S01E26 – Cast Away

S01E26 – Cast Away

João nasceu em uma favela carioca, filho de um pai alcoólatra e de uma mãe relapsa. Passava a maior parte do tempo sozinho, nunca teve muito incentivo para estudar e, assediado pelo traficante “dono do morro”, entrou para o mundo do crime.

Morreu jovem, baleado por rivais.

Com um histórico destes, difícil acreditar que ele poderia ter um destino melhor, não?

Foi abandonado pelo pai, cresceu sem contato com a mãe, não teve ninguém que o incentivou a estudar, viveu cercado pelo crime e acabou se rendendo ao tráfico. Deu continuidade ao ciclo de ruína.

João estava fadado a “dar errado”.

Todas as peças se encaixam, é uma história conhecida, retratada em filmes, novelas e até em uma música de 237 minutos do Legião, que, inclusive virou filme.

A arte imita a vida e a própria arte.

Mas, pense bem.

Será que essa sequência de eventos explica a história de todos os outros “Joãos” que cresceram em morros cariocas, foram abandonados pelo pai, cresceram longe de suas mães e foram assediados pelo dono do morro?

Muitos Joãos estudaram, cresceram, levaram uma vida honesta, criaram seus filhos e quebraram o ciclo da miséria – na verdade, só uma vasta minoria se envolveu com uma menina rica e/ou duelou com um traficante concorrente.

Analogamente, quantos meninos adotados e criados por um pai perfeccionista fundaram a maior companhia do mundo na garagem de suas casas?

Quase todo mundo que escreve a biografia de Steve Jobs cai na tentação de ligar seu sucesso e obstinação a seu passado e história de vida.

Mas devem existir milhões de crianças em condições similares e apenas uma Apple.

Quem conhece a obra de Taleb, pai intelectual da Empiricus, sabe bem o que é a Falácia Narrativa.

Taleb fala que, para tentar explicar e entender a história, construímos uma sequência de eventos em cadeia que se acomoda à realidade observada.

É uma técnica ótima para explicar aquilo que vemos, mas ignora tudo que não vemos.

Prever o futuro com base nessas “historinhas” é tão eficaz quanto tentar limpar o Tietê com uma peneira.

Mas é reconfortante pensar que o mundo é racional, que as coisas acontecem por um motivo e que nosso esforço será recompensado.

Nossas mentes buscam, o tempo todo, motivos e relação de causa e efeito.

“A Bolsa subiu porque Trump disse que vai cortar impostos”.

“Minério caiu porque o estoque nos portos chineses está alto demais”.

Para analistas, me incluo, é bastante conveniente ter essas explicações – funciona, faz sentido e justifica a nossos empregos, mas, na verdade, ninguém sabe de nada.

O mundo é muito mais randômico e caótico do que gostamos de assumir e nossa capacidade preditiva é tão boa quanto a de uma moeda.

Tem muito mais borboleta batendo asa em Pequim do que a gente tem ideia.

Um bom exemplo é essa bagunça toda que o Trump está provocando por aí.

Bomba para cá, porta-aviões para lá.

Uma provocada na Rússia aqui, uma beliscada na China acolá.

Em nossas reuniões semanais, fico tentando argumentar e prever se vai virar alguma coisa mais séria.

Uma Terceira Guerra Mundial? Uma nova Guerra Fria EUA x China?

“Estoque de minério em níveis astronômicos na China – estão se preparando para guerra!”

Mas, eu lá sei o que leva a uma guerra?

“A Primeira Guerra teve origem no assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand da Áustria, que era herdeiro do trono Austro-Húngaro, em Sarajevo em 28 de junho de 1914.
Quando o Império Austro-Húngaro deu um ultimato ao Reino da Sérvia, houve uma crise diplomática e as alianças formadas ao longo dos anos se posicionaram. Em pouco tempo a guerra se espalhou e as principais potências entraram em conflito.”

É uma explicação absolutamente plausível, mas quantas vezes na história tivemos eventos tão ou mais graves que não resultaram em guerras mundiais?

Depende de muito mais do que um assassinato ou um ultimato – são diversos interesses comerciais, décadas de divergências (e convergências) culturais e ideológicas, situação econômica dos países, pressões políticas internas e externas e, muitas vezes, até o interesse particular de governantes e governados.

Mas, é muito mais legal falar: “mataram o cara lá, pessoal ficou puto e rolou uma baita guerra”.

Meu ponto com essa história toda é o seguinte: a gente só vai saber quando for tarde demais.

Assim como é impossível prever se vai chover em dois meses, não dá para saber se o Kim Jong-un vai explodir Seul ou se o Putin vai tentar tomar a Síria.

Como EUA e China vão reagir?

No meio de tudo isso, para onde vai a Bolsa?

Não sei, não sei e não sei.

Esse é o primeiro passo – assumir a ignorância.

É igual tratar um vício.

Primeiro você assume que está bebendo demais.

Depois, procura ajuda.

E passa a viver o tempo todo se cuidando para evitar uma recaída.

Com seus investimentos, depois de assumir que não sabe de nada, começa a montar seu portfólio para que as coisas funcionem “haja o que hajar”.

Diversificar com algumas puts.

Comprar ativos que vão bem quando tudo vai mal.

Explorar a convexidade das ações, manter alocação grande em ativos de baixo risco.

Apostar centavos para ganhar milhões e jamais apostar milhões para ganhar centavos – nunca venda a call, amigo.

Por mais que analistas, investidores, gestores e demais gurus do mercado financeiro tentem sofisticar o discurso, nesse jogo, ganha quem ficar em pé por mais tempo.

Ganha o cara precavido, que faz seguros.

Que, depois de guerras e tempestades, sai machucado, mas nunca quebrado.

Ganha o cara que sabe que não sabe e que, por isso, está preparado para o que quer que ocorra.

Somos todos náufragos à mercê da maré, sem nem uma bola de vôlei para bater um papo.

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