À espera de um milagre – ou apenas das eleições?

Quem ouviu seus private bankers ou agentes autônomos e retirou o risco das carteiras porque a partir de julho as eleições faria preço (no sentido negativo), perdeu bastante dinheiro.

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À espera de um milagre – ou apenas das eleições?

“Faça as coisas de forma simples, mas não mais simples.” Se você procurar bem, encontra no Google até que o Einstein descobriu o Brasil, mas parece que essa aí foi ele mesmo que falou.

Simples é bem diferente de simplista. O primeiro adjetivo leva à maior das sofisticações; o segundo, ao tentar simplificar demais, perde o essencial, jogando fora o bebê junto com a água do banho.

O problema não são as pessoas que não sabem. Essas reconhecem as próprias limitações. Transitam por aí sem mapa algum, que é muito melhor do que dispor de um mapa errado, e acabam se informando, perguntando qual o caminho certo para várias pessoas, tateando o ambiente. No final, podem demorar um pouco mais para chegar, mas alcançam o destino final graças à sua humildade epistemológica.

Problema mesmo são as pessoas que sabem, mas não sabem o suficiente. Aí sai de baixo. O camarada lê uma ou duas matérias sobre um determinado assunto, faz um curso de final de semana e… bingo! Virou especialista. Está pronto para opinar sobre qualquer coisa abaixo do Sol – depois do Google, todo mundo é inteligente. Todo animado, o especialista sai repetindo clichês, muitos deles sem nenhum embasamento empírico e amparo científico, levando outras pessoas a conclusões equivocadas.

O caso de investimentos, sendo o escopo das ações mais emblemático, é um clássico. As opiniões tornadas públicas sobre Bolsa, sejam elas de jornalistas, influenciadores em geral ou mesmo profissionais de investimento, normalmente vêm de pessoas que não entendem verdadeiramente disso, não ganham dinheiro comprando e vendendo ações. E como o escopo das finanças pertence necessariamente aos praticantes, cuja prática por definição está em comprar e vender ações (não em dar entrevistas), estamos condenados a ler coisas superficiais ou, de maneira mais prejudicial, erradas sobre a renda variável. Os verdadeiros ganhadores de dinheiro no mercado de capitais brasileiro e também global preferem, em geral, manter-se longe dos holofotes. Eu esperava um ano inteiro para ler o Stuhlberger ser entrevistado pela Luciana Seabra…

Assim, vivemos um caso clássico de seleção adversa. Acabamos lendo colunas ou assistindo a entrevistas de uma espécie de subcelebridades, de pessoas que falam de um assunto sem propriedade. Conhecem uma ou duas coisas, insuficientes para realmente gerar algum insight relevante, e saem palpitando sobre o que comprar e vender. Alguns inclusive sofrem de uma espécie de “halo effect”: se simpatizam ou não com determinada classe de ativos por uma certa característica, automaticamente a classificam como boa ou ruim em termos gerais.

O resultado é óbvio: conclusões equivocadas, que levam seus seguidores a prejuízos financeiros.

Noutro dia, por exemplo, li reportagem na Folha com o seguinte título: “Taxação de dividendo levaria a choque na Bolsa, afirma estudo”. O estudioso teria pegado a alíquota a ser aplicada sobre o dividendo, estimada em 15%, e por simples aplicação da aritmética concluído que a adoção da medida causaria uma queda de 10,5% das ações.

Subvertendo a proposta original, é infelizmente simplista em vez de ser simples. Além de ignorar o fato de que a nova alíquota poderia vir acompanhada de uma redução da atual, numa espécie de medida compensatória, o estudo ignora alternativas triviais, algumas delas inclusive já devidamente documentadas na história. Ou seja, não precisamos elucubrar. Basta estudar como se deu no passado em outros lugares.

O monstro sagrado Peter Lynch, por exemplo, já falou sobre situação parecida nos EUA:

“Ultimamente, empresas saudáveis simplesmente estão evitando os dividendos e utilizando o dinheiro para recomprar suas próprias ações, como a General Electric. Reduzir a disponibilidade de ações aumenta os lucros por ação, o que, consequentemente, recompensa os acionistas. (…) Se alguém é responsável pelo desaparecimento dos dividendos, esse alguém é o governo dos EUA, o qual taxa os lucros corporativos e, consequentemente, os dividendos pela alíquota máxima. Para auxiliar seus acionistas a evitar dupla tributação, as empresas abandonaram o dividendo em favor da estratégia de recompra, a qual aumenta o valor da ação.”

Ao se taxar o dividendo, espera-se um incremento no volume de recompra de ações, que pode inibir boa parte do efeito negativo projetado a partir da nova alíquota, de tal modo que a estimativa aritmética inicial, como se o mundo fosse ceteris paribus, está bastante errada.

Mas esse é apenas um exemplo. Vira e mexe acontece algo parecido. Hoje mesmo sobram notícias do tipo: “Bolsa se recupera forte em julho, mas cautela se mantém para agosto”. Há variações do mesmo tema sem sair do tom.

Ao se referir à Bolsa, quer se falar sobre o Ibovespa, nosso mais conhecido índice de ações. Até aí, tudo bem. Mas tomar essa média como uma proxy do comportamento geral do mercado acionário pode induzir a conclusões precipitadas.

Para ficarmos no mesmo autor, recorro novamente a Peter Lynch:

“Há pessoas que desejam saber como as ações se saíram em determinada data e perguntam como o índice Dow Jones encerrou o dia. Eu estou mais interessado em quantas ações subiram em relação às ações que caíram. Esses números chamados de relação subidas/descidas pintam uma imagem mais realista. Nunca isso foi tão verdadeiro quanto no recente mercado, no qual algumas poucas ações sobem, enquanto a maior parte delas permanece estagnada ou cai. (…) As pessoas estão se perguntando como o índice S&P 500 pode ter subido 20% e as minhas ações continuarem em baixa. A resposta é que um conjunto pequeno de ações de grande porte no S&P 500 está elevando a média para cima.”

É exatamente o caso da Bolsa brasileira neste momento. O Ibovespa sobe 3,89% em 2018. Isso pode transmitir a falsa impressão de que o ano tem sido, no geral, positivo para o investidor de ações. A questão é que, se você excluir as empresas de commodities, a situação é completamente diferente. Temos hoje 29 ações subindo e 38 caindo dentro do índice no ano, sendo que as maiores altas são quase integralmente ligadas a empresas produtoras de matérias-primas, conforme você pode ver na tabela abaixo de maiores valorizações e quedas de 2018, na coluna “% Cgh”:

Embora as manchetes sobre Bolsa (Ibovespa) possam induzi-lo à conclusão de que o ano tem sido positivo no geral para o investidor de ações, fato é que, se ele não esteve muito concentrado em commodities, ocorre na prática justamente o contrário.

Outro fato estilizado que me incomoda bastante neste início de agosto é a ideia de “com aproximação das eleições, investidor deve tomar cuidado com aumento da volatilidade”.

Tenho vários bodes dessa afirmação. O primeiro porque há uma ideia implícita de que volatilidade e risco são a mesma coisa. Não são. Um ativo sem nenhuma volatilidade pode ser altamente arriscado (a volatilidade do World Trade Center em 10 de setembro de 2001 era zero; ideia semelhante vale para o 17 de maio de 2017 no Brasil, no fatídico Joesley Day). Ao mesmo tempo, tudo que o investidor deseja é volatilidade para cima no seu portfólio — sem vol, ele não ganha dinheiro.

Mas mais do que isso, a aproximação das eleições necessariamente retira incerteza do processo. E, na possibilidade de caminharmos para eleição de um candidato percebido como reformista, os próximos três meses podem trazer uma grande alta para os ativos brasileiros. Projetar aumento da volatilidade simplesmente não diz nada. Ao contrário, aqueles que seguiram esse alerta em junho, ao ouvir de seus private bankers ou agentes autônomos que deveriam retirar risco das carteiras porque a partir de julho a eleição faria preço (no sentido negativo), perderam bastante dinheiro. Isso justamente porque tivemos volatilidade para cima, entre outros fatores, por conta de notícias da esfera política – Geraldo Alckmin fechou parceria com o Centrão e observou aumento das intenções de voto segundo pesquisa da XP/Ipespe; enquanto isso, candidatos da esquerda mostram, ao menos por enquanto, dificuldades para crescer, e Jair Bolsonaro tenta marcar-se cada vez mais como uma real opção liberal (eu não acredito, mas essa é a narrativa que tenta-se construir).

Hoje mesmo acabamos de ter um reforço a esse panorama. Pesquisa do DataPoder360 trouxe avanço de um ponto percentual nas intenções de voto em Geraldo Alckmin (de 8% para 9%), enquanto Jair Bolsonaro, Marina Silva, Fernando Haddad e Alvaro Dias registraram queda de um ponto entre os pesquisados. Todas as variações estão dentro da margem de erro, mas numericamente houve uma melhora, ainda que marginal.

Por fim, encerro a lista de hoje de clichês impróprios sobre investimentos saindo de questões conjunturais para um tópico permanente. Em reportagens sobre finanças, matérias sobre renda fixa ou guias sobre o Tesouro Direto, você vai ler algo como: “Prefixados são apropriados para cenários de taxa Selic em queda; pós-fixados são indicados para situações de taxa Selic em alta”.

Isso não é apenas simplista, é também errado. Há várias situações em que a Selic pode estar subindo e os prefixados serem uma excelente oportunidade de investimento — basta que a Selic suba menos do que o consenso vinha projetando. Importam as taxas de juro de mercado. Se o mercado, por exemplo, espera que a taxa básica vá até 12% no próximo ciclo de aperto monetário e ela for para apenas 9%, aqueles que tiverem comprado prefixados terão ganhado muito dinheiro.

Essa aparente nuance dificilmente consta nas abordagens mais superficiais sobre investimentos em renda fixa. Para além da teoria, acho que agosto não precisa ser nem dos prés nem dos pós-fixados. Pode ser um mês bacana para comprar indexados. Entre os títulos disponíveis para compra no Tesouro Direto, paga-se cupom no dia 15 de agosto sobre NTN-B 2026 e 2050. De posse da renda semestral, parte dos investidores pode voltar a reinvestir nesses papéis, criando demanda adicional e levando o preço para cima.

Mercados iniciam a quarta-feira em clima de cautela, com dólar subindo no mundo todo após novas troca de farpas entre EUA e China no contexto da tal guerra comercial. Após Trump ameaçar levar tarifas a 25% sobre determinados produtos, a China alertou para imediata retaliação.

Bom resultado da Apple ameniza mau humor. As notícias recentes de morte das techs pareceram um tanto precipitadas depois dos números. Ações da companhia renovaram máxima histórica em reação ao bom balanço flertando com a marca impressionante de 1 trilhão de dólares para seu valor de mercado.

Em paralelo, há muita expectativa sobre reunião do Federal Reserve hoje. Embora seja amplamente esperada manutenção da taxa básica de juro, uma parcela minoritária dos analistas aguarda eventual tom mais brando do Fed, flertando com parada no aperto monetário em 2019.

Estoques de petróleo, ADP Employment, PMI/Markit, ISM e investimentos em construção completam a agenda norte-americana.

Por aqui, atenção para reunião do Copom, com resultado à noite e expectativa consensual de manutenção da Selic, IPC-S, fluxo cambial, dados da Fenabrave, balança comercial mensal e prévia da carteira teórica do Ibovespa.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,2%, dólar e juros futuros sobem.