O que pode dar errado?

Diversos riscos, no cenário nacional e internacional, estão se espalhando pelo noticiário, com perigo de contaminação na economia. Veja o que pode dar errado no processo de normalização da inflação.

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O que pode dar errado?

Eu venho falando a vocês o quanto estou otimista com a mudança estrutural pela qual estamos passando no Brasil com as reformas econômicas desse novo governo.

A alta da Bolsa vem sendo uma boa consequência,bem como a queda da inflação.

Mas, quando estamos no mercado, e principalmente quando estamos muito otimistas, precisamos parar e refletir seriamente sobre o que pode dar errado.

Claro que com isso não vamos conseguir prever eventos de cisne negro. Eles, por construção, não são previsíveis. Mas podemos utilizar essa nossa reflexão para comprar proteções baratas enquanto o cenário negativo ainda não está no preço.

Vamos refletir. O que poderia atrapalhar esse processo de normalização da inflação em patamares mais baixos, levando o BC a revisitar para cima sua trajetória para a Selic?

A primeira coisa que me vem à cabeça seria uma aceleração rápida da inflação. Isso poderia ocorrer por diversos motivos, alguns deles não tão plausíveis:

1. Aquecimento rápido do consumo — Esse me parece pouco provável, pois a taxa de desemprego ainda está alta e, embora a renda disponível tenha subido por conta da queda da inflação, não temos ainda força suficiente dos salários para sustentar um aumento forte no consumo.

2. Superaquecimento da economia: me parece também uma hipótese distante, uma vez que este ano ainda devemos trabalhar com crescimento abaixo de 1%, aos poucos nos recuperando da maior recessão da história brasileira.

3. Aceleração forte de alimentos: embora a inflação de alimentos seja aleatória e possa acontecer por quebras de safra, ela depende em certa medida de efeitos climáticos, como El Niño ou La Niña. Até o começo do ano que vem, nenhum desses efeitos são prováveis, de acordo com especialistas em meteorologia. Até poderia haver um aumento dos preços de alimentos, apenas se eles retornassem para médias históricas (uma vez que caíram muito nos últimos meses). Mas isso não seria suficiente para mudar os rumos da política monetária, uma vez que já é antecipado pelo BC.

4. Desvalorização cambial repentina — Esse me parece um forte motivo e pode derivar de inúmeros outros riscos também plausíveis.

O real está desde o mês de outubro do ano passado no mesmo patamar. Isso vem trazendo grande tranquilidade para o BC realizar uma queda forte da Selic. O câmbio mais baixo ajudou no controle da inflação e na redução dos prêmios de risco do mercado.

Mas o fato de ele estar comportado hoje não significa que ficará assim para sempre.

As economias desenvolvidas, em especial a dos EUA, vinham adotando políticas acomodatícias para sustentar a volta de seu crescimento. Essas políticas auxiliaram o aumento de liquidez global e a queda nos prêmios de risco em geral.

É o que o BC chamava de “interregno benigno”. Um período de liquidez abundante e procura de juros mais altos pelos investidores mundiais, beneficiando economias emergentes e com juros altos.

Mas o interregno benigno pode estar chegando ao fim por basicamente dois motivos.

Primeiro, teremos, no máximo até fevereiro, a troca da presidente do Banco Central norte-americano. Sai a Janet Yellen (com um perfil mais “dovish” — acomodatício) e entra uma indicação de Donald Trump, que, como todos sabem, é imprevisível, podendo indicar alguém fora do radar do mercado. O novo perfil do Fed pode resultar na mudança radical da política monetária dos EUA.

Ainda que mantenha a mesma linha, a própria Yellen vem endurecendo seu discurso, propagandeando a necessidade de retirar estímulos da economia americana, uma vez que o crescimento parece sustentável, o desemprego está em mínimas históricas e o risco de aceleração da inflação parece estar bem maior.

Além disso, a redução do balaço do Fed também está dominando a pauta e deve ser acelerada nos próximos meses. Essa redução significa vender ativos em posse da instituição, recebendo dinheiro em troca e, portanto, reduzindo novamente a liquidez americana e global.

Isso tudo tem um efeito altista nos juros americanos e, se acelerado o processo, pode acarretar uma saída rápida e descoordenada de investimentos em países emergentes, causando uma importante desvalorização cambial.

Se nosso câmbio volta para patamares de 4 reais por dólar, estamos falando de outra inflação e de outra Selic necessária para estabilizar a inflação de longo prazo. O câmbio é uma variável-chave para o sucesso do plano de voo atual do BC.

Outro revés que poderia ter forte impacto no câmbio é a não aprovação da reforma da Previdência e o consequente aumento da dívida pública. Algo totalmente no radar do mercado financeiro.

Apesar de os riscos estarem altos no momento atual, não está caro se proteger contra uma alta do câmbio.

A volatilidade da nossa moeda está em as mínimas históricas, abaixo de 10%. A volatilidade implícita nas opções também está em torno de 10%, tornando esse hedge muito barato.

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Essa é uma posição que todos que possuem uma carteira de investimentos deveriam cogitar. Seja via fundos cambiais, seja via opção de dólar ou até mesmo por meio de compra de futuro.

Como tentei mostrar aqui, diversos riscos, no cenário nacional e internacional, estão se espalhando pelo noticiário, com perigo de contaminação na economia. E o primeiro espirro indicativo de doença viria via uma desvalorização do nosso câmbio.

Vale a pena aproveitar que a proteção está barata e manter um portfólio mais protegido que permitirá que você durma melhor à noite e atravesse este cenário de forma mais confiante e saudável.

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