À caça de uma previdência de verdade

Metade dos fundos rendeu menos de 70% do CDI nos últimos cinco anos, um desempenho pífio

À caça de uma previdência de verdade

A senhora tem um sonho, como comprar uma casa, um carro, fazer uma viagem? – perguntou a telefonista do banco. Não, respondi, para ver se acabava logo. E ela prosseguiu impávida: ah, Senhora Luciana, mas um dia terá. E, pelo seu relacionamento, o banco lhe oferece hoje um crédito pré-liberado de R$ 18 mil.

Deveria ter dito a ela que quero os três hoje mesmo: casa, carro, viagem. Mas desde que esteja segura de que o banco vai cuidar da real Senhora Luciana – aquela com a qual eu sonho daqui a algumas décadas dentro de um avião em plena segunda-feira rumo a qualquer lugar do mundo que dê na telha.

Não só sua oferta de crédito, cara telefonista, atrapalha em vez de ajudar com meu sonho, como seu banco não tem me deixado nem um pouco segura sobre a Senhora Luciana.

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Resolvi hoje estudar o retorno do meu plano de previdência, oferecido pela Brasilprev em parceria com minha antiga empresa em julho de 2012. Optei pelo plano porque, se passasse mais de dez anos na empresa, levaria também uma contribuição dela. Mas acabei seduzida pela Empiricus e aqui estou.

Então vamos aos retornos. Meu plano é uma composição de três fundos. Os três ruins. Nos quatro anos em que fiz aportes mensais, pensando em garantir o futuro da Senhora Luciana, o melhor deles rendeu 82% do CDI. O outro, 66%. O terceiro, 41%.

Eu e você no mesmo barco furado

Será que é algo pessoal? Infelizmente não. Puxei aqui no sistema de fundos Quantum Axis o retorno de todos os fundos de previdência. Considerando os 1.283 com histórico para os últimos cinco anos, nesses 60 meses, prepare-se:

748, nada menos que 58% dos fundos de previdência, perdem para o CDI.

O quê? É um produto para o longo prazo, que aceita mais risco, e mais da metade perdeu para o Certificado de Depósito Interfinanceiro nos últimos cinco anos? Sim.

Pode ser pior: 692 fundos de previdência, ou 53% do total, entregam menos de 70% do CDI no período.

E, para completar, 139, ou 11%, não renderam nem metade do CDI (aquele indexador que você consegue quase inteiro em um fundo DI barato).

Que tal? O Ricardo Schweitzer, nosso amigo do M5M especialista em Pokemon Go, sugeriu que eu ilustrasse esse estudo com O Grito, de Edvard Munch. Achei válido.

 

Veja enquanto está no ar

“Os grandes bancos ficaram incomodados e estão procurando alguma inconsistência no documentário recentemente publicado pela Empiricus.

Não vão encontrar.

De toda forma, é fundamental que você veja o material enquanto está no ar.

Ele realmente está incomodando os bancos, de forma que não garantimos que ficará disponível por mais tempo.”

VEJA AQUI O DOCUMENTÁRIO NA ÍNTEGRA

Recomendamos agilidade e discrição a quem assistir ao vídeo.

 

Previdência então não é legal?

A previdência tem benefícios tributários, nós sabemos. Como optei pela tributação regressiva, lá na frente a Senhora Luciana vai pagar 10% somente de imposto.

E daí? Diante do retorno pífio da minha previdência atual, eu preferia ter investido sozinha em um bom fundo e dividido o bolo com o governo. Ou, melhor ainda, escolhido um bom fundo de previdência e deixado para lá a oferta da empresa.

Dado o estudo que fizemos é muito provável que eu e você estejamos no mesmo barco. A boa notícia é que a lei está ao nosso lado e podemos fazer a portabilidade. Depois de 60 dias em um fundo de previdência, você pode trocá-lo por outro. Simples assim.

E há mais uma novidade ao nosso favor: gestores independentes de altíssimo nível têm lançado produtos com base na resolução número 4.444 do Banco Central, do ano passado. Ela permite, por exemplo, criar fundos com mais renda variável – dos antigos 49% para 70% em um fundo aberto ao investidor de varejo.

Investimentos sujeitos à variação cambial, inclusive em fundos que investem no exterior, agora podem chegar a 10% do portfólio.

Ficou preocupado com o risco? Se você tem tempo – o que costuma ser uma regra ao contratar previdência – e escolher um bom gestor, a maior flexibilidade pode até significar redução do risco, pela possibilidade de diversificação de estratégias. E deve sim somar muito retorno no longo prazo.

Tomei uma decisão: tenho até 20 de setembro para escolher um fundo de previdência – ou de preferência um conjunto de excelentes fundos – para garantir o futuro da Senhora Luciana. E também o seu futuro. Vem comigo?

Vai na minha, eu também não gosto de assumir altos riscos. Estamos visitando os gestores, seguradoras, distribuidores, insistindo por produtos mais atraentes. E confiantes de que vamos chegar à melhor opção.

 

Está azul, mas não é Verde

Temos recebido várias dúvidas sobre o fundo de previdência da Verde Asset, a gestora de Luis Stuhlberger, com a seguradora Icatu. Tenho profunda admiração pelo gestor (talvez veneração seja a palavra certa), que tive a honra de entrevistar algumas vezes e cujo histórico e cartas mensais acompanho como uma fã de banda de rock.

O histórico do fundo Verde é impecável. Imagine por quantas crises o Brasil passou desde 1.997. Desde aquele ano, quando foi criado, o fundo rende 12.810,36%, contra 1.625,96% do CDI. O portfólio somente perdeu para o CDI duas vezes: em 2008 e 2014. No primeiro, ano de crise global, teve prejuízo de 6,44%. No segundo, ganhou 8,8%. Nunca vi nada igual.

E como o Stuhlberger consegue isso? Em primeiro lugar ele é muito certeiro (antecipa magistralmente tendências, especialmente em câmbio). E, em segundo, tem consciência de suas limitações para prever o futuro e estrutura proteções para o portfólio. Talvez a segunda parte seja até mais importante do que a primeira.

O Stuhlberger é absolutamente genial. E talvez seja o único gestor brasileiro “world class”.

Infelizmente, o fundo Verde está fechado para novos investidores. Na realidade, o Stuhlberger tem até devolvido dinheiro dos cotistas. O gestor quer ter mais liberdade de se movimentar nos mercados e o patrimônio grande pesa.

Ué, mas e o Verde Previdência? Não é um fundo gerido pelo Stuhlberger, mas sim por sua equipe. Uma coisa é o fundo. Outra é a gestora homônima. Então a previdência é a carteira do Horizonte, fundo multimercado lançado pela Verde em junho do ano passado? Também não. E isso fica claro na diferença de desempenho.

Veja o retorno acumulado do Verde, do Horizonte e do Verde Previdência:


Fonte: Quantum Axis

E por que as estratégias não são iguais se são construídas dentro da mesma casa? Em primeiro lugar, pela diferença de gestor. No começo do ano, quando o Stuhlberger virou a mão no câmbio, trocando a posição comprada em dólar que carregava há mais de um ano por comprada em real, o Horizonte seguiu com mais de 20% em dólar.

O plano do gestor, Luiz Parreiras, quando o Horizonte foi criado era que o fundo ficasse sempre com 25% a 75% do patrimônio expostos à moeda americana.

Recentemente, as estratégias se aproximaram, como você pode ver no gráfico acima. Ocorre, a partir de maio, um súbito alinhamento de gestão, aumentando a correlação entre os três fundos. Intencional?

Seja como for, a diferença de retornos deve permanecer, porque o Verde não é replicável. Se pudesse ampliar a estratégia, o Stuhlberger não estaria devolvendo dinheiro.

E, no caso da Previdência, há os limites da regulamentação. Não é possível alavancar, o que restringe os ganhos sobre uma convicção. E, dentro das regras engessadas da previdência, também não é possível montar todas as proteções que marcam a gestão Stuhlberger. Está vetada, por exemplo, a montagem de posições vendidas, que ganham com a desvalorização dos ativos.

O Verde Previdência seria então um Stuhlberger otimista? Confesso que fico incomodada com essa ideia, já que sempre vi a genialidade do gestor funcionar mais na ponta oposta, de quem antevê os problemas. E se posiciona muito bem em cima desse cenário.

E o pior é que o desempenho deste ano combina com essa hipótese. O Stuhlberger nunca comprou o otimismo com o Brasil. Da última vez que falei com ele, em fevereiro, ainda antes de chegar à Empiricus, o gestor tinha acabado de passar de neutro a levemente comprado na bolsa brasileira. Fugiu da minha pergunta sobre renda variável até que se rendeu e brincou que estava com vergonha de sua posição em bolsa, que já estava arrependido, porque não casava com a visão estruturalmente negativa para Brasil.

O Stuhlberger sofria naquele momento uma ambiguidade por saber que o investidor estrangeiro estava na ponta oposta, em um otimismo que traria obrigatoriamente fluxo. O retorno acumulado no ano no Verde, de 7,66%, mostra que ele se manteve cauteloso. E o ganho do fundo de previdência, de 12,94%, aponta para o sentido contrário.

Repassei o questionamento à equipe da Verde. Eles confirmam que a regulamentação de previdência limita o uso de algumas estratégias. Defendem, entretanto, que isso não significa necessariamente uma posição mais otimista ou mais pessimista.

O fundo de previdência, disseram, segue os princípios gerais que a Verde tem para todos os fundos. Se o Horizonte tiver em algum momento uma exposição pesada em bolsa casada com uma proteção que não puder ser replicada na carteira de previdência, a posição em bolsa estará também no fundo de previdência, só que em menor quantidade, ou apenas com as ações mais defensivas.

Respeito o ponto, mas uma das maiores virtudes do Stuhlberger é comprar seguro-catástrofe muito barato. Muita bolsa com um pouco de proteção não é a mesma coisa de pouca bolsa.

Já estive com o Parreiras algumas vezes também e ele é ótimo. Mas, no fundo, esta questão toda reflete um problema clássico de empresas historicamente dependentes de um gênio: como institucionalizar o conhecimento. Como toda aquele bagagem, que certamente envolve técnica e ciência formalizáveis, mas também muito de conhecimento tácito, pode transbordar para a empresa como um todo?

Como você tem me perguntando sobre o fundo de previdência da Verde (que agora também será distribuído pelo Itaú), achei que valia a pena contar essa história.

No momento, a diferença de gestão entre a previdência e o fundo de Stuhlberger reflete-se de forma extremamente positiva no retorno. Mas como isso funcionaria em um momento ruim de Brasil?

Quero que você tenha em mente que, quando compra Previdência Verde, não compra o fundo Verde. Infelizmente. Mas, certamente, o produto é muito melhor do que todo o resto que vemos aí. Para a minha previdência, eu adoraria ter um misto de bons gestores, inclusive Verde. Tenho estudado como viabilizar isso. E estou otimista. Vou lhe contar em breve.

 

Balanço, só do avião

Não sei você, mas eu tenho horror à imagem da vovozinha na cadeira de balanço esperando o tempo passar. A Senhora Luciana vai viajar com os amigos, jantar em restaurantes legais e andar por aí de Mini Cooper (adoro). Vamos comigo?

Já assinou o relatório de fundos? Terça-feira chegam excelentes indicações de fundos multimercados. E o próximo é de previdência. Ainda dá tempo de ter acesso aos melhores fundos do mercado brasileiro, clicando aqui.

Previdência é difícil, eu sei. Mande suas dúvidas para fundos@empiricus.com.br

 

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Um abraço,
Luciana Seabra

Analistas responsáveis: Felipe Miranda, CNPI, e Walter Poladian, CFP®.

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