9 sementes de romã (+ 7 lições de 2017)

Confira o que deu certo e errado no último ano e evite armadilhas em 2018

Compartilhe:
Enviar link para o meu e-mail
9 sementes de romã (+ 7 lições de 2017)

Lá em casa os rituais de fim de ano ainda não acabaram. Eles vão se encerrar no sábado, Dia de Reis. Além de desmontar os enfeites de Natal (encontro marcado com o arrependimento de ter se empolgado na decoração), esse será o grande momento de debulhar a romã.

O ritual começa com uma oração a Baltasar, Belchior e Gaspar – sobre a qual há certa polêmica, já que na Bíblia não há registro dos nomes dos reis que presentearam o menino Jesus com ouro, incenso e mirra, mas penso que seria necessária muita criatividade para atribuir tais nomes a eles. Em seguida, você engole três sementes de romã, joga três para trás e guarda três na carteira: é a fórmula para ter dinheiro o ano inteiro.

Recomendo que replique o procedimento – em time que está ganhando não se mexe –, mas que não deixe de ler a lista abaixo. Nela estão sete lições que 2017 deixou para o investidor de fundos. Ela pode dar conta de alguns detalhes que a romã não alcance.

1. Errar com proteção é melhor: Luis Stuhlberger, o estrelado gestor do fundo Verde, marcou em 2017 o terceiro de 21 anos de história atrás do CDI. O pessimismo com Brasil e a crença de que a China seria obrigada a desvalorizar sua moeda prejudicaram o fundo. Há quem diga que ele perdeu a mão. Na minha visão, o desempenho esconde um traço de genialidade do gestor, reconhecido por proteger o portfólio seja qual for sua convicção – mesmo quando Stuhlberger erra muito o cenário, preserva capital. Até 28 de dezembro, o Verde rendeu 5,25% contra 9,93% do CDI.

2. Ter um seguro ajuda a dormir tranquilo: em um ano de retornos fartos na Bolsa e na renda fixa, a parte do patrimônio alocada em dólar rendeu pouco: menos de 3%. Não devíamos esperar mais de um seguro contra catástrofe em um 2017 tão positivo para diferentes mercados. É bom lembrar, entretanto, que quando mais precisamos do seguro ele nos ajudou a dormir tranquilos. No 18 de maio, dia da divulgação da fatídica conversa entre Joesley e Temer, enquanto o Ibovespa caía 8,8%, um fundo cambial com custo justo andou quase 7%.

3. Seu portfólio merece uma pitada de pimenta: quem acertou na dose de Alaska Black, um dos fundos mais comentados do ano, sob os cuidados do veterano da Bolsa Luiz Alves, e não fugiu diante da queda de 28% no 18 de maio, comemorou nada modestos 74,62% de ganho no acumulado do ano.

4. Perdoe-me o Buffett, mas gestor de ações dedicado bate o índice no Brasil: na aposta do megainvestidor, os fundos indexados levaram vantagem. O que vale para os EUA, entretanto, não se aplica à Bolsa brasileira. Os gestores de ações que não se apegam ao Ibovespa tiveram mais um ano de lavada sobre o referencial. Menção honrosa a HIX e Brasil Capital, que ultrapassaram 10% de excesso de retorno sobre o Ibovespa.

5. Fundo bom fecha, não coma mosca: quem demorou para acordar às oportunidades de retorno em 2017 ficou de fora de excelentes fundos. Explico: gestores de qualidade encerram a captação para evitar que o patrimônio muito grande prejudique o retorno. Alguns dos fundos mais rentáveis de 2017 fecharam as portas ao longo do ano. Tenho uma coleção de e-mails de investidores atrasados chateados. Aconteceu, por exemplo, com Adam Macro, Garde D’Artagnan, Kapitalo Kappa e Oceana Long Biased (não vou falar que avisei para entrar logo para você não achar que sou chata).

6. Fundo DI tem que ser barato: quem nunca se importou com o custo do produto em que investe sua reserva de emergência ficou para trás. À medida que o Banco Central cortava os juros básicos, fundos DI caros se aproximavam em retorno da poupança – que também passou a render menos em setembro. Quem estava nos fundos DI com taxa de 0,2% ao ano saiu na vantagem.

7. A previdência pode (e deve) ir além da renda fixa: 94% do patrimônio investido em planos de previdência estão em fundos de renda fixa, mas em 2017 cresceu a oferta de produtos mais sofisticados, que aplicam em outros ativos, como ações e moedas. Eles atraíram recursos, enterrando a visão de que o acúmulo para a aposentadoria deve acontecer em produtos extremamente conservadores – para não dizer medíocres. Um sinal inequívoco é de que 11 mil pessoas investiram no mix de fundos da SuperPrevidência – portfólio sugerido pela Empiricus para a aposentadoria, que ultrapassou 141% de retorno em seus primeiros seis meses de vida. Essa janela também já se fechou, mas esperamos reabri-la em 2018.

O Adam Strategy, caçula da gestora carioca comandada por Márcio Appel, acaba de completar seis meses, período mínimo para divulgar seu desempenho ao mercado. O período é curto, mas o fato é que o retorno acumulado pelo fundo não ajuda os céticos sobre o multimercado, que não opera o mercado brasileiro de juros – o ganho de julho até aqui é de 9,85%, contra 4,06% do CDI.

O investimento em ações globais, novidade da gestora no segundo semestre, contribuiu para o desempenho. Os destaques foram Alphabet (Google), Amazon, Facebook e Apple, além de uma posição vendida em Netflix.

 

A primeira bronca do ano vai para quem está pensando em ordenar os fundos pelo retorno em 2017 a fim de decidir em qual investir para 2018. É muito provável que dê errado.

Veja o ano de 2012. Ele foi similar a 2017 na renda fixa: o Banco Central cortou os juros básicos e os fundos recheados de títulos prefixados ou indexados à inflação tiveram altos retornos.

Não deu outra: no fim de 2012 houve uma grande captação nesses produtos, que em geral têm no nome IMA-B, IRF-M, inflação, renda fixa índices ou mesmo somente renda fixa. Os investidores atrasados ficaram frustrados em 2013, com o efeito da reversão da política monetária.

Quer um exemplo? Suponhamos que você esteja de olho no BB Estilo Pré FIC Renda Fixa LP, um fundo muito grande, com R$ 1,23 bilhão de patrimônio. Ele rendeu 13,9% em 2017, acima dos 9,93% do CDI. Foi um desempenho bem parecido com o de 2012, em que o fundo ganhou 13,2%.

E se você tivesse investido seu dinheiro nesse fundo do BB no primeiro dia de 2013? Seu retorno seria de somente 1,5% ao longo de todo o ano, ou 19% do CDI.

Não é culpa do gestor. Ainda que o Banco Central continue o movimento de corte de juros ou que eles se estabilizem, não há espaço para valorizações tão expressivas em estratégias passivas em 2018, simplesmente pelo fato de que o patamar já está muito baixo – bom lembrar que a meta para a Selic começou 2017 em 13,75% e terminou em 7%.

Como o mandato desses fundos é investir somente em títulos prefixados e indexados à inflação, melhor procurar outras oportunidades para 2018 em vez de correr atrás do passado.

Conteúdo recomendado