Confesso: vendi antes da hora

Os três erros que cometi quanto também me assustei com a volatilidade

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Confesso: vendi antes da hora

O ano era 2014. Estava animada com a escolha de um novo fundo para compor meu portfólio: Gávea Macro. O histórico era consistente, o portfólio era diversificado, eu conhecia a equipe pessoalmente e ela era comandada pelo ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga em carne e osso. O que poderia dar errado?

Minha cabeça poderia dar errado. Quanto rendeu o fundo da Gávea em 2014? 4,37 por cento. Sim, eu sei de cor. Fiquei arrasada.

E o que eu fiz? Sentei em cima da mão, confiei no gestor que tinha escolhido e esperei pelo retorno, claro.

Mentira! Saquei tudo e mandei para o fundo DI.

E, assim, amarguei o prejuízo e passei a torcer por mais um ano ruim. Desculpa, Arminio, eu precisava melhorar minha autoestima de investidora. E o que aconteceu? Assisti de camarote ao fundo da Gávea entregar 26,69 por cento em 2015.

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Eu precisei errar uma vez para aprender. Não quero que você vá pelo mesmo caminho. Então vamos ao que aprendi:

Meu erro número 1: falta de paciência

“Estou profundamente decepcionado com a performance do Adam XP. Darei mais seis meses de prazo para resgatar o investimento ou não”. Marcus Vinicius S.

Marcus, vá por mim. Já andei por esse caminho e não é uma boa ideia.

Agora, pera lá, né? A hora da bronca, pelo seu bem. O seu fundo rendeu heroicamente 1,32 por cento em novembro, em meio à eleição do Trump, expectativas de delação da Odebrecht e prejuízos expressivos na maior parte das carteiras.

O que te incomoda? Os seis primeiros dias de dezembro, com prejuízo de 0,77 por cento? O Adam é volátil, ninguém te escondeu isso. Mas, saia agora correndo, e assista ao retorno de camarote.

Por que o Arminio entregou tão pouco em 2014? Ele, como grande parte dos gestores de multimercados, estava confiante na tese de valorização do dólar. Não dava para desmontar a posição, porque ninguém sabia quando a tese aconteceria.

Qualquer semelhança não é mera coincidência. A história agora se repete, com a diferença de que a nova convicção é no corte de juros. E a ata do Copom, divulgada nesta semana, reforça a tese. Tudo aponta para um corte da meta para a Selic em 0,5 ponto percentual em janeiro. Presente de ano novo.

Meu erro número 2: horizonte errado

Quando comecei a defender o investimento em multimercados, há seis meses, perguntei: você pode me dar dois anos? Repito: dois anos (como diria um radialista).

Eu sabia que no curto prazo seria difícil? Não tinha ideia. Eu até queria acreditar que o corte de juros seria mais rápido, mas eu sabia que não sabia. E, sendo assim, te pedi tempo. Acredite: já tentei investir em um multimercado por um ano e quebrei a cara.

Estou bem tranquila sobre a realização das teses dos gestores dentro desse prazo, de dois anos. Em menos tempo, sinceramente, não tenho o que dizer (acho que nem eles!).

Bom lembrar que, para fundos de ações, o horizonte tem que ser ainda mais esticado: três a cinco anos. Nesse prazo, o gestor não deve te decepcionar.

Meu erro número 3: dinheiro errado

Em 2014, eu fiz uma estripulia. Estava cansada de ver minha reserva de emergência crescer a passos de tartaruga. Então coloquei um pedaço dela em risco. De forma mais específica, no multimercado da Gávea. E foi por isso que eu perdi o sono com prejuízos.

Aqui eu recorro à recomendação do Sérgio Carettoni, no livro Conversas com gestores de ações, que você já conhece: invista em risco o dinheiro do qual você não precisa.

Leve isso a sério!

Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Santander, Caixa Econômica Federal…

“Saiba que todos eles – sem exceção – estão embolsando boa parte do rendimento que deveria estar na SUA conta.

Veja agora mesmo como eles fazem isso e descubra uma forma inteligente de recuperar a sua parte do dinheiro.”

QUERO O MEU DINHEIRO DE VOLTA

“Qual a sua opinião sobre o pessoal da Canvas, antiga Advis? Está com bons rendimentos, mas podemos colocar este pessoal no primeiro pelotão?” Peter C.

Peter, na realidade, a Canvas nasceu em 2012 como uma gestora encubada no banco Credit Suisse, que ainda tem 20 por cento de participação, inicialmente com o nome Peninsula. Só no começo deste ano, levou para dentro os sócios da Advis.

Com uma história bastante contada nos corredores do mercado, a Advis já foi uma das 25 maiores gestoras do país, queridinha dos alocadores, com R$ 10 bilhões sob gestão. Sofreu R$ 7 bilhões em resgates depois de interromper uma sequência de cinco anos de retornos fartos com um prejuízo de 4,8 por cento em 2013.

O prejuízo nem foi tão grande assim – já vi fundo sobreviver com perda muito maior – e estava dentro do mandato do fundo.

Bati um papo com o Felipe Niemeyer, que era sócio da Advis e hoje é o sócio responsável pela relação com investidores na Canvas. Ele diz que o crescimento foi conduzido da forma errada – a equipe cresceu demais, os alocadores concentraram dinheiro demais nos fundos, e alguns, pelo jeito, não sabiam o que estavam comprando, embalados por anos consecutivos de retorno bem acima do CDI.

O que se diz no mercado é que a equipe carregou por tempo demais uma posição muito grande em fechamento de juro. À época, rodaram no mercado gráficos comparando o desempenho do fundo com o IMA-B, cesta de títulos públicos indexados à inflação. E as linhas de fato andavam bem juntas.

Felipe defende que havia sim outras posições, inclusive globais, mas assume o erro. Para ele, a falha da Advis deveu-se especialmente à falta de stop loss – aquele gatilho que interrompe as perdas quando elas alcançam determinado nível – mas defende que a equipe sai mais forte: “levou 10 anos e um ano ruim pra gente chegar aonde chegou”.

Sem dúvida, a Canvas tem uma equipe de alto nível. Aos fundadores, Antonio Quintella, presidente do Credit Suisse no Brasil por sete anos, e Sergio Blatyta, ex-chefe da tesouraria do Santander, somaram-se Alexandre de Zagottis, Guilherme Gaertner e Eduardo Bodra, da Advis. Todos muito bem formados e com mais de 20 anos de experiência no mercado.

E foram os controles de risco os principais ajustes na Canvas para evitar cair nas mesmas armadilhas, segundo o Felipe.

Na Canvas, cada gestor tem sua carteira. Eles têm um mandato amplo, mas, na realidade, Bodra é o cara dos juros, Gaertner, mais conhecido como GG, é o ás do cupom cambial, Blatyta tem um mandato amplo (chegou a se aventar no mercado que ele deixaria a gestora com a chegada de Zagottis, o novo diretor de investimentos, mas o moço segue lá com sua carteira).

Zagottis é conhecido por ter um algoritmo de seleção de ações, desenvolvido em Harvard: há quem critique o modelo sob o argumento de que ele faz ausência de volatilidade ser interpretada como menos risco, estimulando a compra.

E há os controles de risco. Todos os gestores têm um stop loss bem definido para sua estratégia, por exemplo. Um stop por processo, não por visão de mercado, diz o Felipe. Ou seja, perdeu, fica de castigo sem brincar por um tempo.

Além disso, cada um dos mandatos sofre um corte em seu orçamento de risco quando aumenta a correlação com os demais. Tudo para evitar excesso de concentração em uma única aposta. O maestro do risco é o Quintella.

Agora, por exemplo, na eleição americana, o fundo perdeu, assim como grande parte do mercado. A equipe foi pega de surpresa com Trump, diz Felipe. Quem não foi, não é mesmo?

Mas o stop vai forçar a redução da posição em juros? E se a abertura for uma oportunidade? – perguntei. Felipe diz que, de fato, os gestores vão ter que rodar com menos risco por um mês, mesmo que tenham visto um exagero no mercado, mas que sempre dão preferência a cortar posições onde têm menos convicção (o castigo não recai obrigatoriamente sobre a posição perdedora).

O fato é que depois de toda essa conversa, com a Advis e outros participantes do mercado, fiquei com o receio oposto: de que o fundo tenha dificuldade em gerar retorno. Se o gestor tem uma convicção e o mercado anda contra no curto prazo, não vai poder carregá-la. Terá que zerá-la. Fora que o stop custa dinheiro.

Mais importante do que barrar as perdas não seria montar proteções para evitá-las?

Todo mundo erra e nada mais educativo – experiência própria – do que um erro. Queremos, entretanto, observar mais um pouco como vai funcionar o modelo de ‘stop loss’, Peter.

Estamos com lupa no fundo.

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Suas histórias são valiosas para fazermos uma indústria de fundos melhor. Está com dúvida? Foi maltratado? Escreva para fundos@empiricus.com.br.

 

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Um abraço,
Luciana Seabra.

 

Analistas responsáveis: Felipe Miranda, CNPI, e Walter Poladian, CFP®.

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