Economistas ligados à oposição criticam gestão Dilma

O baixo crescimento do país se deve, principalmente, a erros na gestão da economia, segundo avaliação dos economistas Mansueto Almeida, Marcos Lisboa e Eduardo Giannetti. Os três participaram de debate, na manhã desta segunda-feira (18), em São Paulo.

Embora identificados com candidatos à presidência -Mansueto é colaborador de Aécio Neves (PSDB) e Giannetti é um dos conselheiros de Marina Silva (PSB) na área econômica-, os dois disseram defender posições pessoais.

O diagnóstico de Giannetti é que houve uma piora na qualidade da política econômica desde o segundo mandato de Lula (2007-2010), que contribuiu para que o Brasil deixasse de ser uma “estrela do mundo emergente” para viver “o extremo oposto, da estagflação [combinação de inflação elevada e crescimento baixo]”.

“Não começou com Dilma, embora tenha se aprofundado com ela”, afirmou ele. “Nós voltamos para uma situação certamente ruim, mas com uma combinação pouco usual, de crescimento baixo, inflação elevada e deficit externo”.

Segundo ele, políticas econômicas bem-sucedidas feitas durante os governos FHC (1995-2002) e Lula 1 (2003-2006) foram substituídas. “O governo perdeu o pé”, disse.

Giannetti criticou o que considera o enfraquecimento do chamado tripé macroeconômico (câmbio flutuante, meta de inflação e independência do Banco Central na fixação da taxa de juros). Além disso, segundo ele, a gestão microeconômica, que tem como objetivo melhorar o ambiente de negócios das empresas, também ficou pior.

“Não cabe ao Estado substituir o mercado ou eleger, em nome do mercado, vitoriosos e merecedores de benefícios, concessões, créditos. O papel microeconômico do Estado é melhorar as condições horizontalmente para todos os setores. Foi a agenda de FHC e do primeiro mandato de Lula”, disse.

Sob Dilma, afirma ele, a política passou ao “microgerenciamento, que gerou uma espiral intervencionista”. Ao criar incentivos pontuais, o governo produziu distorções econômicas, disse Giannetti, e perdeu o controle.

“Isso mina a confiança do setor privado e leva a uma paralisia da economia, como estamos assistindo nesse melancólico final de governo Dilma”, afirmou ele, que não descarta uma recessão técnica (dois trimestres seguidos de queda do PIB) ainda neste ano.

A crítica ao chamado “microgerenciamento” também é parte do discurso de Mansueto. O economista, que colabora com o programa econômico de Aécio, afirmou que os subsídios são às vezes justificados, principalmente quando voltados aos mais pobres.

“Ninguém aqui é contra subsídios, em alguns casos, como em transporte público e educação, são justificados. Só que o princípio básico da democracia é mostrar os custos e os benefícios da política. E isso se perdeu”, disse Mansueto.

A crítica é a mesma do economista Marcos Lisboa. Ele participou do governo no primeiro mandato de Lula e é um dos defensores de um monitoramento mais acurado dos incentivos dados pelo governo.

No debate, Lisboa criticou a política de preferência a produtores nacionais (conteúdo local) para a indústria naval. “O Brasil está tentando recriar pela terceira vez o setor naval”, afirmou.

Para ele, ao proteger alguns setores, prejudica-se outros, que perdem o acesso a equipamentos e tecnologia de ponta desenvolvidos no exterior. Além disso, argumenta, com os incentivos, criam-se grupos de interesse.

“Como desamarrar a rede de proteção a certos grupos, muitas vezes bem intencionada? Os incentivos da Zona Franca de Manaus, por exemplo, foram concebidos para durar 30 anos. Foram prorrogados e agora vão durar 50 anos”, disse.

Para o economista, é desse emaranhado de benefícios que nasce a complexidade tributária, que cria uma série de exceções, e as empresas precisam justificar os incentivos que obtêm. Para ele, é necessário dar uniformidade de tratamento a setores semelhantes, como médicos e advogados, papel de imprensa e papel de embalagem. “Por que um tem que pagar mais imposto do que o outro? Esse benefício embutido sempre será pago por todos”.

SEMELHANÇA

Com posições na área econômica por vezes parecidas, Mansueto e Giannetti acreditam que o debate político entre as duas principais candidaturas de oposição se dará em temas fora do aspecto econômico.

“As diferenças [entre a eventual candidatura de Marina e a de Aécio] são mais relevantes fora da economia”, disse Giannetti. “Não vejo diferenças dentro do campo econômico. Mas há diferenças relevantes em outras dimensões”.

“Eu me entendo como mais um colaborador [de Marina]. Meu engajamento se dá muito pelo compartilhamento de uma visão de longo prazo, de sustentabilidade, que se desdobra no valor central da educação e do meio ambiente”, afirmou. “Não concebo um futuro generoso para o Brasil sem que a educação básica e o cuidado exigente com o meio ambiente não façam parte”.

Mansueto defendeu que o embate de ideias é positivo para o país.

“Fico feliz em ver como o que Eduardo fala parece com o que a gente discute”, disse Mansueto, durante a palestra. “Todos os candidatos têm o dever de mostrar alternativas. A diferença vamos ver na campanha”.

Os três economistas participaram de debate promovido pela consultoria Empiricus, em São Paulo.

Fonte: Folha de S. Paulo

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