A última tentação do investidor

Queremos nos sentir capazes de antever as movimentações dos próximos pregões, das semanas subsequentes. A verdade, porém, é que simplesmente não podemos.

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A última tentação do investidor

“Qual caminho tomar?”, pergunta Alice.

“Ora, para quem está perdido qualquer caminho serve”, responde o Gato.

Sempre há dois caminhos. Você escolhe. Em todas as vezes em que elevam-se a incerteza e a volatilidade, o investidor se sente tentado a abandonar suas posições de risco e migrar para a segurança. Ele pode fazer isso. Ou pode se apegar aos fundamentos estruturais.

“Felipe, acumulamos bons ganhos desde a recomendação para comprar Braskem; não seria a hora de sair? Você não está vendo o avanço das delações? Não lê jornais? Vamos preservar os ganhos antes que seja tarde!”

“O mundo está à beira de uma guerra nuclear e você recomendando Bolsa, irresponsalvemente. Estou à espera de uma comunicação. O Ibovespa já cai 3% em abril.”

“Os riscos para a reforma da Previdência são crescentes. Estou perdido. Devo realizar meus lucros em Bolsa?”

O amor ao analista é eterno enquanto dura a sequência de alta. As coisas pareciam, de fato, ter piorado nas últimas semanas. Então, vamos vender agora, esperar uma realização e comprar depois mais barato, certo?

Sempre superestimamos nossa capacidade de time the market, de adivinhar os movimentos de curto prazo. Portadores de uma ciência maior e munidos de expectativas racionais – afinal, somos economistas, conhecedores das causas e dos efeitos -, não cometemos erros sistemáticos. Na média, sabemos exatamente o que vai acontecer amanhã. Arre, estou farto de semideuses.

A razão é uma grande emoção, é o desejo de controle. Queremos nos sentir capazes de antever as movimentações dos próximos pregões, das semanas subsequentes. A verdade, porém, é que simplesmente não podemos.

Estamos sujeitos às forças da aleatoriedade. Iludidos pelo acaso, criamos uma falácia da narrativa para supor como dar-se-ão as movimentações futuras. Os jornais adoram histórias. Elas cabem facilmente no nosso cérebro e ajudam a vender. “Investidor foge da Bolsa com risco à Previdência e temor com Trump.”

O que lhe teria acontecido se você tivesse se desfeito de suas posições em Bolsa ao final da semana passada, temendo o aumento da incerteza? Simplesmente teria perdido o rali de ontem, quando ações de bancos e outras empresas cíclicas domésticas subiram 5%. Se você simplesmente evitou as ações de Vale – conforme sugerimos -, sua carteira de Bolsa está positiva em abril, mesmo diante da tão falada maior aversão a risco agora, do medo com a Coreia do Norte, da democrática delação da Odebrecht, das idas e vindas sobre a reforma da Previdência. O book de ações da Carteira Empiricus, por exemplo, sobe 1,6 por cento neste mês, com ganhos acumulados de quase 13 por cento em 2017.

Em Bolsa, poucos dias fazem a diferença. A tentação de mexer suas posições como tentativa de identificar movimentos de curto prazo é enorme. Ela, porém, impõe-lhe o risco de perder variações súbitas e expressivas como as de ontem, capazes de explicar boa parte dos retornos de longo prazo. Se retirarmos as cinco melhores performances diárias do retorno do Ibovespa em cada ano chegamos a um resultado impensavelmente inferior ao reportado pela amostra cheia.

Em vez de tentar time the market, precisamos reconhecer nossa ignorância e permanecer apegados ao estrutural, aceitando a volatilidade de curto prazo, contra a qual podemos nos proteger a partir da compra de seguros-catástrofe, que deve ser uma prática recorrente. Conforme seus ganhos vão aumentando em Bolsa, você vai destinando um bocado dos lucros à  compra de hedge. Assim, quando as realizações ocorrem, seus seguros se valorizam e você pode dormir tranquilo mesmo se houver disparo da mãe de todas as bombas. Já se elas não ocorrerem, você continuará exposto a ativos de risco e se beneficia da trajetória ascendente, perdendo apenas o dinheiro gasto previamente na compra do seguro. Isso é muito melhor do que ficar tentando adivinhar quando entrar e/ou sair da renda variável.

Aqueles que se desesperaram ao final da semana passada dormiram arrependidos ontem.

Hoje, a aversão a risco volta às praças financeiras internacionais e a história se repete, igualzinho. Os comprados que comemoraram a alta da véspera se exasperam para vender agora, tremendo com a chance de uma nova realização drástica iminente. E assim vai, até a próxima grande variação diária, aquela que fará a diferença a longo prazo.

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Mesmo num bull market estrutural, acontecem grandes correções. Em trajetórias de longos períodos, elas parecem apenas uma perninha de baixa – observe você mesmo um gráfico de longuíssimo prazo do Ibovespa. Quando estamos vivendo aquela perda de 20, 30, talvez 50 por cento, parece infernal. Logo passa. Só surfou integralmente a multiplicação de 2x, 3x, 11x do bull market o sujeito que tolerou a queda de 50 por cento. Esteja preparado.

Ibovespa Futuro inicia terça-feira em queda de 0,5 por cento, acompanhando movimento das bolsas no exterior, onde mineradoras são destaque de queda, com novo recuo do minério de ferro (-3,7 por cento) a partir de preocupações com excesso de oferta. Convocação de eleições antecipadas por Theresa May ajudar a elevar aversão a risco, em postura surpreendente para os britânicos. Dólar sobe 0,25 por cento sobre o real.

Internamente, leitura mais benigna da ata da última reunião do Copom ajuda a conter pessimismo e empurra para baixo juros futuros. Documento mostrou avaliação da possibilidade de um corte de 1,25 ponto no encontro da semana passada, o que pode abrir espaço para aceleração do ritmo à frente. Parece que 8,5 por cento para Selic ao final do ano virou teto.

Há grande expectativa por leitura do texto final da Previdência. Anteriormente prevista para hoje, pode acabar ficando para amanhã, com Planalto enfrentando pressões adicionais aos 45 minutos do segundo tempo. Ainda assim, parece fortalecida a percepção de que alguma reforma passa – questão está mais em quão desfigurado sairia o texto.

Com Selic de 8 por cento, PEC do teto de gastos e uma reforma da Previdência (mesmo que eu preferisse “a” reforma), associados à preservação do interregno benigno no exterior, não veria mesmo razões para abandonarmos a Bolsa agora. Com Turquia e África do Sul explodindo, China estourando a bolha do minério de ferro e o México sob ameaça de protecionismo de Trump, não me surpreenderia de em pouco tempo voltarmos a ser o queridinho do estrangeiro. Se a onda Doria colar, dai pode esperar pelo Cristo decolando na capa da Economist. Será a hora de vender.

Enquanto isso, estamos na ponta compradora. Sergio Oba acaba de soltar uma recomendação bastante quente no Serious Trader. Resultado vem muito forte no primeiro trimestre e não está ainda na conta de ninguém. Hora de entrar é justamente agora.

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