Quando ajudar atrapalha

O subsídio não deve ser utilizado para perpetuar um setor de baixa competitividade.

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Quando ajudar atrapalha

No meu primeiro ano da faculdade de Economia, tive aula de Fundamentos de Microeconomia. O curso visava a preparar o aluno para a tonelada de modelos econômicos que estava por vir e, para isso, era preciso uma base sólida de conceitos e princípios.

O primeiro de que me lembro ter aprendido foi o conceito de “custo de oportunidade”. Me recordo dessa aula como se tivesse sido hoje. Dou o crédito ao meu professor Eduardo Andrade, que realmente era daqueles que faziam a diferença.

Para explicar o conceito, ele usou como exemplo o Ronaldo “Fenômeno”. (Gente, lembrem-se de que isso aconteceu há mais de dez anos. Na época, o Fenômeno era muito popular.)

Dizia ele que o Fenômeno poderia ser um excelente profissional se trabalhasse como lavador de carros. Muito provavelmente ele seria um melhor lavador do que o seu Zé do seu prédio, que lava o seu possante nos fins de semana.

Ronaldo poderia ser mais rápido e detalhista, acabando por se tornar o melhor lavador de carros do Brasil.

Mas isso faria sentido para ele?

Como melhor lavador de carros do Brasil, imaginando que cobrasse 100 reais por lavagem (que é quanto se cobra aqui no prédio em que trabalho — e eu acho um absurdo!), lavando oito carros por dia, ele poderia terminar o mês com um salário de 16.800 reais.

Nada mal para um lavador de carros, não é mesmo? Mas isso faz sentido pro Fenômeno?

Lógico que não! Ele, como jogador de futebol, consegue ganhar mais de 1 milhão de reais por mês. Ou seja, 1 milhão é o seu custo de oportunidade. É aquilo que você deixa de ganhar para fazer a nova atividade.

Como o seu custo de oportunidade é esse, ele só faria algo cujo salário ultrapassasse o valor desse custo.

Para a sociedade como um todo, considerando que o governo recolhe impostos em cima dos salários, é muito melhor que todos façam aquilo que os melhor recompensa. É preferível que o Fenômeno seja jogador de futebol e o Zé, lavador de carros.

No Brasil, por exemplo, o custo de oportunidade de qualquer investimento é a Selic. Por quê? Pois ela é a taxa que serve de base de cálculo da rentabilidade que você recebe por correr o menor risco possível, que é o risco do pós-fixado do governo.

Então, se algum outro investimento paga menos do que a taxa Selic, não tem por que você investir nele.

Da mesma forma que as pessoas possuem custos de oportunidade, os países também o têm.

Por exemplo, o Brasil é um importante produtor de commodities. E os Estados Unidos são um importante produtor de iPhones.

Se o Brasil quiser retirar seus trabalhadores do campo e utilizá-los para produzir iPhones, estes sairão mais caros e com qualidade inferior. Menos pessoas vão comprar, e o país terá uma receita de exportação menor do que se vendesse apenas commodities.

Se os EUA retirassem trabalhadores da Apple para colocá-los na produção de commodities, elas seriam mais caras e as terras, menos produtivas. Como consequência, eles venderiam menos e receberiam uma receita menor de exportação.

Ou seja, o mundo teria menos riquezas.

Agora, se o Brasil se especializar em commodities e os EUA em iPhones, ambos vendem mais, recebem mais, e o mundo cresce mais.

Se você entendeu o caso do Ronaldo e do Zé, vai compreender facilmente o caso do Brasil e dos EUA.

Leia mais: Produção industrial surpreende negativamente o mercado

A especialização é mais ou menos — mas não inteiramente — o que acontece no Brasil.

Os governos — estimulados pela mentalidade equivocada de seus votantes — tentam proteger as indústrias com subsídios. O resultado disso é a propagação de setores não produtivos, com produtos caros e de má qualidade, que vendem menos e geram menos riqueza para o país.

Se esses mesmos setores fossem extintos, tais recursos (força de trabalho) poderiam ser redirecionados para setores produtivos, relevantes, pujantes e competitivos. Seria trocar 16.800 reais por 1 milhão.

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Nos EUA, a mentalidade de livre mercado já é mais entranhada na sociedade. Os incentivos estão mais para o lado dos vencedores. A consequência é maior produtividade, maiores salários, menor taxa de desemprego e maior qualidade de vida.

O subsídio não deve ser utilizado para perpetuar um setor de baixa competitividade. O subsídio só deveria ser utilizado de forma temporária para setores com ganhos de escala ou, traduzindo, para setores que só geram lucro quando alcançam um grande número de clientes. Pois esses segmentos não se sentem estimulados a começar um negócio, uma vez que os primeiros anos seriam de altos investimentos e grandes prejuízos, até que se adquirisse escala. Pense nisso!

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