O que eu também não entendo

Uma coisa eu entendo: me sinto bem mais confortável em recomendar Bolsa agora que ninguém mais quer.

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O que eu também não entendo

Sempre fui apaixonado pelas minas Gerais – ah, sim, com M maiúsculo também funciona. Mas mineiro tem uma coisa engraçada, repara. Mineiro ama banda mineira. Nos outros lugares, não rola isso. Imagina gostar mais do Ira! do que da Legião só porque envelheço na cidade? Mineiro tem aquela pegada Clube da Esquina, Skank, Pato Fu, Jota Quest e até Tianastácia.

Com exceção do Clube da Esquina, eu não gosto dessas coisas aí não, mas a música que dá título a este texto é bem boa.

Eu não entendo muita coisa.

André Lara Resende diz assim: “Macroeconomia hoje é uma brincadeira perigosa porque as pessoas usam a formalização/matemática como espécie de legitimidade a opções políticas e dizem ‘não venha discutir comigo porque você não entende’. Nada tem mais capacidade de impostura como um quadro cheio de equações”.

Ele também critica as acusações superficiais de que a inflação caiu porque o juro subiu. “Raciocínios simplistas como se milhares de outras coisas não acontecessem simultaneamente”, numa referência implícita à falácia lógica post hoc, propter hoc (depois disso, por conta disso) e ao platonismo dos exercícios de estática comparativa dos economistas, apaixonados pelo tal ceteris paribus.

Marcos Lisboa, apontando insuficiências no livro de Lara Resende, responde: “senti falta de uma abordagem mais empírica.” Ou seja, pede mais formalismo e mais matemática, como um experimento feito em laboratório em que pudéssemos parar todas as variáveis e medir exatamente o impacto do juro na inflação.

Tenho profundos respeito e admiração por Marcos Lisboa, certamente um dos maiores economistas brasileiros e com uma contribuição inenarrável, tanto acadêmica quanto de política econômica, sobretudo na esfera micro. Mas, neste caso, sou Team André Lara.

Primeiro porque erudição e rigor epistemológicos, que não necessariamente têm a ver com rigor econométrico, são irresistíveis.

Depois porque faz quase parte da minha natureza. Seguidor da escola cética de Sextus Empiricus, não consigo acreditar que a razão (a técnica, os modelos) possa ser capaz de produzir teorias razoáveis sobre o mundo. O dinheiro, a ciência e a tecnologia – os deuses eleitos da modernidade – não me parecem superiores Àquele da Idade Média.

E finalmente porque a Empiricus foi fundada justamente para permitir ao investidor pessoa física conversar de igual para igual com os ternos vazios da Faria Lima, que tentam afastá-los da discussão travestindo-se de profissionais supostamente detentores de um super-poder capaz de alçá-los a uma condição inatingível pelos cidadãos comuns.

Alguns tentam distorcer o argumento. “Acho legal a Empiricus. Faz um trabalho legal para os leigos. Mas, pra mim, que já invisto e sou um profissional, não é necessário.” Agora vamos carimbar as ações e os títulos. Olha, subiu 30%, mas só valeu para os leigos. Os profissionais continuam no zero a zero. As boas análises e as ideias certeiras precisam valer para todo mundo. O fundo daquele que é possivelmente o maior gestor de todos os tempos obviamente entendeu isso lá atrás, ainda na época do Fim do Brasil. Mas, claro, talvez não seja mesmo para os doutos.

Eu também não entendo uma outra coisa. Soube que alguns (felizmente, poucos) analistas e gestores ficam chateados quando eu aponto a dificuldade de se gerar alfa. Ao falar isso, estou, na verdade, questionando a mim mesmo, as minhas competências individuais. Será que eu tenho mesmo alguma utilidade? Ou os mercados são tão eficientes que impedem qualquer edge do analista sobre os demais? Convivo diariamente com essa dúvida, que impõe inclusive questionamentos éticos e morais. Sinceramente, não encontrei resposta ainda. Mas de uma coisa tenho certeza: se tem alguma pessoa que não consegue gerar alfa de forma consistente, é aquele que tem certeza que consegue. Esse vai confiar demais em si, se alavancar demais, concentrar demais. Unskilled and unaware of it. A verdade é filha do tempo.

Não entendo ainda os bancos terem ficado tão enfurecidos com nossos comentários sobre o FGC. A primeira coisa que preciso esclarecer sobre isso é que admiramos fortemente o FGC. Respeitamos e admiramos muito os bancos, também. Itaú está em quase todas nossas carteiras. E eu sou correntista do banco desde a época em que tinha cabelos. Mas toda essa admiração não pode impedir que teçamos críticas às fragilidades, às necessidades de melhorias e a determinados abusos cometidos junto a pessoas físicas. Esse é o nosso trabalho. Questionar quem garante o fundo garantidor é, na verdade, apenas a aplicação pragmática de um problema ontológico antigo, aquela história do Paradoxo do Barbeiro, derivado do Paradoxo de Bertrand Russell – quem barbeia o barbeiro se só há um deles na cidade? Quem regula o regulador? Who watches the Watchmen?

Por fim, não entendo: i) analistas rebaixando Estácio, depois de cair 17 por cento em 30 dias – agora, jura? O Cade pode ter miado o deal com a Kroton, o que não significa que tenha miado a Estácio. Se isso vier à casa de 12/13 reais, pra mim, é pra comprar, porque a empresa volta à prateleira rapidamente, num deal com private equity, SER ou Chaim Zaher, pelo menos na casa de 16 reais/ação; ii) Cosan tão barata por conta das preocupações com sell off em açúcar, sendo que hoje resultado da empresa responde pouco a isso, e com notícia, muito superficial e jogada, sobre eventual envolvimento na Lava Jato – empresa a 10 por cento de FCF yield to equity na iminência do anúncio de CIDE.

Uma coisa eu entendo: me sinto bem mais confortável em recomendar Bolsa agora que ninguém mais quer. Hoje, é bem mais difícil sugerir pré e indexado pra 2019/20, porque todo mundo tem e é tecnicamente desfavorável – ainda que concorde com o racional, dá um certo bode de compactuar com o consenso. Estamos aqui atrás de um pouco mais do que isso.

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