Ooops, I did it again

Ooops, I did it again

Ao melhor estilo da tail hedger Britney Spears, aconteceu de novo…Ah, você pode imaginar, essa não é a minha primeira homenagem a ela…

Na última terça-feira, as puts (opções de venda) de Vale e Petrobras recomendadas na Carteira Empiricus subiram, respectivamente, 253,8% e 113,6%. Enquanto o mercado tomava um banho de sangue, o portfólio sugerido atravessava a tempestade praticamente incólume, com os seguros-catástrofe comprados previamente sendo devidamente acionados. Com um percentual ínfimo da Carteira neles alocado, podemos proteger quase a integralidade do portfólio, mesmo tendo 25% de exposição ativa em Bolsa, numa demonstração prática do que Mark Spitznagel chamou de “Paradoxo do maior retorno com menor risco” – vale a pena ver no YouTube. Simples, rápido e muito didático.

A Carteira Empiricus sobe no ano 7,92%. Note que o Ibovespa, que ainda é um dos melhores investimentos de 2017 mesmo com a volatilidade de março, marca alta de 4,56% no período. Faço esse paralelo apenas para chamar a atenção para o fato de que a Carteira é montada para funcionar como um fundo multimercado, e acumula desempenho superior àquele do mercado acionário, grande destaque do ano. Claro que é pouco tempo (muito pouco) e sem significância estatística, muito suscetível à aleatoriedade. Também há de se reconhecer que, ao primeiro deslize, pode-se entregar tudo. Não existem gênios ou heróis neste mercado. Eles viram imbecis e vilões no próximo tropeço, que sempre está logo ali. Apresento esses dados não como tentativa de demonstrar competência individual. Não é o caso, verdadeiramente. Peço, gentilmente, para que não se leve por esse lado. Quero provar um método. Tudo e só isso, associado à possibilidade de as pessoas físicas terem mais risco do que costumam ter em seus investimentos, protegendo essa exposição com hedge barato (infelizmente, nem tão barato no Brasil, porque o mercado de opções é tão desenvolvido aqui quanto o bairro do Soweto, com receio de que isso seja uma ofensa ao Soweto, mas é o que tem pra hoje).

Mas não quero perder muito tempo com isso. Passo pela questão brevemente apenas para alertar sobre a necessidade de o investidor sempre e, também, sempre manter seguros em sua carteira. O ministério das Finanças adverte: um pouco de paranoia faz bem à saúde. Por conta da convexidade (nada é linear no mercado financeiro), muito risco e muita proteção é preferível a pouco risco.

Vamos em frente. No fundo, o comportamento de ontem, que, ao menos até o momento, parece repetir-se hoje com menor intensidade, foi apenas mais uma certeira jogada de marketing da Empiricus, como rigorosamente tudo que fizemos nesses sete anos e meio. Levando as táticas de guerrilha da propaganda ao limite, fomos até Dailan (China), montamos uma posição short agressiva em mercados futuros de minério de ferro e, simultaneamente, espalhamos pelo mundo a pós-verdade de que agora Trump enfrentará maior resistência no Congresso americano.

Oh, I’m not that innocent (uso o inglês apenas como nova referência à Britney – em português, seria Eu não sou tão inocente). Vamos falar sério…

Mercados estão sob intensa elevação do grau de aversão a risco desde a terça-feira. Preocupação maior é de que Trump enfrente resistência do Congresso norte-americano para aprovar suas medidas fiscais expansionistas, notadamente o corte “fenomenal” de impostos e aumento dos gastos com infraestrutura. Temor foi catalisado por barreiras impostas pelos parlamentares, mesmo dentro do partido republicano, contrariamente às mudanças no Obamacare.

Em outras palavras, agora está em risco o “Trade Trump”. Desde a eleição, colocaram no preço uma forte expectativa de expansionismo fiscal nos EUA, cujos corolários pragmáticos seriam:

incremento do preço de commodities por conta dos gastos com infraestrutura (maior demanda por aço, minério de ferro, etc), desvalorização de moedas de países com exportações elevadas para os EUA, notadamente o México, por conta de medidas protecionistaas, elevação vigorosa das taxas de juro, com política monetária tendo de responder a pressões inflacionárias provenientes da expansão fiscal, o que acarretaria apreciação do dólar contra as principais divisas.

Pessoalmente, nunca compactuei muito com todo esse pacote. Desses elementos, partilhava principalmente da convicção no dólar mais forte contra as principais divisas, mas isso era mais resultado do maior dinamismo da economia norte-americana frente às demais, resultando necessariamente em uma política monetária mais apertada nos EUA comparativamente aos demais países. Com juro subindo nos EUA e uma economia crescendo mais forte, seria natural esperar o fortalecimento do dólar, com ou sem Trump – o novo presidente apenas imprimiria, na maior, um pouco mais de velocidade e intensidade ao movimento, principalmente contra as moedas asiáticas.

Sobre a valorização acentuada de commodities, sempre me mantive cético. E isso foi, inclusive, um erro nos últimos meses. Perdemos boa parte do rali de Vale coisas parecidas. Assumo a responsabilidade sem tergiversar, mas sempre hei de lembrar a preferência em incorrer no erro tipo 2. É melhor não comprar e ver algo subindo do que comprar e ver algo caindo. Não ganhar ainda é melhor do que perder. Tempus dominus rationis est.

Minério de ferro, pra mim, sempre foi determinado pela dinâmica dos mercados na China. A promessa – e, por ora, não passa disso – de um plano formidável de infraestrutura nos EUA não me parecia suficiente para continuar bombando o preço da commodity, que acaba de entrar em bear market. A China, por sua vez, ainda que tenha estabilizado seu crescimento no curto prazo diante do empurrão do canal do crédito, sofre de desequilíbrios estruturais e forças especulativas importantes em seus mercados futuros, que respondem por um múltiplo alto da produção física.

Já o petróleo também enfrenta uma resistência importante. Ainda que a Opep consiga controlar sua oferta (e mesmo sobre isso sempre permanece uma dúvida de que, a qualquer momento, um membro goze de incentivo para burlar o cartel e aumentar sua produção particular), a disponibilidade nos EUA tem aumentado destacadamente. Com efeito, a indústria de shale nos EUA mudou o paradigma deste negócio e muitos ainda resistem a entender – a barreira de US$ 50/barril é difícil de ser superada.

Soma-se ao clima externo mais negativo a primeira derrota formal do Governo Temer na reforma da Previdência. Ao retirar servidores estaduais e municipais da proposta, pioramos a qualidade do ajuste. Também isso possa ser endereçado no acordo com estados. Também facilita a aprovação da reforma como um todo, mesmo que uma reforma pior. Ainda assim, factualmente, houve uma derrota e ela certamente será levada ao preço dos ativos.

Na agenda doméstica, IPCA-15 veio em linha com as projeções (mais sobre isso abaixo) e todos esperam anúncio de contingenciamento dos gastos – falam em R$ 60 bi, R$ 45 bi e R$ 30 bi; saberemos daqui a pouco.

Nos EUA, saem estoques de petróleo e vendas de casas usadas.

Ibovespa Futuro abre em queda de 0,5%, juros futuros sobem e dólar avança contra o real, reagindo ao clima de aversão a risco.

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