O fundo proibido

Hoje vou revelar o fundo proibido para entrar agora, sob o risco de que você corra para ele – o proibido é atraente, eu sei. Se não fosse, não precisava proibir.

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O fundo proibido

Na casa em que morei até os oito anos, em Diamantina, havia um cômodo proibido. Era a “sala de visita”. Eu e meus irmãos tínhamos autorização para entrar quinzenalmente, no dia da enceradeira. Nossa função era ajudar a fazer o piso brilhar, o que obviamente virava uma grande farra.

Fora do dia da enceradeira, a tentação era grande, mas a punição muito maior (nunca desafie a minha mãe). E, sinceramente, a travessura gerava sempre uma decepção. O que havia lá dentro? Sofás e tapetes.

Hoje vou revelar o fundo proibido para entrar agora, sob o risco de que você corra para ele – o proibido é atraente, eu sei. Se não fosse, não precisava proibir. Mas vou tentar mesmo assim: o fundo em que defendo que você não entre agora é o que investe em títulos de renda fixa prefixados.

Não estou falando do fundo DI, mas dos fundos que em geral têm “pré” ou “IRF-M” no nome, em referência ao índice que reflete uma cesta de títulos que pagam uma taxa prefixada.

Faço esse alerta porque tenho recebido com frequência e-mails de investidores interessados nesse tipo de produto por conta da rentabilidade ao longo deste ano, acreditando que ela vai se repetir nos próximos meses. De fato, vários desses fundos se destacaram em relação aos demais de renda fixa, com retornos que ultrapassam 110% do CDI – alguns chegam a 150% do CDI no ano.

O ponto é: por que isso aconteceu? O retorno é explicado pelos sucessivos cortes de juros pelo Banco Central e pelo ajuste de expectativas do mercado para tal. Começamos o ano com a meta para a Selic em 13,75%; hoje, temos 7,5%. Claramente não há mais espaço para cair tanto mais (a não ser que nos transformemos na economia americana, o que não me parece o caso).

Por que estou tão preocupada? Porque já vi esse filme antes. Já assisti a quem entrou na sala proibida – sem ser informado ou, pior, orientado de forma errada – ser castigado. Mais precisamente em 2013.

O ano de 2012 – também de queda dos juros – foi de retornos superiores a 150% do CDI para esse tipo de fundo. A captação se intensificou no fim do ano. Aí veio 2013 e a decepção – a maior parte deles não ultrapassou os 40% do CDI.

Ou seja, o investidor que entrou nesses fundos de olho no retorno de mais de 12% em 2012, deparou-se, em grande parte dos fundos, com menos de 2% em 2013.

Talvez a decepção não seja tão grande em 2018 quanto foi em 2013 – ainda há quem acredite em cortes adicionais nos juros superiores aos que já estão nos preços. E uma virada de mão do Banco Central não parece um cenário tão provável.

É praticamente impossível, entretanto, que esses fundos deem tantas alegrias nos próximos 12 meses quanto deram nos últimos. E, para piorar, a volatilidade deve ser expressiva, ao sabor do crescimento nas pesquisas de candidatos mais ou menos afeitos às questões fiscais.

Em 2013, muitos investidores não suportaram o balanço – que o gestor é obrigado a marcar todos os dias, mesmo que carregue os títulos até o vencimento – e acabaram sacando, amargando prejuízos.

O ruim dessa categoria de fundo é que você pagou o gestor para comprar um único tipo de ativo: títulos prefixados. Não corte as asas dele em um ano que pode ser preciso voar.


Alguns fundos recheados de títulos prefixados disponíveis no mercado são grandes, com mais de 1 bilhão de reais de patrimônio, e têm captado mais dinheiro mês a mês com base no histórico recente.

Não são fundos necessariamente ruins – alguns têm taxa menor do que 1% ao ano – mas não considero boas oportunidades no momento, ao contrário do que você pode pensar ao mirar o retorno recente.

Apenas como um exemplo do que expliquei acima:

Fonte: Quantum Axis. *Até 10 de novembro.

Não estou dizendo que a virada brusca vai acontecer de novo, reforço. É bem claro, entretanto, que o retorno não vai se repetir – pelo simples fato de que o patamar do juro já está bem mais baixo. E, mais, pode haver uma mudança expressiva de desempenho de um ano para outro. A renda fixa não é fixa, como diria a Marília.

Se o destino desse dinheiro é a reserva de emergência, dê preferência a um fundo DI barato. Se sua intenção é aproveitar oportunidades de curto prazo na renda fixa por meio de um fundo, dê preferência a um bom multimercado. Ele vai poder reduzir as posições ou trocar dos juros para o câmbio ou Bolsa se achar que não há mais oportunidades nos prefixados – tudo o que um gestor de fundo de renda fixa prefixada não vai poder fazer por você, por mandato.

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