Carta à investidora que existe em você

Como podemos nos sentir tão excluídas do mundo dos investimentos? Como podemos achar que a conversa sobre que ação comprar, em qual fundo deixar nossa reserva de emergência ou onde alocar a previdência pertencem a outro planeta?

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Carta à investidora que existe em você

Dia desses uma jornalista me procurou em busca de estudos sobre mulheres e dinheiro. Animada, logo tirei da manga a pesquisa de Barber e Odean segundo a qual, por serem menos acometidas pelo viés de excesso de otimismo, as mulheres são melhores investidoras do que os homens. A cada 100 reais de ganho potencial, os homens perdem 2,65 reais por girar demais a carteira. Nós, 1,72.

A jornalista me interrompeu: “Não, Luciana, não é nada disso. Tem outra entrevistada que vai falar sobre mulheres que têm conseguido superar o impulso de gastar, por exemplo. Acho que você não entendeu a pauta. Vamos falar da relação da mulher com o dinheiro”.

Engoli em seco, contei até três (isso funciona para alguém?): “A relação da mulher com o dinheiro envolve investimentos! Investimentos são feitos com dinheiro” – respondi. E segui: existem muitas pesquisas internacionais sobre como as mulheres se comportam ao investir. O debate de quem gasta mais, ou de quem tem menos dificuldade de se comportar frente a uma vitrine de sapatos, me parece algo da década de 50.

“Ah, eu vou ver se podemos mudar a pauta. Te ligo de volta” – respondeu a jornalista. Já faz algumas semanas. Desde minha época de colégio eu não ficava tão frustrada com uma promessa de ligação quebrada.

Como podemos nos sentir tão excluídas do mundo dos investimentos? Como podemos achar que a conversa sobre que ação comprar, em qual fundo deixar nossa reserva de emergência ou onde alocar a previdência pertencem a outro planeta?

Não foram só Barber e Odean que mostraram a vantagem feminina no mundo dos investimentos. Um estudo mais recente, da Fidelity Investments, com uma nada modesta base de 8 milhões de clientes, mostra mulheres que poupam mais do que os homens – 9% em média de sua renda anual contra 8,6% deles, no caso da aposentadoria – e conseguem mais retorno ao investir esse dinheiro: 0,4 ponto percentual adicional.

Parece pouco, mas faz muita diferença no longo prazo, defende a Fidelity. E simula, por exemplo, o acúmulo de patrimônio de quem começa aos 30 anos, com um salário de 75 mil dólares anuais, e se aposenta aos 67 anos. Tal padrão de poupança e aplicações feminino vai levá-la a 196 mil dólares a mais do que o homem para gastar na velhice.

A pesquisa mostrou alguns trunfos das mulheres ao investir. Somos mais resistentes a fazer parte desse universo, mas, quando chegamos lá, tendemos a comprar ações para carregar por longos períodos, em vez de reagir rapidamente a flutuações de mercado, e somos mais preocupadas em adequar o risco do portfólio à nossa idade.

Não estamos no “Xou da Xuxa” – não se trata de uma disputa meninas contra meninos. É bom para ambos que as mulheres invistam. Estou certa de que você não quer que sua mãe, esposa ou filha seja dependente financeiramente de alguém (posso pedir que você encaminhe esta carta a elas?).

É para a dependência que nós mulheres caminhamos: somos somente 27% no Tesouro Direto. Na Bolsa, não passamos de 25%.

Nossa autoestima nessa área está completamente equivocada. “Qual gênero investiu melhor seu dinheiro no ano passado?” – questionou a Fidelity ao seu público feminino. Tímidas 9% responderam que foram as mulheres.

 

Recebemos centenas de respostas à questão sobre fundos de private equity feita neste espaço. Quase a totalidade de vocês disse que sim, estaria disposto a alocar recursos em um produto recheado de empresas fechadas, ainda que não pudesse mexer no dinheiro por até dez anos, desde que houvesse uma perspectiva de retorno interessante.

O levantamento também mostrou que um produto com aplicação mínima de até 10 mil reais teria mais apelo, ao não exigir do investidor um comprometimento significativo de patrimônio.

Mais um indício para reforçar nossa hipótese: esse papo de que investidor brasileiro não está disposto a olhar para o longo prazo ou que só quer saber de renda fixa é conversa para boi dormir. Estamos à espera de um fundo de private equity legal e acessível para rechear nosso portfólio, caros gestores.

 

Desculpe insistir neste ponto, mas um levantamento da Anbima mostra que 62% do patrimônio investido por clientes do varejo está na poupança. No varejo alta renda – bandeiras como Prime, Personnalité, Van Gogh e Estilo – essa fatia cai para 11%, o que me deixa um pouco menos preocupada, mas não muito.

Sabe quanto rendeu a poupança nos últimos seis meses? 3,2%. E um fundo DI barato, com taxa 0,2% ao ano, que você acessa com 1 mil reais na corretora? Por volta de 4,4% – descontado o imposto, de 20% sobre o rendimento depois de seis meses, chegamos a 3,5%.

Ponto para o fundo DI! No longo prazo, a vantagem dele aumenta. E não me venha defender que a poupança é líquida. Se você pede o saque em menos de 30 dias, não ganha nada. O fundo DI rende todo dia. E o dinheiro também cai na sua conta no dia em que pedir o resgate.

Se você tem mais de 1 mil reais para investir, o que diabos você está fazendo na poupança ainda?

 

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