Perdas de R$ 55 bi com combustíveis

Último resultado positivo da estatal com a venda de derivados foi no quarto trimestre de 2010. Empresa volta a pedir reajustes

Embora reconheça que o câmbio vem ajudando a reduzir a defasagem dos preços dos combustíveis, a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, voltou na segunda-feira a sinalizar pressão sobre o acionista controlador por novos reajustes este ano. A defasagem teve novo impacto no balanço da empresa, ampliando em 13% o prejuízo da área de abastecimento, para R$ 4,8 bilhões. É o 13º trimestre seguido de perdas nas vendas de combustíveis — o quarto trimestre de 2010 foi o último em que a empresa ganhou dinheiro nesse segmento. O prejuízo acumulado da área de abastecimento da companhia soma R$ 55,4 bilhões no período.

“Avaliamos o momento de aplicar metodologia (de reajustes de preços) ainda neste ano”, afirmou Graça, em conferência com analistas do mercado financeiro para explicar o resultado do primeiro trimestre de 2014. “Enquanto perdura a não paridade plena, temos que estar considerando a correção de preços”, completou a executiva, informando que o tema tem estado na mesa em reuniões do Conselho de Administração da companhia. Segundo cálculos do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), a defasagem beira os 23%.

“Ao manter os preços artificialmente controlados, a Petrobras acaba subsidiando a diferença e isso se reflete no caixa da companhia”, diz o professor de Economia da Fundação Instituto de Administração (FIA), Carlos Honorato. Levantamento feito pelo Brasil Econômico
em balanços trimestrais da companhia mostra que a última vez em que a Petrobras vendeu combustíveis no Brasil com preços em dólar acima das cotações internacionais do petróleo foi no quarto trimestre de 2010, quando a área de abastecimento teve lucro de R$ 1,4 bilhão. Desde então, as cotações internas estão abaixo do custo internacional do petróleo.

O maior prejuízo trimestral foi verificado no terceiro trimestre de 2012: R$ 7,03 bilhões. A defasagem impacta mais os produtos importados, uma vez que a companhia usa petróleo nacional, mais barato, para produzir combustíveis no Brasil. Graça afirmou que a Petrobras tem sido beneficiada pelo câmbio, que oscila na casa dos R$ 2,20 por dólar e reduz a pressão sobre as importações de combustíveis para venda no mercado interno. Reajustes no final do ano passado e redução das importações no trimestre também contribuíram para impedir perdas maiores.

Mesmo assim, a empresa tem ampliado os programas de cortes de custos, com o objetivo de reverter o fluxo de caixa negativo e conseguir sustentar os investimentos no desenvolvimento de reservas. No início do ano, ao divulgar o Plano de Negócios e Gestão 2014-2018, a executiva anunciou que poderia rever investimentos futuros. Segunda-feira, disse que não há grande margem de corte entre 2014 e 2015. “Não é possível mexer no investimento no curto prazo. A Petrobras já contratou (equipamentos e serviços necessários para) a produção de 2018”, comentou. Este ano, o orçamento para investimentos é de US$ 40 bilhões.

Apesar do desejo da empresa, o mercado vê poucas chances de reajuste este ano. “Apesar da necessidade de reajuste para voltar a fazer os investimentos necessários, este tem sido um ano difícil para a inflação, que está beirando o teto da meta, com o agravante de ser um ano eleitoral com o governo perdendo espaço na preferência do eleitorado. Por isso será muito difícil a empresa conseguir o reajuste desejado”, afirmou o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini. Ele explica que um aumento de 10% nas distribuidoras, tanto da gasolina quanto do diesel, representa um impacto de 0,3 ponto porcentual no IPCA.

Honorato complementa dizendo que o reajuste da gasolina traz consigo um efeito cascata, com repasse para todos os setores que dependem de combustível. Ou seja, dificilmente o impacto no IPCA seria de apenas 0,3 ponto percentual. Assim, ele concorda que um reajuste seria extremamente inapropriado do ponto de vista político, mas destaca a necessidade de se adotar por conta do custo econômico que essa defasagem está trazendo para a companhia.

Honorato lembra que a estatal precisa melhorar o caixa justamente para ampliar investimentos em refino e, assim, diminuir a importação necessária para atender à demanda interna. Para ele, uma saída seria convencer o Conselho de Administração a realizar os reajustes gradualmente ao longo dos próximos anos, diluindo o impacto inflacionário. “Independentemente do impacto político, equiparar os preços é a única saída para acabar com a dilapidação do patrimônio da companhia”, diz o coordenador do curso de Ciências Contábeis da Faculdade Santa Marcelina, Reginaldo Gonçalves.

As ações preferenciais da estatal fecharam em alta de 2,04% ontem na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Os resultados ficaram acima da expectativa de analistas, mas ainda assim o futuro da companhia gera grande desconfiança no mercado. “Principalmente, considerando que a empresa está há 10 anos sem cumprir uma meta anual de produção”, resume Roberto Altenhofen, analista da Empiricus Research.

‘Recuperação em bolsa é questão de tempo’

A presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, disse acreditar que, em breve, a empresa estará apta a “recuperar o valor justo de mercado”, como reflexo das políticas de redução de custos e do aumento da produção de petróleo. Mesmo com atraso médio de cinco meses no início de operações de suas plataformas, a companhia mantém a meta de aumento de 7,5% na produção nacional de petróleo em 2014. Do ponto de vista financeiro, diz a executivo, a guinada só começa em 2015.

A Petrobras fechou o primeiro trimestre valendo R$ 199,7 bilhões em bolsa, uma queda de 39% com relação ao verificado no primeiro trimestre de 2011, quando foi iniciada a série ininterrupta de prejuízos na área de abastecimento. Questionada sobre o que diria aos investidores que perderam dinheiro com ações da empresa, Graça afirmou que passaria uma mensagem “de muito trabalho para fazer uma empresa mais produtiva, integrada e com custos reduzidos”.

“É uma empresa que tem descobertas grandes e nenhum confronto com suas reservas. É uma questão de tempo. Acredito que em muito pouco tempo vamos recuperar nosso valor justo de mercado”, completou, lembrando que nas últimas semanas as ações da estatal têm apresentado melhora — embora parte da alta seja justificada, por analistas, pela satisfação do mercado com pesquisas que apontam queda nas intenções de voto na presidenta Dilma Rousseff.

Segunda-feira, em meio à coletiva de imprensa para divulgar o balanço, Graça antecipou notícia que reforça sua aposta sobre crescimento da produção: a entrada em operação da plataforma P-62, no campo de Roncador, na Bacia de Campos. Com capacidade para produzir 180 mil barris de petróleo por dia, 
a unidade é a segunda plataforma a iniciar operações em 2014; a primeira foi a P-58, em março. Outros três sistemas de produção estão previstos para este ano: P-61, Cidade de Ilhabela e Cidade de Mangaratiba. A empresa projeta chegar ao fim do ano com produção média de 2,075 milhões de barris por dia.

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Fonte: Brasil Econômico

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