Belas, recatadas e sovinas

Um manifesto contra a forma como as mulheres são tratadas quando o assunto é dinheiro

Belas, recatadas e sovinas

Nada na vida deve ser temido, somente compreendido
Marie Curie (1867 a 1934) descobriu o polônio e o rádio
e foi duas vezes prêmio Nobel

Era 2007 e eu, recém-chegada a São Paulo, tentava satisfazer uma ânsia de aprender sobre investimentos.

Depois de espiar fascinada o agito do finado pregão viva voz em uma vitrine no centro da cidade, descobri dois cursos oferecidos pela Bolsa: um voltado para crianças, outro para mulheres. Por razões óbvias, fiquei com o segundo.

Na data marcada, cheguei meia hora adiantada.

Minha excitação derretia como picolé no verão enquanto o engomado rapaz que conduzia o curso Bolsa para Mulheres ensinava uma plateia lotada de seres classificados como eu a preencher uma planilha de gastos.

Proprietária de uma conta universitária e uma mesada familiar, eu obviamente já tinha minha planilha. Será que eu era o único ser da minha espécie a ir até a Bolsa para aprender a investir em ações?

Saí dali aquele dia sem fazer ideia sobre como investir na Bolsa. E com uma vontade louca de chorar. Ainda bem que mulher pode, não é mesmo?

O nó na garganta voltou quando, um ano depois, enlouquecida em meio às fórmulas da aula de Econometria, fui questionada por um colega: “não entendo o que você está fazendo aqui. Já está provado cientificamente: mulheres são melhores em literatura, artes… Homens em matemática, economia…”.

Escrutinei o rosto do meu interlocutor – um dos nove homens que dividiam a sala do mestrado em economia comigo – em busca de um sinal de humor. Não seria engraçado. Mas também não apareceu.

Fui a primeira aluna da turma de Econometria. Quase perdi um rim (estudem muito, mas não se esqueçam de fazer intervalos para beber água), mas isso é cá entre nós.

O que diz a Ciência? Há estudos de fato apontando que mulheres e homens são diferentes quando o assunto é investimento.

Uma pesquisa conduzida por Terrance Odean e Brad Barber, da Universidade de Califórnia, mostra retorno médio diferente entre mulheres e homens.

O portfólio delas rende, em média, um ponto percentual a mais que o deles.

As mulheres são investidoras mais pacientes, cautelosas e preocupadas com preservação de capital; homens são mais arrojados, mais dispostos a correr riscos, disse também para mim Annamaria Lusardi, professora de Economia e Contabilidade da Universidade George Washington, uma das principais referências internacionais em educação financeira, que entrevistei em minha vida pregressa de repórter.

Veja: as pesquisas não apontam que mulheres gastam e homens investem. Elas mostram que os dois investem de formas diferentes.

A disparidade de perfil de risco, me disse Annamaria em seu inglês com sotaque italiano enquanto procurávamos uma sala para a entrevista, não é necessariamente genética. É muito provável que ela esteja associada à formação cultural dos dois gêneros.

Homens são educados para enfrentar os perigos, jogar-se na luta. Mulheres são criadas para proteger a família, garantir a sobrevivência.

Não lhe parece que, ao deixar de lado o tratamento rosa e azul, criaríamos investidores e investidoras mais plenos?

Seria ótimo se os homens se preocupassem mais com os riscos. Seria perfeito se as mulheres ousassem um pouco mais.

Lamento muito que uma mulher que decida procurar sobre investimentos hoje, pleno século XXI – seja um curso, um site, uma referência – caia com frequência em um conteúdo que oriente a adiar a compra daquele sapato em prol de uma bolsa de marca amanhã.

Estimulada por uma matéria no jornal, visitei um novo exemplar de blog que fala sobre dinheiro para mulheres esses dias. Um texto dá cinco ideias para decorar a cozinha com baixo custo. O outro ensina a economizar na compra de fraldas.

Pior do que a falta da educação apropriada sobre dinheiro desde a infância é que uma mulher, em busca de conhecimento sobre investimentos, caia em um conteúdo em tons rosados que lhe estimule apenas a adiar sonhos.

Também posterguei. Adiei a compra de um laptop em janeiro a fim de investir 5 mil reais no Alaska. Não é uma nova grife, nem uma viagem de luxo. É o fundo de ações mais arrojado da indústria. Sigo mulher.

Vou aproveitar que o calendário diz que hoje é meu dia para fazer um apelo a você.
Não eduque sua filha para ser disciplinada nos gastos. Não ensine a se privar de seus sonhos.

Alimente igualmente homens e mulheres como investidores preocupados com a preservação de capital, arrojados, sofisticados, dispostos a correr riscos desde que devidamente recompensados com retorno.

Não crie uma sovina. Nutra uma investidora.

Careço de referências. Já tive como interlocutores centenas de gestores de recursos. Não consigo preencher em uma mão o número de mulheres à frente de um fundo de investimentos no Brasil.

Quanto mais perto do topo chegamos, menos mulheres encontramos, diria a queniana Wangari Maathai, prêmio Nobel da Paz.

Acompanho à distância com admiração Leda Braga, a brasileira que é doutora em engenharia e gerencia um fundo de US$ 8 bilhões na Systematica Investments, casa com sede em Genebra especializada em fundos quantitativos. Os retornos são invejáveis. Dê um Google nela, por favor, eu espero você.

Na Bolsa brasileira, apenas 22 por cento dos investidores são mulheres.

“Se repetimos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal. Se só os meninos são escolhidos como monitores da classe, então em algum momento nós todos vamos achar, mesmo que inconscientemente, que só um menino pode ser o monitor da classe”.

Chimamanda Adichi, autora do belíssimo Hibisco Roxo.

 

A pessoa que mais entende de ETFs no mercado brasileiro chama-se Tatiana Grecco. Sim, uma mulher, superintendente de fundos da gestora do Itaú Unibanco.

Você conhece os os Exchange Traded Funds? São fundos indexados a índices. Se você quer investir em todas as ações do Ibovespa, por exemplo, não precisa comprar uma a uma, considerando os pesos no índice. Pode comprar o ETF de Ibovespa.

O mercado de ETFs ainda é pífio no Brasil. O patrimônio líquido investido nos fundos indexados é de 4,38 bilhões, ou seja, 0,1% do mercado brasileiro de fundos.

Nomes de gestoras como BlackRock e Vanguard, que sozinhas têm mais patrimônio sob gestão do que todo o mercado brasileiro de fundos, são desconhecidos aqui. E seu crescimento no mundo está em grande parte ligado aos ETFs.

Fundos de índices tendem a ser mais baratos e, enquanto o mundo todo combate produtos de alto custo, pouca gente compra essa briga no Brasil (conhece alguém?). O fato é que não é interesse dos bancos fazer o mercado de baixo custo crescer.

Está aí todo o arcabouço regulatório para ETFs de renda fixa pronto e nenhum produto ainda na praça.

Se tenho alguma esperança no desenvolvimento desse mercado no Brasil – com o surgimento de novos produtos, acessíveis e atraentes para a pessoa física – é porque conheço a Tatiana.

 

Para elas e para eles: corra!

“Tenho uma filha de cinco anos e fico muito feliz quando vejo mulheres como você cheia de competências e importantes desafios. Cultivo sistematicamente o potencial de ser livre da minha filha”.

Frederico M.

Obrigada, Frederico. Na Empiricus, há mulheres, com orgulho, no comando de três das maiores séries da casa em número de assinantes: Beatriz Cutait, no Você Investidor; Marília Fontes, no Renda Fixa; e eu, no Os Melhores Fundos de Investimento.

Orientamos homens e mulheres. Recebemos diariamente centenas de e-mails dos dois gêneros. E, sinceramente, não há qualquer diferença de inteligência e disposição a investir entre as perguntas de uns e outros.

Mas – já disse infelizmente hoje? – as mulheres ainda são minoria dentre os nossos assinantes.

Hoje você, homem ou mulher, pode comprar os três relatórios – Você Investidor, Renda Fixa e Melhores Fundos de Investimento – pelo preço de um.

Você precisa ser rápida. Ou rápido. A promoção acaba meia-noite. Eu, sinceramente, já vi aqui na Empiricus combo de dois relatórios. Três pelo preço de um, nunca.

Não, o relatório não é rosa.

Um abraço,
Luciana Seabra.

 

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