A rêmora e a renda fixa

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A rêmora e a renda fixa

Hoje quero falar para você sobre uma inconsistência: a inflação implícita está em mínimas históricas e a inclinação da curva de juros está em máximas históricas. Pra mim, essas duas variáveis são como tubarões e rêmoras, e deveriam andar juntas. Mas, antes de entrar nesse assunto, vou contar como descobri o que eram rêmoras.

Sempre gostei de mergulhar. Desde pequena, observava atenta meu pai praticando pesca submarina. Ele conseguia ficar minutos em baixo d’água sem respirar. Achava fantástico.

Eu não me aventurei tanto, mas com 16 anos tirei meu primeiro certificado de mergulhadora de cilindro. Desde então, sempre que posso, incluo o mergulho nos meus planos de férias.

Na minha lua de mel, não foi diferente. Fiz questão de escolher um lugar em que pudesse mergulhar. Obriguei meu marido a fazer o curso, e lá fomos nós felizes da vida. Quer dizer, lá fui eu, feliz da vida; e lá foi ele, apreensivo.

Todo dia, eu falava para o instrutor: “Bichos grandes, por favor”. Meu marido, coitado, queria me matar. Nos levavam para mar aberto, e eu ficava olhando para todos os cantos, esperando algo grandioso.

Eis que no fundo da junção do paredão de corais com o oceano, vejo uma mancha preta se aproximando. Parecia algo grande, mas eu não tinha certeza do que era. Conforme a mancha chegava mais perto, vi que ela não era só grande, era gigante! Comecei a ficar com medo. Medo de verdade, daqueles que você sente quando acha que realmente tem chances de morrer.

Era um tubarão-baleia!! Comecei a gritar pra chamar a atenção da instrutora (com um respirador na boca, isso acaba sendo uma tarefa muito difícil). Queria que ela me assegurasse de que a situação era segura, ou que dissesse a senha para sairmos nadando desesperados. Ela prontamente fez um coraçãozinho com as duas mãos e girou uma mão na outra para que eu começasse a filmar (eu estava com a GoPro). Que alívio!

 

Filmei cada pedacinho do show. O tubarão, como se me conhecesse de outras vidas, deu uma volta a meu redor, e consegui pegar ele bem de pertinho.

Reparei que em volta dele havia vários bebês baleia. Ou, pelo menos, foi que pensei na hora. “Ela tem bebezinho!! São tão pequenos e fofinhos!!”. Nunca vou me esquecer desse dia.

Chegando de volta ao barco, estávamos em êxtase. Fui comentar sobre os bebezinhos fofos, e a instrutora começou a rir da minha cara.

“Não são bebês, Marília. São rêmoras!”.

Rêmoras são pequenos peixinhos que acompanham outros peixes maiores, na esperança de aproveitar restos de comida. Aonde um vai, o outro vai atrás, seguindo uma certa cadência.

Essa relação, motivada pelas migalhas de comida, torna muito provável que as duas espécies sejam observadas juntas. Se vemos um tubarão-baleia, vemos também umas rêmoras, e vice-versa.

Assim também funciona a inflação implícita e a inclinação de juros.

Pra começar, inflação implícita é a diferença entre os juros dos prefixados (das LTNs) e os juros das NTNBs. Por exemplo, se o juro prefixado é 10 por cento e o juro da NTNB é 5 por cento, então a inflação implícita será de aproximadamente 5 por cento.

Já a inclinação da curva de juros é a diferença entre os juros longos e os juros curtos.
E por que esses dois andam juntos?

Se a inflação implícita cai, é porque o mercado espera que haja menos inflação lá na frente. Se houver menos inflação, haverá menos juros. A queda dos juros longos reduz a inclinação da curva.

Se a inflação implícita sobe, é o contrário. O mercado espera mais inflação no futuro, e isso chama mais juros, fazendo com que a inclinação da curva suba.

Ou seja, a inflação implícita está ligada à inclinação. Aonde uma vai, a outra aparece. Se há uma alta da implícita, muito provavelmente lá também estará um aumento da inclinação.

Se observarmos os ciclos de queda da Selic desde 2006, veremos que, no fim do ciclo, tínhamos alta da inflação implícita e alta da inclinação.

Isso apenas não aconteceu em um desses anos, que foi exatamente 2006 e 2007. A inflação corrente chegou a quase 3 por cento, e, mesmo sendo o fim do ciclo de queda, a inflação implícita afundou. O Banco Central da época era considerado conservador demais. Qualquer semelhança com os dias atuais não é mera coincidência.

Mas sabe quanto era a inclinação dos juros de 5 anos contra os juros de 2 anos? Próxima de ZERO. Isso mesmo, praticamente não havia inclinação.

Hoje também temos uma inflação corrente baixíssima mesmo nos aproximando do fim do ciclo de corte da Selic. Isso está levando nossa inflação implícita para mínimos históricos.

Porém, nossa inclinação está positiva em 117 bps. Bem diferente do zero de 2007.

É como ver um tubarão nadando sozinho e um grupo de rêmoras indo para o outro lado. Não faz sentido. Elas deveriam estar com o tubarão.

Se não vai haver inflação por muito tempo, porque o BC deveria subir juros nos próximos anos?

Eu acredito que, em algum momento deste ano ou do próximo, as rêmoras vão reencontrar o tubarão-baleia perdido. E quem apostar nisso ganhará um bom prêmio.

Mas como o pequeno investidor pode aproveitar essa ideia?

Não é tão simples. A aposta envolveria operar no mercado futuro, e lá o lote mínimo são 500 mil reais de exposição. Para arriscar 10 por cento de seu patrimônio, você teria que possuir cerca de 5 milhões investido.

Mas, se não vamos executar a operação, podemos, pelo menos, não nos posicionarmos no título e vencimento errados.

Para nos beneficiarmos do desencontro da rêmora e do tubarão, temos primeiramente que preferir os títulos indexados aos prefixados. A inflação implícita em mínimos históricos torna os indexados bem mais atrativos. Se a implícita volta a subir, os prefixados vão sofrer.

Além disso, os prazos mais longos tem uma gordura muito grande, que deve se reduzir se a inflação implícita estiver correta. Logo, alongar sua carteira pode ser um ótimo jogo.

Como venho mostrando nesta newsletter, a renda fixa pode e deve ser gerida de forma ativa.

As oportunidades e distorções do mercado aparecem, e, se soubermos aproveitar esses prêmios, podemos garantir retornos agressivos, com instrumentos muito seguros.

Siga o tubarão para achar as rêmoras. E não se esqueça: a renda fixa não é fixa!

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