação de Derby paraguaio, rabo de galo e bilhar é irresistível. Ele gasta metade do seu salário em apostas na sinuca; a outra em bebida. A consequência é óbvia: passará fome pelos próximos seis dias, e imporá a mesma condição à sua família.

A leitura imediata impõe um julgamento impiedoso sobre nosso irresponsável protagonista. Ele, porém, só está “curtindo o momento.” Carpe diem, não é mesmo? Foi seduzido pelo discurso descolado de que “precisamos viver intensamente, sem pensar no amanhã”.  

Como escreve Mark Spitznagel (tradução minha e, portanto, certamente com algumas imprecisões, sobre as quais eu me desculpo), “nossa cultura de viver-por-hoje foi invadida, como um vírus mortal, por uma atitude traiçoeira que ensina como este momento é tudo que importa, porque é tudo que vemos e experimentamos.”

Obviamente, qualquer semelhança com taxas de poupança cronicamente baixas no nosso País talvez não seja mera coincidência, tanto no setor privado quanto na esfera pública, com déficits orçamentários astronômicos cujo desdobramento prático é roubar o futuro das novas gerações.

Alguns zombariam do mestre de obras Júlio. Outros teriam pena por sua incapacidade de resistir à tentação. Um terceiro grupo ficaria com raiva pelo abandono da família.

Na prática, porém, algo semelhante a isso é feito pelo investidor com sua obsessão pelo curto prazo – evidentemente, numa escala menor, metafórica e menos hiperbólica. Importam as imagens. Sacrificamos o futuro diante de um gozo imediato, seja pela decisão de consumo ou pelo próximo trade vencedor. 

O investimento não é uma caminhada direta, o aproveitamento do momento, a perseguição pelo próximo up-tick. Ao contrário, é aquilo descrito na língua inglesa como “roundabout”, para o qual não consigo encontrar tradução precisa. Seria algo como um processo indireto, permeado por rodeios e desvios, em que você cede primeiro para ganhar depois. O sujeito recua, recua, espera…espera mais um pouco e então se posiciona, naquele preço certo, em que só foi possível entrar depois da inação, da paciência e da profundidade temporal com que se observou o movimento. 

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Abrimos mão da via direta, perdemos um pouco agora no nosso nível de satisfação em troca de vantagens estratégicas de posicionamento para um ganho maior no futuro. Perdemos um pouco hoje para um lucro muito maior lá na frente.

O economista Eugen von Böhm-Bawerk resume a prescrição para organização e gerenciamento de nossos recursos escassos – e evidentemente é válido para gestão financeira: “tratamento equivalente entre presente e futuro como um ideal.” Não há porque privilegiarmos o eu-hoje em detrimento ao eu-futuro dado que as coisas, boas ou ruins, nos afetam rigorosamente da mesma maneira agora ou daqui a alguns anos. Uma picada de abelha dói o mesmo tanto nesta quinta-feira ou em 2028. 

Devemos tratar nosso mais variados “eus” ao longo do tempo rigorosamente da mesma forma.  Mexeu com um, mexeu com todos. Em adição ao discurso de igualdade de gênero, raça e afins, hoje lanço o Movimento do Empoderamento do Eu-futuro. 

Mercados iniciam quinta-feira sob elevação do grau de aversão a risco. Cautela pré-feriado, clima político deteriorado a partir das delações da Odebrecht e novo recuo do minério de ferro no exterior impõem preocupação adicional. Com muitos políticos envolvidos na “lista de Fachin”, nível de incerteza sobre aprovação de reformas fiscais aumentou. Pode ser até que ajude nas reformas, como forma de se evitar um cenário de terra arrasada e salvar a classe política. Mas, neste momento, ninguém sabe. Cresce também o risco de procrastinação até a votação.

Entre os destaques do dia está a repercussão da decisão do Copom de cortar a Selic em 1 ponto percentual na véspera, em linha com o esperado. Marília comenta com profundidade em nota abaixo. Minha percepção pessoal foi de comentários um pouco mais dovish, flertando com a possibilidade, embora não confirmada, de aceleração do ritmo de cortes do juro básico. Na pior das hipóteses, parece um tanto claro que vamos para 8,5% ao ano. Isso significa que há gordura na curva de juros, e nós não estamos de dieta. A Marília é quem realmente entende de renda fixa aqui – então, é melhor recorrer às suas palavras. 

Lá fora também manda sinais pouco claros. Donald Trump criticou o dólar muito apreciado e disse gostar de juros baixos. Muita retórica e pouca visibilidade. Na véspera de feriado, melhor ter cautela. Temos 72 horas até segunda-feira – e um twitteiro bastante ativo, bem desgostoso com a Coreia do Norte. A combinação de whisky e 140 caracteres pode ser literalmente uma bomba atômica.

Agenda reserva dados de serviços por aqui. Nos EUA, temos inflação ao produtor, pedidos de auxílio-desemprego e sentimento do consumidor. China reportou balança comercial acima do esperado, com exportações e importações crescendo bem. Isso, porém, não foi capaz de interromper queda do minério de ferro.

Ibovespa Futuro abre em queda de 0,6 por cento, dólar sobe 0,25 por cento e juros futuros avançam, refletindo menor disposição a risco.

PS.: Para celebrar o momento de renovação, abrimos em caráter extraordinário 50 vagas (apenas 50) para a assinatura da série Serious Trader em condições muito especiais. Vale a pena conferir.

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