Invista além da sua cozinha

De cada 100 reais investidos em fundos de investimento no Brasil, somente 84 centavos são aplicados fora do país.

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Invista além da sua cozinha

Minha primeira casa foi Diamantina. Diamantina era tão grande que minha mãe definiu cômodos proibidos, a fim de que a enceradeira trabalhasse menos.

Belo Horizonte era o nome da casa da minha avó. Ela tinha um belo jardim e sabor de sorvete com calda de caramelo e granulados. “Mãe, vamos voltar pra Belo Horizonte?” – perguntei certa vez quando só tínhamos virado a esquina para ir ao mercado (e, claro, sou vítima de chacota até hoje).

Aos oito anos, minha casa chamava-se Brasília – era iluminada, com vista para ipês amarelos e som irritante de cigarras. Aos poucos, minhas pernas cresceram e, com elas Brasília, que se esticou para a banca de jornais, a quadra de esportes, o parque da cidade.

Chamar de mundo seu microuniverso é uma miopia infantil. Meu sobrinho esconde os olhos com as mãos e acredita que desapareceu. Jean Piaget explica: a noção de que algo existe, mesmo que não esteja aparente, não vem de nascença. Ela é desenvolvida com o tempo.

O que quero contar a você hoje é que o meu e o seu portfólio de investimentos carecem do que Piaget chama de “permanência do objeto” – a percepção de que há algo além do que você pode ver e ouvir. Ou seja, que Belo Horizonte era muito mais do que eu podia sentir, a casa da minha avó.

Nossos portfólios são míopes como o olhar de uma criança. De cada 100 reais investidos em fundos de investimento no Brasil, somente 84 centavos são aplicados fora do país.

Tapamos os olhos ao mundo. Diversificamos entre títulos do governo brasileiro, crédito de empresas brasileiras e também ações de companhias brasileiras. Que tal também um pouco de moeda brasileira parada na conta?

Não é jabuticaba. Amplamente pesquisado, o chamado “home-country bias” é um viés a investir predominantemente no país em que vivemos. Ater-se aos limites da casa da vovó é obviamente mais confortável.

Investidores mais sofisticados, entretanto, afrontam seus vieses. O patrimônio das mais prestigiadas universidades americanas – Yale, Harvard, Princeton e Stanford – acumulados em bolsões de riqueza chamados “endowments” têm, em média, 15 por cento aplicados em ações de empresas americanas. Na média, todos os endowments investem muito mais – 42 por cento – de seu patrimônio em ações da Bolsa doméstica.

No Brasil, as regras não ajudam, é verdade. Um fundo com liberdade para aplicar de zero a 100 por cento no exterior só pode ser vendido a investidores superqualificados, ou seja, com 10 milhões de reais em patrimônio financeiro.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também limita a 20 por cento a fatia que fundos multimercados e de ações distribuídos no varejo podem investir no exterior – e, infelizmente, poucos estão preparados para fazê-lo.

A diversificação no exterior é vista no Brasil como um risco, quando risco mesmo é concentrar todo seu patrimônio em um único país.

Ao investir em um fundo de ações ou títulos públicos de outros países, você ganharia duas vezes, pela diversificação de mercados e também de moedas.

Acontece que, para facilitar a venda ao investidor de varejo – que não entende volatilidade segundo aqueles que nunca tentaram explicá-la – cada vez mais os gestores estrangeiros cedem à moda do “hedge”, ou seja, anulam a exposição cambial dos produtos. Tudo bem, já é um começo.

Haverá dificuldades, mas você pode e deve ver além do seu mundinho. Tenha como meta investir uma parcela do seu patrimônio no exterior. Quanto? Comece com 10 por cento que seja.

Gostaria muito de saber mais sobre esses fundos direcionados para o exterior. Um fundo em que tenho interesse é o da Pimco. Se pudesse falar um pouco sobre ele, seria ótimo”. Pedro S.

Fico feliz com o interesse em ir além do muro de casa, Pedro.

Não é de hoje que gestoras globais enfrentam a regulação resistente, a falta de cultura do investidor e a rede de distribuição concentrada nos bancos para tentar fincar suas marcas em terras brasileiras. Muitas já desistiram.

A Pimco é uma das novatas no desafio – o primeiro produto no Brasil data de 2016 – mas tem feito o dever de casa direito. A gestora já captou 1,6 bilhão de reais no fundo local, o Pimco Income, que acessa uma de suas principais estratégias no mundo.

O DNA da Pimco é renda fixa. O Income brasileiro é somente uma casca, que compra o fundo Income com sede na Europa, que desde maio de 2007 investe em títulos públicos e privados em todo o mundo (com a vantagem de que lá fora há liquidez) – hoje o fundo tem ao todo 1.800 papéis.

Dada a estratégia tão diferente da que costumamos ver, o Pimco Income tem uma baixa correlação com os fundos brasileiros – desde a criação, de 0,07 com os principais

multimercados brasileiros. Para você ter uma ideia, se os fundos fossem todos iguais, esse valor seria 1. Veja aí o valor da diversificação.

Sempre é bom lembrar que renda fixa tem risco. Os títulos oscilam ao sabor das políticas monetárias dos países de origem. E, você sabe, tanto países quando empresas podem ter dificuldades para arcar com suas dívidas.

Pode dar prejuízo. Em 2008, por exemplo, ano da crise econômica internacional, o fundo lá fora perdeu 5,45%. Nos outros oito anos completos, entretanto, o produto ficou no positivo, em três deles com retorno de dois dígitos.

Aqui, o fundo da Income não serve para diversificar moeda, já que anula a exposição cambial – foi a estratégia da Pimco para que o investidor não sofresse com a volatilidade. Por meio de uma operação de swap (troca), a variação do dólar é substituída pela do CDI.

Dessa forma, o aplicador brasileiro fica com a valorização do fundo Income original mais CDI menos os juros em dólar (perto de zero) menos o custo do swap. Complicadinho, né?

Para uma janela de quatro anos, o fundo lá fora bateu de longe inclusive o CDI – difícil bater o risco da renda fixa brasileira em uma carteira com grande peso em títulos de países desenvolvidos.

Não será o padrão, entretanto. O objetivo de retorno é por volta de CDI + 3 por cento, com 3 a 5 por cento de volatilidade – disse para mim o vice-presidente da Pimco na América Latina em uma excelente conversa que tivemos aqui na Empiricus (gestores locais que me desculpem, mas a qualidade da apresentação do fundo e o cuidado com o investidor desde a estruturação, não só com o institucional, mas também com a pessoa física, deveriam ser aula obrigatória).

Você talvez nunca tenha ouvido falar da Pimco, mas ela tem sob gestão 1,58 trilhão de dólares, o que é mais do que todos os gestores de fundos brasileiros têm (sim, incluindo Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Santander).

Por toda essa gestão ativa de renda fixa global, o investidor de varejo brasileiro vai pagar 1,45 por cento ao ano (preciso lembrar a você que os bancos brasileiros têm fundos de renda fixa sem graça com taxa maior do que 3 por cento ao ano?).

O fundo, infelizmente, está disponível somente a investidores qualificados, também para obedecer à CVM. Nesse caso, a regra é que, se um fundo tem entre 67 por cento e 100 por cento no exterior, ele pode ser oferecido a quem tem mais de 1 milhão de reais em investimentos financeiros.

Para quem tem esse patrimônio, a aplicação mínima é de 25 mil reais. Está na XP, Guide, Órama, Genial e acaba de chegar ao Itaú Personnalité (que bonito, Itaú, muito bem, antes tarde do que nunca).

Essa é a história do fundo da Pimco, que acabou de entrar na nossa análise. Acompanhe o nosso relatório para ver o parecer final. Buscar formas de você investir fora via fundos – seja ou não um milionário – é um desafio meu. Vamos conversar muito ainda sobre o tema.

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Um abraço,
Luciana Seabra.

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