Vix Cristina Barcelona, o pecado original e a mordida na maçã

O processo de investimento, como qualquer outro, se dá por tentativa e erro. Ainda bem.

Compartilhe:
Enviar link para o meu e-mail
Vix Cristina Barcelona, o pecado original e a mordida na maçã

Ele era divertido. Uma pena que diversão não enche barriga. Suas recomendações de investimento não eram tão boas quanto suas piadas. Ao final, acabamos demitindo o sujeito, mas confesso que aquele analista nos rendeu conversas memoráveis.

FM: Mas, Fulano, esta sua projeção de lucro está muito baixa….
Fulano: É que projetei esta linha em dólar.
FM: Ah, tá. Mas esta aqui parece alta demais…o próximo trimestre ainda sofre com vendas fracas e pressão de custos…
Fulano: Nããão…é a estimativa do semestre… isso que você não entendeu!

 

De fato, eu nunca entendia. Com grande capacidade de enrolação, ele sempre estava um passo à nossa frente. Ou achava que estava, claro. Esses subterfúgios de mudar a moeda ou o horizonte da projeção, no final, tinham pouco efeito prático, pois a gente sempre acabava revisando os modelos. Fui descobrir mesmo que ele não era bom analista num outro dia.

Fulano: Não estou confortável com essa recomendação que fiz. Dei um buy, mas as coisas não estão caminhando conforme o esperado. Não sei o que faço com essa ação.
FM: Ora, avise os clientes imediatamente da questão e encerre a recomendação de compra.
Fulano: Mas eles não vão gostar. Sairemos no prejuízo.
FM: Não importa se eles vão ou não gostar. Eles deveriam gostar. E nossa função aqui é fazer o certo. O menor prejuízo é o melhor. A decisão mais certa é corrigir o erro o mais rápido possível. Quanto mais demorar, maior será o prejuízo. E, ai sim, os clientes não vão gostar. Perdemos pouco nesta, vamos ganhar muito na próxima.

Ele resistiu e eu acabei me desgastando, em parte por impaciência excessiva minha, acompanhada de uma intolerância insuperável com a incapacidade de assumir os erros.

Está gostando desse artigo?Insira seu e-mail e comece já a receber nossos conteúdos gratuitos

No fundo, aquilo refletia um viés devidamente documentado pela literatura de finanças comportamentais, tradicionalmente chamado de “endowment effect”. As pessoas tendem a atribuir valor excessivo a determinadas coisas somente porque já as possuem. Poderia ser resumido pelo lugar comum “pior do que não ter é já ter tido”.

Clubes de futebol (ou de qualquer outro esporte) atribuem muito valor a jogadores já pertencentes a seu elenco, cidadãos sentem mais a perda de um milhão do que o ganho de um milhão, investidores valorizam mais as ações que já têm comparativamente àquelas que não têm – obviamente, isso fere o princípio da racionalidade estrita, pois com um botão você pode se desfazer daquela ação ruim e recuperar seu dinheiro numa nova, melhor.

O processo de investimento, como qualquer outro, se dá por tentativa e erro. Ainda bem. Se não houvesse o erro, não teríamos mutação genética. Ainda estaremos em cima de uma árvore comendo banana e batendo no peito feito o King Kong.

George Soros, segundo suas próprias palavras, é tão diferente em relação aos outros não por conta de sua capacidade de acertar. Ele erra como qualquer outro. Sua vantagem , de acordo com o próprio, está em identificar rápido o equívoco e, sem tergiversar, ajustar a rota imediatamente.

Escreva sua tese de investimento. As razões porque você está comprando aquela ação, aquele título ou aquele fundo. Anote também eventos que, se acontecerem, indicarão que a tese original não está sendo cumprida. Formalize mesmo o processo de tese e antítese ex-ante. Isso vai ajudar a identificar quando e se você errou. Se for o caso, encerre a posição e parta para outra. Errar, neste caso, pode significar que você não foi suficientemente diligente na montagem da tese ou que chegaram fatos novos imprevisíveis indicando que as coisas não caminharam como previsto. Pragmaticamente, não importa. Não é um exercício de autoavaliação e comprovação de suas competências individuais para estar certo. Você precisa ganhar dinheiro aqui. Tudo e só isso.

Veja que se desfazer de posições por conta de uma evolução inesperada de cenário ou por erro de avaliação não significa stopar compulsoriamente. Você traçou uma tese que não se materializou. É disso que estamos falando. Vai acontecer e, sendo assim, é melhor assumir o erro o quanto antes puder.

Somente alguns gestores brasileiros, muuuuito melhores do que George Soros, claro, nunca erram. Ou, ao menos, vão tentar convencê-lo disso.

Veja a fatídica quinta-feira do cisne negro associado ao áudio Temer-Joesley. Se o gestor caiu muito naquele pregão e stopou as posições, errou duas vezes. Primeiro porque possivelmente estava muito alavancado e sem nenhuma proteção. E depois porque saiu das posições no pior momento. Ele vai construir uma retórica de que o stop foi necessário para gestão de risco e aquilo demonstrou sua disciplina. No mercado, porém, feliz ou infelizmente, somos julgados por um único critério. Acertamos ou erramos pelo nível da cota, se ganhamos ou perdemos dinheiro com aquela decisão. Essa é a missão. O resto é casuística.

Isso, claro, não faz o fundo ruim ou o gestor menos genial. Também não vai retirar o brilhantismo do histórico, nem abalar minha admiração, grande e verdadeira, por quem ganha e ganhou muito dinheiro para seus cotistas ao longo dos anos, possivelmente numa caminhada irreplicável. Os gênios são poucos e merecem todo o respeito. Mas eles também erram.

A maior parte das pessoas tem medo dos erros dos gestores/analistas/investidores. Eu tenho medo mesmo é dos que nunca erram.

Neste momento, confesso ter medo de outras duas coisas também:

– A volatilidade está excessivamente baixa no mercado internacional. Nos últimos 20 anos, o Vix, espécie de termômetro da volatilidade, fechou abaixo da marca de 10 pontos apenas por 11 oportunidades; desse total, sete dias foram no mês passado. Claro que surgem as teorias de que “desta vez é diferente”. Até hoje, todas as candidatas a diferente foram se mostrar iguaizinhas às anteriores;

–  Mercado me parece subestimar o risco da ascensão de Jair Bolsonaro. Com a esquerda morta e o PSDB se esforçando para imitar essa condição, ele tem se aproveitado para ocupar o vácuo – Paraná Pesquisas acaba de mostrar empate entre Lula e Bolsonaro nas intenções de voto para 2018. Não estou aqui para dar minha opinião pessoal sobre Bolsonaro. Pragmaticamente, isso não tem a menor importância. Aqui falo de um risco no sentido de que há incerteza sobre o candidato, com sinais ambíguos sobre sua política econômica. Neste momento, não há clareza se ele é um liberal ou um intervencionista/nacionalista. Situações de incerteza são tipicamente associadas à cobrança de mais prêmio por risco.

Conteúdo recomendado