Ei, você que tem medo de Bolsa

Mesmo para quem não entende nada de renda variável, há espaço para ganhos mais fartos

Ei, você que tem medo de Bolsa

Esses dias me peguei tentando convencer o locador do meu apartamento a colocar um pezinho na Bolsa. Não somos amigos, nunca tomamos uma cachacinha juntos, mas ele comentou que tinha vendido um imóvel e ia colocar tudo em LFT.

Deu uma dor no coração…

Comecei a defender de forma aguerrida que pelo menos 5 mil reais daquela bolada toda fosse parar na renda variável… Conheço um ótimo fundo de Bolsa com essa aplicação mínima.

Ele ficou meio assustado com tamanha proatividade, mas disse que ia fazer isso. E eu saí pensando: será que pareci uma louca?

Sabe quando você assiste aquele filme que é tão bom, tão bom, que você precisa compartilhar com alguém (a propósito, já viu Into the Wild?)?

Não estou aqui para dizer que a Bolsa é a última Coca-Cola do verão, que qualquer ação que você comprar hoje trará alegrias amanhã. Pelo contrário.

O investidor de Bolsa sofre quando as ações caem, mas também sofre quando elas sobem. Será a hora de vender? Como disse o Dório Ferman, em entrevista no livro Conversas com gestores de ações: “Você ganha quebrando pedra. E perde também quebrando pedra”.

Mas, veja só. Um dos meus fundos de ações preferidos rendeu 16 por cento somente em janeiro. Vejo aqui uma das ações que o Bruce indicou em meados de dezembro ultrapassar 50 por cento de valorização, na companhia de outra, de uma empresa consolidada, que já sobe 22 por cento.

Estou com dificuldade de lidar com isso calada.

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Olhando para o passado, vejo anos em que gestores de ações fizeram muito dinheiro com a Bolsa, mas poucos estavam lá para participar.

Apenas como exemplo, 2009, ano em que o Dynamo Cougar rendeu 82 por cento e em que o IP Participações entregou 87 por cento, começou com somente 10 por cento de todo o dinheiro alocado em fundos dedicados a ações.

O que dizer do percentual atual? Somente 4 por cento do dinheiro em fundos está em fundos de Bolsa.

Tenho percebido nos cafés com o mercado promessas de novos fluxos para a Bolsa. Os gestores de multimercados, que há anos não queriam falar em ações, agora começam a ampliar suas participações na renda variável.

E os fundos de pensão, tão acomodados em NTN-Bs de rendimentos gordinhos, diante de um juro em queda também vão precisar rebolar. E, para conseguir arcar com os benefícios, vão ter que sair do praticamente zero em Bolsa para pelo menos alguma merreca lá.

Vejo as casas globais voltarem a falar de Brasil, os investidores estrangeiros voltando a bater à porta dos gestores de ações locais…

Pense bem: qual você espera que seja o efeito de toda essa gente chegando à festa?

O importante é que você tenha um pé na Bolsa. E não é agora, é sempre. E não é todo seu patrimônio, pode ser uma fatia pequena. Pode ser uma fatia micro. Você não vai se tornar um investidor arrojado com isso, mas sim sofisticado.

Veja a carteira do Felipe, diversificada, que sem a ajuda da fatia em Bolsa dificilmente renderia os 6,51 por cento que acumula no ano. O fundo DI mais barato que conheço disponível no varejo rendeu 1,5 por cento no mesmo período. Percebe o que você deixou na mesa?

Você não conhece nada de Bolsa? Não sabe nem começar, dá calafrio? Invista em um bom gestor, que vai selecionar as ações para você. Ele estuda o melhor momento para comprar e vender, enquanto você atende suas consultas, desenvolve seus projetos, faz o que realmente sabe.

Experimente contar para aquele seu amigo americano que você está com todo o patrimônio em títulos públicos brasileiros. Diga a ele que tem medo de Bolsa. Por favor, fotografe a cara dele e envie para mim.

“Mas é diferente”, diz você. “Os juros brasileiros são muito altos”. Estão, entretanto, também disponíveis para os estrangeiros e nem por isso eles deixam todo o patrimônio em títulos públicos brasileiros.

Certa vez perguntaram a David Swensen, o alocador de fundos com melhor histórico do mundo, como deveria ser uma carteira para a aposentadoria. O portfólio recomendado por ele tem 30 por cento em ações americanas, 15 por cento em ações de países desenvolvidos e 10 por cento em ações de países emergentes. Ou seja, 55 por cento em Bolsa!

Swensen, que seleciona fundos para o endowment de Yale (em bom português, aloca um monte de dinheiro que ajuda a sustentar a universidade), não fez qualquer referência a títulos públicos brasileiros.

Tão aguardado quanto bebê de família real é o Adam Strategy. As especulações sobre o futuro filhote da gestora de Marcio Appel, a julgar pelos e-mails que tenho recebido, só empatam mesmo com George e Charlotte.

Quando fechou o Adam Macro, em janeiro, a casa do ex-gestor do Safra já estendeu o tapete para o futuro lançamento. A previsão, disse para mim André Salgado, sócio-fundador da gestora, é colocar o fundo na rua entre junho e julho.

A Adam precisa antes reforçar a equipe, principalmente em ações. Isso porque o plano é que o fundo expresse a visão de Brasil por meio da gestão ativa em Bolsa, além de moedas (veja aí, mais um comprador de Bolsa).

E os juros? O Strategy vai evitar posição em juros brasileiros, tanto em prefixados quanto em indexados à inflação. Até por que não faria sentido, não é mesmo? O Adam Macro fechou as portas em janeiro exatamente porque o gestor não queria ficar grande demais no mercado de juros brasileiros (já tentou manobrar um caminhão em uma garagem apertada?).

A questão é: tradicionalmente é na arena dos juros que os gestores de multimercados brasileiros mais fazem bonito. Como será que vai se comportar um fundo que não pode atuar nesse mercado?

A Adam fez o teste, defendeu o Salgado. A gestora testou como teria se desempenhado o Macro desde que foi criado sem a posição em juros.

E a correlação entre o Macro e o protótipo do Strategy ficou bastante alta no teste: 0,92. Você não precisa ser íntimo de estatística para entender isso. No limite, se comparássemos um fundo com ele próprio, esse número seria 1.

A volatilidade mirada ainda não está definida, mas, segundo Salgado, deve ser perto de 10 por cento, um pouco maior que a do Adam Macro.

O movimento lembra o feito pela Verde Asset ao lançar o fundo Horizonte. Luis Stuhlberger não conseguiria abraçar mais patrimônio em suas estratégias, mas delegou o novo multimercado a seu braço direito, Luiz Parreiras.

Uma diferença importante é que o pai da criança Adam será também Appel.

Como o gestor vai se comportar com amarras? No fundo de previdência – em que há limites impostos pela regulação – a história ainda é curta, mas o gestor tem feito bonito.

Enfim, difícil avaliar se a criança que nem nasceu ainda será bonita e bem-sucedida, por mais que seja filho de família real. O pai, entretanto, tem nossa admiração. Vamos avaliar com lentes de paparazzi.

Leitura da semana

Para fechar, em janeiro, o mais reconhecido multimercado brasileiro – o Verde – completou 20 primaveras. A carta comemorativa vale uma horinha de sofá. É uma aula de neurose com os riscos e também de grandes acertos.

Faz tempo que o Verde não tem uma exposição realmente grande na Bolsa brasileira, mas repare como o gestor aproveitou bem historicamente momentos de alta nas ações.

Chama a minha atenção especialmente a citação de uma carta de dezembro de 2008, em que Luis Stuhlberger, o gestor da carteira, chama o Verde de long bias, ou seja, com tendência de estar sempre comprado, justificando o fato de ter ido mal em um ano que as Bolsas despencaram.

E aí vem a oposição dizer que o Verde rendeu somente 0,11 por cento em janeiro, contra 1,09 por cento do CDI, que ficou perto do referencial no ano passado, que o gestor perdeu a mão… Só faltava mesmo olhar o curto prazo depois de 13.894 por cento de retorno em duas décadas, contra 1.743 por cento do CDI.

Por cotas do Verde, eu iria a pé do Rio a Salvador, para encerrar com Barão Vermelho.

 

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Um abraço,
Luciana Seabra

Analistas responsáveis: Felipe Miranda, CNPI, e Walter Poladian, CFP®.

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