Quando não fazer nada é o melhor a se fazer

Política é uma ciência que está longe de ser minimamente compreendida. Aqui a aleatoriedade domina por completo. Mas o que tem de incerto, tem de impactante, e as consequências de cada nova mudança são brutais.

Quando não fazer nada é o melhor a se fazer

Em 2014 vivenciei uma das minhas maiores derrotas como gestora de recursos. Tinha acabado de sair de enormes lucros de 2011, 2012 e 2013, confiante na minha capacidade de ler o mercado e “prever o futuro”, e certa de que eu dominava “esse tal mercado de renda fixa”, quando, de repente, a realidade me mordeu feio.

Era ano de eleição!

Cada posição que eu montava, fruto de cenários macroeconômicos elaborados, estudo de fluxo de mercado e tempo certo de execução, era atropelada por pesquisas eleitorais aleatórias, contraditórias, eventos de cisne negro de queda de avião, além de disputas binárias.

Acho que nunca perdi tanto dinheiro sequencialmente.

O problema de uma eleição com eleitorado dividido é que qualquer 4% de diferença na pesquisa eleitoral pode jogar o mercado para um lado. E esse tipo de mudança, ao contrário das decorrentes de notícias comuns do dia a dia, pode significar transformações estruturais no rumo econômico.

Um Brasil com Dilma seria completamente diferente de um Brasil com Aécio. E tentar prever quem ganharia essa disputa, além de impossível, me deixava cada vez mais convicta de que eu não tinha a menor convicção de ter qualquer convicção a respeito do futuro.

Quando montamos, por exemplo, uma posição aplicada em juros em 2016, foi porque achamos que, independentemente dos dados de inflação do mês, a economia fraca, juntamente com a ancoragem das expectativas, iria nos propiciar um ambiente favorável para cortes relevantes.

Se o mercado fica por um tempo contra você, com os juros subindo, mas a economia permanece fraca e a inflação segue caindo, você não muda sua convicção. Pelo contrário. Consegue aproveitar essas oportunidades para aumentar o risco da aposta.

Mas operar em períodos de eleições não é assim. Se der par, a economia será de um jeito; se der ímpar, será de outro totalmente diferente.

Se você aposta em algo, e sai uma pesquisa contra o seu cenário, você não tem o que fazer. Isso se não zerar sua posição com prejuízo, afinal, a chance de ser ímpar pode ter aumentado.

Os fracassos são mesmo mais importantes que os sucessos. Eles têm uma dose cavalar de ensinamentos.

Quando eu errei, errei com pouco em jogo. O prejuízo foi controlado.

Agora, tenho a difícil tarefa de cuidar dos investimentos de todos vocês. Nunca antes tive tamanha responsabilidade. São milhares de assinantes que confiam em nosso bom senso e experiência para investir patrimônios acumulados durante anos de ralação.

Em 2018, prometo não cometer o mesmo erro e vou pedir – melhor, implorar! – que vocês não o cometam também.

Em ano de eleições, ainda mais em casos muito disputados e com candidatos tão antagônicos, a melhor coisa a se fazer com sua parcela de risco é: ABSOLUTAMENTE NADA!

Entre apenas em operações muito assimétricas ao seu favor, com alto potencial de ganho e perdas contidas.

Contente-se com uma rentabilidade mais baixa e não se deixe enganar pelo retorno do Ibovespa em um certo período. Mantenha sua carteira mais conservadora.

Estou segura de que não vai se arrepender.

Política é uma ciência que está longe de ser minimamente compreendida. Aqui a aleatoriedade domina por completo. Mas o que tem de incerto, tem de impactante, e as consequências de cada nova mudança são brutais.

Ou seja, é a receita perfeita para grandes prejuízos: alta aleatoriedade + consequências enormes.

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As eleições devem ganhar corpo no dia a dia do mercado lá para abril de 2018. Até lá, temos muito a nos beneficiar de juros mais baixos, retomada do crescimento e valorização da Bolsa. Podemos chegar nesse momento com preços bem diferentes dos atuais.

Portanto, comece desde hoje a colocar no seu calendário de investimentos que um potencial cisne negro está se aproximando do mercado. Ele tem data e hora para acontecer.

Você não vai deixá-lo te pegar, vai?

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