Como não ser um analista

Como não ser um analista

Um dos trending topics do Twitter esta semana foram os ofensas que a jornalista Miriam Leitão sofreu de diretores do PT em vôo para São Paulo.

Eu estou longe de ser fã do trabalho dela, acho que ela, assim como vários da Globo, são bem parciais em suas reportagens. Mas isso não me impediu de sentir compaixão pelo que ela passou.

Estava eu a publicar uma nota em meu Twitter, me posicionando contra o ato vandalístico tão característico do PT, quando uma lembrança congelou minha ação.

Lembrei da escrachada que o ex-Ministro da Fazenda Guido Mantega recebeu em um restaurante, acredito que em São Paulo. Lembro de ter gostado do que vi. Pensei comigo: ele mereceu pelos atos falhos que teve, e custou milhões aos cofres públicos. Tá aí, pelo menos pagando um pouco pelo mal feito.

Comecei a lembrar então de todos os jornalistas de esquerda e ligados ao governo passado que também foram verbalmente agredidos depois do Impeachment.

Oras, mas se eu não me compadeci por eles, por que sentiria pena de Miriam Leitão?

Da mesma forma que conseguia pensar em milhares de argumentos para separar as agressões verbais à Miriam, por exemplo as para o Gilberto Dimenstein, conseguia também pensar em milhares de argumentos para juntar os dois.

Tendi a me decretar uma hipócrita, e tenho convicção que fui. É o meu lado humano-pecador-falível. Só porque o agressor não era da minha estima, condenei a agressão?

Shame on me…

Agressão é agressão. E não tem que ser feita.

Da mesma forma que isso acontece com convicções políticas, acontece também com nossos investimentos. Olhamos primeiro para nossas convicções, e depois achamos o argumento.

Os analistas financeiros têm que ser treinados exatamente para evitar essas contradições. Ele tem que se auto examinar, se auto policiar e procurar a verdade acima de tudo. Procurar o fundamento, no meio de muito barulho.

Quebrar essa forma natural de pensar é muito difícil. Se pegar numa contradição, ponderar os argumentos reais, é muito e muito contraintuitivo, e é preciso um esforço brutal.

E é assim que nossa mente trabalha. Como diz dizia Daniel Kahneman no seu livro Rápido, Devagar, primeiro respondemos a pergunta com nossas convicções, depois pensamos nos argumentos que suportam a nossa tese.

Tal comportamento é frequentemente visto na imprensa especializada. A título de exemplo, confesso que torço o nariz para as colunas do Fábio Alves, do Estadão.

Reportagens como “Mercado, Acorda!”, “o FIM do ZÉ vendido”, “Rali do Alívio…até Quando?”, “O mundo cor de rosa do BC”, “Economia melhora…só no papel”, “Mercado vê lista de Fachin e…Boceja!”, “BC errou e o mercado calou”, e a clássica “Acabou o Oba-Oba nos juros” – seguida de 50 bps de queda adicional, são alguns exemplos.

A última dessa semana foi interessante. Ele diz: “Os gestores de um número significativo de grandes fundos de investimentos estrangeiros encontram-se presos numa armadilha que lhes impede de abandonar as aplicações em países em grave crise política e fiscal, como o Brasil”.

Fiquei imaginando os investidores tentando sacar seu dinheiro e um índice grande e maluco dizendo que não, com cara de bravo. Me perguntei também se por acaso esses fundos investem no Afeganistão? Na Líbia? Nigéria? Serra Leoa? O MSCI, por exemplo, não engloba nem mesmo a Argentina. Fiz eu o meu papel de advogada do diabo.

Deixo claro: nada tenho contra o Fábio Alves ou qualquer outro jornalista. E entendo que expor sua opinião é seu papel e disso decorre seu prestígio e respeito. Mas não posso deixar de observar que o investidor que resolvesse pautar-se pelas suas opiniões poderia simplesmente perder dinheiro.

O mercado é pragmático. É frio e calculista. O mercado não tem “lados”.

Se o temível Lula for eleito e aprovar a reforma da Previdência, o mercado vai raliar e ponto. Para o mercado, a resposta é simples e pragmática. É bola ou bule. É cara ou coroa.

Nosso querido analista Carlos Herrera, em um almoço esta semana, me recordou do comportamento do mercado de ações no Chile durante o final da ditadura de Pinochet, na década de 80.

Não há duvidas que Pinochet era um monstro, seu governo matou mais de 3 mil cidadãos. Mas o mercado chileno o “adorava” (pragmaticamente) porque ele promovia políticas liberais que geraram um grande crescimento econômico, conhecido hoje como O Milagre do Chile.

Lembrando a todos aqui que “o mercado” não é uma pessoa. E, portanto, não pode ser odiado como prega a esquerda.

O mercado são milhões e milhões de pequenos investidores, que todo dia colocam dinheiro nas empresas que acham que tem valor. Vocês acham que Dilma comprava ações da Petrobras durante o seu governo? Claro que não, pois independente da sua torcida pela empresa dar certo, ela sabia que não valia uma aposta por lá. Você acha que Fábio Alves deixaria de investir em um título prefixado, se soubesse que os juros, na era Temer, iriam desabar? Claro que não.

Da mesma forma, no Chile, o mercado não olhava a cara ou o cheiro do ditador, apenas seguia suas ações econômicas, e se elas eram promotoras de crescimento ou não.

O que estou dizendo aqui é que o mercado não é para ser amado ou odiado. O mercado é o reflexo do que acontece com a economia. Ele é o termômetro, de uma febre ou não por debaixo.

Atacar o mercado é tão ridículo quando quebrar o termômetro para dizer que não está com febre. É uma nuvem de fumaça retórica. É engraçado e ridículo ao mesmo tempo.

Imagine a frase: “o termômetro é anti-ético porque apontou febre”. Faz sentido?

Quem tem que ter ética não é o mercado, é o cidadão. É o eleitor, que de tempos em tempos é chamado a votar. Ou é a população que escolhe (quando pode) os seus representantes.

O mercado irá refletir apenas uma coisa: o fundamento, e ponto!

Se estamos hoje com inflação ancorada, os juros vão cair. Se estamos hoje com câmbio estável, os juros vão cair. Se estamos hoje com atividade fraca, os juros vão cair. Independente do lado que você defende.

Da mesma forma, vos afirmo que se o câmbio desvalorizar por um choque externo ou interno, os juros vão subir. Se a inflação desancorar, os juros vão subir. Se a atividade aquecer acima do potencial, os juros vão subir. E é isso. Bola ou bule.

Então, por mais sedutor que possa parecer “peitar o mercado” e dizer que ele está errado, gaste suas energias entendendo que tipo de fluxo está levando ele a este patamar e até quando ele vai durar.

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Gaste sua energia com o fundamento. É crescimento ou recessão? É inflação ou deflação?

Gaste energia achando as suas próprias contradições, suas convicções parciais.

Isso é ser um analista.

Não significa que sempre vai acertar. Mas chegará bem mais perto do fundamento.

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