Empiricus usa literatura para atrair investidores

A casa independente de análise enriquece relatórios com literatura e irreverência vendendo no varejo como ficar rico na bolsa

Uma mistura improvável de personalidades do mundo econômico, como John Maynard Keynes e Warren Buffet, com escritores como Clarice Lispector e João Guimarães Rosa pode te ajudar a ficar milionário. Quem promete é a consultoria Empiricus, que aposta na irreverência – e na premissa de que, sim, qualquer pessoa pode lucrar em bolsa de valores – para atrair mais pessoas para o mercado. Este ano, a empresa abre uma editora, em um esforço para ampliar a base de clientes.

Na semana passada, por exemplo, o sertanejo Riobaldo, personagem da obra-prima Grande Sertão Veredas deu o tom de um relatório sobre a aridez do cenário econômico brasileiro. “O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias”, citou o analista Felipe Miranda, um dos fundadores da Empiricus, para reforçar a impressão de que o ano será difícil para o investidor. “A Clarice Lispector pode te deixar milionário” é título de relatório de outubro do ano passado.

“A gente recebia muito conteúdo de sell side, relatório de banco e, em geral, tinha duas críticas. Primeiro, a gente percebia algum tipo de viés nos comentários, nas recomendações. Segundo que, se pegar a média, muitos apenas comentam conteúdo de jornal”, conta Rodolfo Amstalden, outro sócio fundador. Colegas de faculdade, Rodolfo e Felipe se uniram em 2009 a dois profissionais já com carreira consolidada no mercado financeiro, Marcos Elias e Caio Mesquita, para fundar uma empresa de análise independente, com inspiração em consultorias de mercados mais maduros, como os Estados Unidos e a Alemanha.

Dos primeiros dias em um quarto nos Jardins, na capital paulista, ao momento atual, com 16 pessoas em dois andares de um prédio comercial, a empresa perdeu um dos fundadores (Marcos) ganhou um sócio estrangeiro (a americana Agora Inc) e reforçou o foco no varejo. A crise da bolsa no início da década teve papel fundamental neste processo. “A gente chegou a ter 20 corretoras como clientes, mas algumas faliram, outras cancelaram contrato. Então pensamos que, se nossa vocação para escrever é muito mais afinada com o varejo, porque não viramos para o varejo?”, recorda Rodolfo.

A palavra de ordem é a simplicidade, diz Amstalden. “A gente tenta fazer as citações de forma que não prejudique o entendimento de quem não conhece aquele autor. De qualquer forma, a pessoa tem que entender o recado”, diz. A irreverência da análise do mercado – que inclui um reality show sobre um investidor iniciante – rendeu em 2011 um processo na Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec), no qual Elias, Rodolfo e Felipe foram condenados por conduta inadequada ao publicar relatório apontando inconsistências no balanço do frigorífico Marfrig.

Rodolfo diz que hoje são 5 mil assinantes dos pacotes de análise e outros 5 mil compradores de produtos avulsos, responsáveis por 82% do faturamento da empresa. A Empiricus entende, porém, que o crescimento é limitado ao número de pessoas dispostas a investir em bolsa. “Há hoje uns 80 mil investidores ativos e já temos 78 mil cadastros”, comenta ele. Como estratégia para atrair novos clientes, a empresa já iniciou o processo de abertura de uma editora, que vai lançar livros voltados a investidores iniciantes. O primeiro título é “Você pode ser um milionário na Bolsa – Investir em ações não é coisa de expert”, escrito por Rodolfo e Felipe e distribuído aos clientes em evento no ano passado.

“Quando tínhamos modelo institucional, era muito atrelado ao crescimento do mercado. O mercado desandava, as corretoras começavam a fazer a degola, research vira luxo”, afirma Rodolfo. Já o pequeno investidor, completa, se mantém fiel, porque precisa se proteger também nos momentos de queda. “Quando a bolsa sobe, até um macaco fica rico, nem precisa de análise”, finaliza.

5 MINUTOS

RODOLFO AMSTALDEN
Sócio e analista da Empiricus

1) Qual a receita para ficar milionário em bolsa? Qual o investimento inicial?

É um trabalho que leva anos, tem que construir um patrimônio ao longo de anos. Mas, para começar, acho que R$ 2 mil ou R$ 3 mil. É melhor, no início, um investimento menor, porque, se perder, perde pouco. A gente aqui entende que bolsa se aprende na prática, tem que por a mão na massa. Se analisar, as pessoas que ficaram milionárias em bolsa ficaram colocando uma graninha todo mês, ao longo de décadas. Essa coisa de ficar milionário de uma hora para outra é coisa de Hollywood. É óbvio que um ou outro vai conseguir, mas não é a pessoa que sai na capa da revista que o investidor deve seguir.

2) Então é melhor começar desde cedo…

O ideal é que não comece tão cedo, enquanto você tem alguns custos que vida impõe, como comprar apartamento, carro, ter filho e tal. Porque o investimento leva tempo e, se você precisar de liquidez em bolsa, a liquidez pode te punir.

3) O mercado brasileiro está preparado para o investidor pessoa física?

Está mais preparado do que o número de pessoas físicas no mercado. A gente tem pouco menos de 600 mil investidores cadastrados na Bovespa, mas a maioria parado. É o mesmo número da Colômbia, que é 1/10 décimo do tamanho do mercado brasileiro. Se pensar em estrutura operacional, mercadológica, a gente tem condições de abarcar esse mercado, mas isso ainda não vem casado com a questão educacional. Nos Estados Unidos, você pode escolher matérias de educação financeira desde o segundo grau. Esse é um aspecto em que precisamos avançar muito. A parte educacional da Bovespa tem conteúdo sério, mas não é suficientemente atrativo para o investidor. Passa uma mensagem precisa, exata, só que não mexe com a emoção do investidor.

4) E recentemente tivemos um caso em que muita gente perdeu dinheiro, que foi a derrocada do grupo de Eike Batista. Isso afasta pequenos investidores?

Acho que afasta. De certa forma, é difícil fazer essa conta porque muita gente sequer entraria no mercado se não fosse o Eike. Mas é claro que a quebra do Eike expulsou muita gente do mercado. Independente de investir em bolsa ou não, o Eike era visto como uma referência do que pode ser o capitalismo brasileiro.

5) O cenário econômico atual é um limitador?

Nós, aqui na Empiricus, estamos entre as vozes mais pessimistas sobre o que vai acontecer com a economia brasileira, com a retirada dos estímulos pelo Fed, a piora nas contas públicas… A gente acha prudente se posicionar em renda fixa e diminuir exposição a bolsa, concentrando em empresas dolarizadas. Estamos bem pé no chão com isso mas percebemos que nossos leitores reconhecem isso e acabam assinando relatórios porque querem se defender também.

Fonte: Brasil Econômico

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