Meu nome não é Johnny

Quando atribuem-lhe um determinado rótulo, cria-se automaticamente uma armadilha.

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Meu nome não é Johnny

“O problema de ter se designado um rei é que a maioria das pessoas começa a acreditar nessa bobagem que se chama rei.”

A frase não é minha. É de Rory Sutherland, vice-chairman do Ogilvy Group e autor de uma de minhas colunas preferidas, chamada The Spectator. Rodolfo que me enviou as palavras na sexta à noite. Ele está em Londres, fazendo um curso com o Rory. Originalmente, a frase foi empregada para se referir ao contexto das novas eleições britânicas, em críticas mordazes a Thereza May. Aqui, nos serve a outro propósito.

Duvido dos reis, dos rótulos, dos cenários, dos modelos, das crenças, de mim mesmo.

Por muito tempo, resisti ao termo “estrategista” aqui na Empiricus. Pra mim, ele transmite uma falsa ideia de que disponho de uma suposta estratégia infalível, que necessariamente vai levar os clientes a um método capaz de acertar tudo que vem pela frente. A expressão confere, equivocadamente, ao redator uma aura de superioridade que, em nenhum momento, corresponde à realidade. Somente em Pasárgada podemos ser amigos do rei.

Quando atribuem-lhe um determinado rótulo, cria-se automaticamente uma armadilha. Mediante o convívio longevo com o termo, você acaba se acostumando e incorre, mesmo de forma não deliberada, na tentação arriscada de acreditar naquilo.

Clarice Lispector resumiu bem o ponto: “É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.”

No final, acabei topando o cargo – eu precisava de algum para caber no organograma, embora goste mesmo da definição de João Estrela, de Meu Nome Não é Johnny: “eu não faço nada, não, mas sou muito bom no que faço”.

Aceitei somente porque “estratégia” encontra entre seus significados possíveis “método”, um meio desenvolvido para conseguir alguma coisa. O estrategista, portanto, não seria aquele dotado de um super-poder, no caso de fazer a incerteza desaparecer do ambiente e antever com precisão qual cenário estará cristalizado à frente. Ele apenas ofereceria uma forma de atingir um determinado objetivo, e o objetivo aqui é aumentar as chances de o cliente construir patrimônio de forma consistente no longo prazo.

De que método exatamente estamos falando?

Se tivesse de resumir grosseiramente numa única frase, seria por meio do clássico “How to live in a world we don’t understand” (Como viver num mundo que não entendemos). Se você parar pra pensar sobre isso, perceberá que sintetiza tudo.

Se somos incapazes de entender o mundo, no sentido, para nossos fins financeiros, de que não conseguimos antever o futuro, então ninguém poderá saber exatamente qual a estratégia ótima adotar para se apropriar com precisão do cenário que vai se materializar à frente.

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Resta-nos, portanto, por simples aplicação da lógica, adotar estratégias que ensejam retornos assimétricos. Você não sabe qual dos cenários vigorará amanhã. Então, você escolhe hoje o posicionamento que vai lhe implicar o maior retorno esperado, quando ponderado pelas probabilidades associadas.

Se vier o cenário ruim, você perderá dinheiro. Ok, faz parte do processo. Mas, conforme o jogo for sendo repetido, o efetivamente observado vai convergir em frequência para a probabilidade associada, de tal sorte que os pequenos erros serão mais do que compensados pelos acertos.

Para dar tangibilidade ao argumento, suponha um cara e coroa que lhe pague 6 no caso de vitória e lhe custe 4 no caso de derrota. Supondo que a brincadeira será repetida várias vezes, você deve participar deste jogo, certo? Ainda que perca na rodada inicial, a repetição dos jogos tende a convergir para metade de resultados cara, metade coroa (supondo moeda não viciada). Assim, você acaba vencedor no longo prazo.

A premissa fundamental é que você não morra no meio do caminho. Ou seja, deve apostar uma quantia que lhe permita continuar jogando até o ponto que a distribuição efetivamente observada de resultados convirja para a distribuição do modelo (50/50).

Vejo uma boa oportunidade de retorno assimétrico neste momento.

A primeira delas se refere à possibilidade de o Copom vir a cortar a taxa Selic em 100 pontos-base em sua próxima reunião. Como hoje o mercado atribui probabilidade maior de um corte de 75 pontos-base neste encontro (chance de 84 por cento a partir das cotações de juros futuros, segundo a Agência Estado), faz sentido apostar num corte de 1 ponto percentual – ele está pagando mais do que 1 para 1, e encontra, no meu entendimento, probabilidade da ordem de 50 por cento de ocorrência, ou até mesmo mais do que isso.

Meu argumento é o seguinte:

De forma simples e direta, no comunicado que acompanhou sua última decisão de cortar a Selic, o Copom sugeriu claramente que o aumento das incertezas por conta da crise política engendraria desaceleração do ritmo de reduções da taxa Selic.

Já na ata da reunião, adotou tom mais ameno, afirmando não haver relação direta e mecânica entre o aumento da incerteza e a política monetária.

Supondo que há uma mínima coerência em sua comunicação, o que talvez – confesso – seja uma premissa excessivamente restritiva, o Copom só pode entender que há efeitos indiretos (secundários) entre o aumento da incerteza e a política monetária.

Mais especificamente, a relação estaria nas expectativas de inflação. A maior incerteza poderia desvalorizar o câmbio e, sem reformas, colocar pressão sobre as contas públicas, o que teria como corolário aumento da inflação futura.

Ocorre, porém, que, na prática, tem acontecido justamente o contrário. As expectativas de inflação têm caminhado para baixo desde o “evento Joesley”, assim como as projeções para o PIB, enquanto a inflação corrente desafia mesmo a menor das estimativas (ver IPCA da sexta-feira passada).

Bradesco e Itaú, por exemplo, acabam de revisar para baixo suas projeções para PIB e inflação. O primeiro estima agora estabilidade da economia neste ano (contra 0,3 por cento em sua expectativa anterior) e expansão de 2 por cento em 2018 (2,5 por cento antes). O segundo espera incremento de 0,3 neste ano (1 por cento antes). O Bradesco revisou a projeção de inflação oficial neste ano de 3,7 para 3,4 por cento, e de 4,1 por cento para 4,0 por cento em 2018.

Em linha com essa dinâmica, o relatório Focus também trouxe revisão para baixo nas estimativas de PIB e inflação para este ano e o próximo – note que as decisões do Copom hoje afetam justamente esse horizonte temporal; não faz sentido ainda elucubrar sobre 2019.

Do ponto de vista prático, portanto, parece se formar um consenso de que o choque ligado ao aumento da incerteza a que o Copom se refere teve caráter desinflacionário, exatamente como havíamos sugerido aqui à época. Isso posto, não faz nenhum sentido responder ao choque exógeno com desaceleração do afrouxamento monetário. Ao contrário, se o choque é desinflacionário e o Copom pretende reagir a ele, só restaria o caminho da aceleração do ritmo de cortes.

Pragmaticamente, portanto, o investidor interessado em retornos assimétricos pode cotar em sua corretora opções digitais de juro para o Copom de julho e verificar quanto está pagando a aposta na redução de 1 ponto. Qualquer coisa superior a 1 para 1,5 pode fazer sentido. Enquanto aposta majoritária ainda é de uma redução de 75 pontos, para mim, o único caminho, do ponto de vista estritamente técnico, parece apontar para um corte de 1 ponto.

Feliz ou infelizmente, mercado já começa a correr nessa direção enquanto escrevo.

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