Inflação nos Estados Unidos

Enquanto muitos disseram que a inflação nos Estados Unidos só tirou um cochilo e agora vem com tudo, outros procuram explicações para justificar sua ausência.

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Inflação nos Estados Unidos

Há muito tempo estamos preocupados com a possível alta da inflação nos EUA.

Os economistas ficam de olho na famosa Curva de Phillips, que estabelece uma relação de troca entre inflação e desemprego. Se o desemprego cai em demasia, aumentam as pressões por salários mais altos, fazendo a inflação subir. Em contrapartida, se o desemprego sobe muito, acontece o inverso: os salários são pressionados para baixo e isso reduz a inflação.

Vimos o desemprego nos EUA cair para abaixo de 4,5%, faixa considerada neutra no país (que não inflaciona nem desinflaciona a economia).

Todos lá esperam a temida inflação chegar…

… mas ela não chega!

Enquanto muitos disseram que ela só tirou um cochilo e agora vem com tudo, outros procuram explicações para justificar sua ausência.

Mas sabe como são os economistas, não é mesmo? Estão sempre procurando uma explicação teórica ex post (depois do ocorrido) para tudo.

O que o mercado nos diz sobre o risco de inflação nos EUA?

Vou explicar.

O gráfico abaixo mostra a expectativa do mercado com relação à inflação 5Y5Y.

“O que é isso?”

É a inflação de cinco anos daqui a cinco anos.

Fonte: Bloomberg

Note que o nível atual da inflação 5Y5Y é tão baixo quanto era na crise de 2008, quando o Fed foi estimulado a fazer o seu primeiro QE (Quantitative Easing), ou seja, uma flexibilização quantitativa.

“E isso deve provocar algum medo de a inflação disparar?”

Não! De jeito nenhum.

No início de 2008, quando a inflação dos EUA chegou a bater 5,5%, o 5Y5Y bateu 3,3%. Isso, sim, é medo de inflação!

A inclinação também é outro fator que denuncia o medo do mercado em relação à inflação.

Quando o mercado acredita que o BC ficará “atrás da curva”, ou seja, subirá menos os juros do que deveria, a inclinação sobe. Isto é, os juros mais longos ficam maiores que os juros mais curtos. Tal fenômeno acontece, pois o mercado passa a acreditar que no futuro o BC terá que subir mais os juros.

Note que no início de 2008 a inclinação subiu para 2,11. Mas, agora, estamos no mínimo histórico do período.

Isso não me parece nem de longe medo de inflação.

A inclinação está indo para patamares pré-crise 2008, e por isso muitos economistas americanos dizem que o nível atual de inclinação sugere que há uma crise iminente.

Resumindo: enquanto estamos aqui, preocupados com a inflação americana, o mercado lá está nos dizendo que qualquer recuperação que vier parece não ser sustentável. Isso deve manter o dólar sem grandes fluxos de compra e as moedas emergentes, em níveis benignos para suas respectivas economias.

Se não temos pressão compradora de dólar, o fluxo de investimentos pode seguir caminhando para outras economias com mais juros — do Brasil, por exemplo!

Leia mais: Retornos exponenciais e o Vale do Suplício

O nosso BC muito falou acerca de que um dos fatores que permitia o ciclo de queda de juros era o interregno benigno — ou seja, essa janela de oportunidade de fluxos para países emergentes. Pois parece que ele pode continuar, o que permitiria que o BC mantivesse os juros baixos por um longo período de tempo.

E isso, por sua vez, é muito positivo para a economia. E para a Bolsa, e para o crédito privado, e para os fundos imobiliários…

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