Bancos e consultoras veem uso político do governo no caso Santander

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Instituições devem adotar mais cautela em relatórios enviados para clientes

SÃO PAULO, RIO E BRASÍLIA — Assustados com a reação do governo no episódio do Santander, bancos e corretoras devem adotar a partir de agora uma postura mais cautelosa quando tratarem do tema eleições em seus relatórios enviados a clientes. Segundo analistas, essas instituições temem sofrer represálias do Planalto, já que mantêm relações diretas com o governo, por meio do BNDES ou dos bancos públicos, como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal (CEF). Ainda pela avaliação do mercado, o Santander talvez tenha errado o tom do seu comunicado, dando a impressão de que emitiu uma opinião política, e não uma análise técnica da conjuntura econômica. No entanto, o governo também teve uma reação exagerada e tentou tirar proveito político do caso, avaliam economistas ouvidos pelo GLOBO. Eles afirmam, porém, que as eleições continuarão a ter espaço nos relatórios, como acontece em todo ano eleitoral.

— O fato de a Bolsa subir quando as pesquisas de intenção de voto mostravam queda de Dilma já vinha sendo tratado nos relatórios produzidos pelos bancos. Talvez o Santander tenha errado o tom do comunicado. Mas a reação do governo também foi exagerada e considerada uma censura à opinião de uma instituição privada. O assunto ganhou um tom absolutamente político, e não econômico — disse o profissional de um grande banco, que pediu anonimato.

SANTANDER DEMITE ANALISTA

O banco espanhol enviou a 40 mil correntistas de alta renda um texto no qual diz que, “se a presidente se estabilizar ou voltar a subir nas pesquisas, um cenário de reversão pode surgir. O câmbio voltaria a se desvalorizar, juros longos retomariam a alta e o índice da Bovespa cairia, revertendo parte das altas recentes”.

A presidente, candidata à reeleição pelo PT, considerou inadmissível essa vinculação. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que a pessoa responsável pelo relatório “não entende de Brasil ou do governo Dilma” e que o “banco poderia mandá-la embora e dar o bônus pra mim, que eu sei como é que eu falo”.

Presidente do Conselho do Santander, Emilio Botín confirmou ontem que uma pessoa da instituição foi demitida devido ao episódio.

— A pessoa foi demitida porque o banco, advertido, disse que tinha que ser demitida antes — disse Botín aos jornalistas, sem mais detalhes, após o encerramento do III Encontro Internacional de Reitores, patrocinado pelo banco espanhol, no Rio.

Por causa do relatório enviado aos correntistas, o vice-presidente Michel Temer cancelou sua ida ao encontro de reitores. Sobre a insatisfação de Lula, Botín se limitou a dizer ser amigo do ex-presidente:

— O presidente Lula é muito amigo meu, e para ele só tenho elogios.

CONSULTORIA É OBRIGADA A SUSPENDER ANÚNCIOS

O diretor de um banco consultado pelo GLOBO avaliou que o governo já estaria incomodado com as análises negativas do mercado financeiro em relação às eleições, mas o caso do Santander foi a gota d’água, porque o texto foi enviado a clientes de varejo, e impresso num extrato. Normalmente, esse tipo de análise é dirigido aos grandes investidores.

A Consultoria Empiricus, especializada na análise de ações na Bolsa, também foi alvo do governo. A campanha petista ficou incomodada com anúncios veiculados na internet pela consultoria, nos quais se aconselha “como proteger seu patrimônio em caso de reeleição da Dilma, já” e “que ações devem subir se Aécio ganhar a eleição? Descubra aqui, já”. Segundo a Empiricus, os anúncios foram tirados do ar, após decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em resposta à queixa da campanha petista.

— Os anúncios foram baseados em análise factual, compartilhada por outras pessoas do setor. É absurdo relacionar isso a uma questão eleitoral. Como vou explicar a valorização da Petrobras na Bolsa nos últimos meses sem recorrer aos levantamentos eleitorais? Serei obrigado a inventar que foi por causa da expectativa de balanços financeiros positivos da empresa? — disse Felipe Miranda, sócio da Empiricus.

“SE NÃO PUDERMOS FAZER, É MELHOR FECHAR”

Para Miranda, diferentemente dos bancos, que ganham dinheiro com outros serviços, o trabalho de sua consultoria é exclusivamente baseado em dar opiniões sobre o mercado.

— Se não pudermos fazer isso, é melhor fechar a empresa. Não posso afirmar se nossa opinião se mostrará correta ou não, mas nossa crítica é honesta — disse.

Segundo Miranda, a representação contra a campanha da Empiricus se insere em “uma postura generalizada do governo, que é incapaz de receber críticas”.

O candidato do PSDB à Presidência, senador Aécio Neves (MG), também criticou a reação da presidente e do PT ao relatório do Santander. Para Aécio, em vez de tentar politizar uma análise técnica e pedir a punição da pessoa do banco, a presidente Dilma deveria apresentar uma agenda positiva para melhorar a economia.

— Se forem demitir todos que estão fazendo avaliações negativas da economia e do governo da presidente Dilma, vão ter que demitir muita gente. Ninguém contestou o teor da avaliação, se contentaram em pedir a punição de quem fez a avaliação. O governo deveria era estar mais preocupado em reagir positivamente do que em punir o funcionário — ironizou Aécio.

“CRIVO MAIOR”

Segundo um gestor de patrimônio, que preferiu não ser identificado, os incidentes com o Santander e a Empiricus já provocaram mudança na burocracia interna dos bancos. Normalmente, as equipes de análise dessas instituições têm certa independência para produzir relatórios. Eles são elaborados em reuniões nas quais o analista escreve sua opinião, submetida à aprovação de um analista-chefe.

— Agora, as opiniões passarão por um crivo maior, já que se constatou que o governo está muito sensível a elas. Antes de serem aprovados, os relatórios vão circular por mais funcionários do banco, mais gente do topo da hierarquia, para impedir que se escreva algo que gere constrangimento — disse o gestor.

Num sinal de que o mercado não esquecerá o tema das eleições, o economista-chefe da TOV Corretora, Pedro Paulo Silveira Vale, disse que as reações do PT ao relatório do Santander despertaram mais desconfiança do mercado em relação ao que pode ser classificado como uma “postura bolivariana” de ação institucional. Para ele, a credibilidade do governo já está em baixa junto ao mercado, com indicadores ruins da economia, e esse comportamento pode despertar reações ainda mais negativas.

De acordo com o economista de uma grande corretora, o consenso do mercado é que os casos Santander e Empiricus forçarão uma mudança na terminologia usada pelos bancos para falar com clientes e imprensa.

— Os analistas não serão mais tão agressivos em suas declarações. Ninguém mais vai dizer que a Bolsa está caindo porque a Dilma ganhou pontos na pesquisa. Em vez disso, dirão que o contexto eleitoral é um dos fatores que explicam o resultado — disse o economista.

E complementou:

— Todo o mercado está falando a mesma linguagem, mas a forma está assustando o PT. Então, as mesmas coisas continuarão sendo ditas, só que de uma forma menos incisiva.

O sócio de uma grande gestora de recursos admitiu que o Santander “podia ter sido mais cuidadoso em sua comunicação aos clientes”, mas não precisava ter pedido desculpas públicas pelo episódio.

— O banco apenas disse aos clientes o que está acontecendo no mercado. Não precisava pedir desculpas, e nem era preciso expor a pessoa que escreveu a análise demitindo-a — afirmou ele.

Nos últimos meses, a Bolsa de Valores e o câmbio têm reagido positivamente a pesquisas de intenção de voto em que a presidente Dilma Rousseff perde terreno frente a seus adversários e a possibilidade de que seja realizado um segundo turno. Só as ações da Petrobras subiram mais de 13% desde maio até agora, diante da perspectiva de que seja realizado um segundo turno. O Ibovespa, principal índice do mercado de ações brasileiro, também se valorizou quase 8% no mesmo período, rondando os 58 mil pontos, ao maior nível em mais de 16 meses, embalada pelas pesquisas eleitorais.

— Os investidores já estão na expectativa de novas pesquisas eleitorais regionais que o Ibope deve divulgar. Elas também trarão sondagens das intenções de voto para presidente — disse o estrategista da SLW Corretora, Pedro Galdi.

Fonte: O Globo

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