O ano em que os jornalistas saíram de férias

A história da Empiricus e uma análise do Alaska, fundo de Luiz Alves, um dos maiores investidores individuais da bolsa brasileira

O ano em que os jornalistas saíram de férias

De uma casa abandonada com direito à água até a canela em dias de chuva a uma laje no endereço mais nobre de São Paulo. Levada por jovens tão ousados quanto polêmicos, a Empiricus acaba de festejar sete anos da criação, no Brasil, de um segmento de mercado totalmente inexplorado. Em um país em que poupar não é um comportamento disseminado, quem pagaria por análise independente de ações?

Não foi fácil. Em uma fase que ficou conhecida na empresa como Mercado Livre, os sócios chegaram a vender os próprios computadores para pagar os funcionários, conta Caio Mesquita, hoje presidente da Empiricus.

Parte do sucesso veio com uma garota-propaganda às avessas: a presidente Dilma Rousseff. A recomendação de construir um portfólio à prova do fim do Brasil, embalada em um marketing focado no investidor de varejo, nunca visto no mercado financeiro, foi interpretada como propaganda política do oponente.

O processo da presidente foi rejeitado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas deu visibilidade aos acertos da equipe de análise. O documento cravava o dólar a 4 reais quando o mercado ainda o marcava a 2 reais.

“Um dia eles ainda vão errar”, disse um gestor de ações que preferiu não ser identificado. O estrategista-chefe, Felipe Miranda, não discorda. Ele insiste no Daily Pro, uma newsletter enviada aos 180.000 assinantes da casa religiosamente todas as manhãs, que nada sabe sobre o futuro. E costuma atribuir seus resultados à sorte.

A Carteira Empiricus, portfólio construído por Miranda, rende 61,97 por cento desde que foi criada, em março de 2014, até novembro deste ano, contra 39,15 por cento do CDI e 33,35 por cento do Ibovespa.

Na formação da equipe, hoje com 140 profissionais, difícil negar uma boa dose de sorte. Crescendo enquanto a maior parte do mercado encolhia, a Empiricus conseguiu atrair profissionais das mais conceituadas casas de análise do mercado, como Credit Suisse e Votorantim. E deu a eles liberdade. Neste ano, um deles intitulou sua coluna de “Fotos do peru do Obama”.

Toda a receita, que, segundo fontes, ultrapassa 200 milhões de reais ao ano, vem das assinaturas. A empresa não ganha com a compra e venda de ações, como as corretoras; não ganha com rebate, como os distribuidores de fundos.

O difícil foi encontrar modelo de negócio que sustentasse e viabilizasse a análise independente para o varejo – não é à toa que o restante do mercado se concentra em consultoria para clientes de alto patrimônio.

Daí veio o “marketing agressivo”, nas palavras dos críticos do modelo. A fim de alertar para a queda de retorno dos fundos DI como consequência do novo ciclo de juros, a casa disparou um e-mail em novembro com o título Nota de falecimento. A brincadeira de mau gosto gerou dez e-mails com críticas ferrenhas. Uma desejava a morte do analista. Na mesma semana, 1.400 investidores compraram o relatório que ensinava a diversificar os investimentos para além do CDI.

Enquanto no private banking, as críticas a produtos ruins são sussurradas, os analistas da Empiricus precisam gritá-las para serem ouvidos por pessoas físicas de diferentes níveis de patrimônio. E, isso, claro, expõe a equipe.

Para cada mil e-mails diários de investidores apaixonados, chega uma jura de morte de um gerente de banco, um corretor de imóveis ou um agente autônomo. “É preciso ter costas largas”, diz Miranda, que tem no currículo a mesa de derivativos do Deutsche Bank e uma cadeira de professor na Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Enquanto as críticas concentram-se no marketing, os relatórios robustos e as carteiras recomendadas rentáveis são respeitados no mercado e têm legiões de fiéis seguidores. A tal ponto que hoje a Empiricus discute internamente como lidar com as altas das ações ocasionadas pelo movimento de seus assinantes. No dia em que o analista Max Bohm recomendou Unicasa, a ação subiu 25 por cento. Os fluxos são externalidades positivas, que abrem as portas das empresas aos analistas de ações.

Como um adolescente, em que crescem primeiro os braços e depois o corpo, recentemente a empresa tomou como meta ter o melhor atendimento do mercado financeiro, sob as mãos fortes das sócias Beatriz Nantes e Olivia Alonso. Está aprimorando o treinamento dos atendentes. Outro dia almocei com um deles. Descobri que cresce na empresa o único telemarketing que sabe como montar estruturas em opções. Ops, escorreguei para a primeira pessoa…

Ufa, cansei de escrever este texto seguindo os moldes abandonados há seis meses. “Você tem certeza de que vai ser feliz aqui?”, me perguntou o Felipe em junho deste ano, dividido entre insistir para eu vir lançar o relatório de fundos e interromper uma carreira no que, sabia, era meu sonho. “Querido diário, resolvi ser jornalista”, escrevi em 30 de julho de 1996. Meu plano era escrever em um jornal de grande circulação. E assim se fez.

Felipe, o futuro é incognoscível – deveria ter respondido. Passei seis meses dizendo a ele que somente um desejo me faria querer voltar a ser repórter: escrever uma matéria sobre esse bicho tão diferente que é a Empiricus. Ele se cansou. Disse contrariado: “Faz, ué!”.

Escrevi um texto imparcial sobre a Empiricus? Claro que não. Olha que eu me esforcei, mas hoje eu faço parte. E, diga-se de passagem, estou muito feliz com isso. Não há fim de ano sem retrospectiva e amigo-oculto. Agora vamos à analise.

Digo Luiz Alves. O que vem à sua cabeça? Bolsa.

De fato, ele é um dos maiores investidores individuais em ações de empresas brasileiras. Sempre acompanhei com olhares curiosos o misterioso Poland, o fundo de um homem só que, desde a criação, em 2003, sacode, mas entrega 699 por cento de excesso de retorno sobre o Ibovespa.

Ah, mas fundo pequeno é fácil de manejar, diz você. Quero ver gerir milhões! E se eu disser a você que o Poland tem 1,2 bilhão de reais de patrimônio?

Este ano tive o prazer de conhecer o Luiz Alves, que nos procurou para contar uma história. Uma que eu já contei aqui: agora ele gere um fundo de ações aberto, o Alaska Black. E outra que eu ainda não comentei: ele não é um homem só de ações.

Como estereotipamos o que não conhecemos, não é mesmo? Luiz Alves era envolvido em um mito de rigor, alardeado obviamente por quem nunca conversou com ele. Confesso ter ido com medo para a primeira conversa. Mas o homem é uma simpatia, divertido e cheio das histórias.

Não vou resistir a contar uma delas: ainda na Hedging-Griffo, mandaram um cara novo para a área comandada por ele. Quem? Um tal de Luis Stuhlberger. E o homem era bom. Chegou já montando todas as operações possíveis da BM&F, conta Luiz Alves. “Já chegou com as tais das borboletas…”, diz, em referência a operações com derivativos, pouco usadas àquela época e que, para alguns, refletem a alma do fundo Verde, o mais reconhecido multimercado brasileiro: as proteções.

Imagine um fundo Verde com uma seleção de ações poderosa. É essa a meta do Alaska Range. Ambiciosa, não? Gostamos assim.

O fato é que o que vimos até aqui – o Poland – é apenas uma faceta do grande investidor brasileiro.

Luiz Alves mantém também um fundo no exterior, que, conta-se, é maior do que o fundo exclusivo brasileiro. Um passarinho me contou que os operadores de mesa do Chase, corretora por meio da qual Luiz opera bonds de empresas brasileiras negociados no exterior, batem palmas diante dos ganhos dele. Um deles bateu à porta de Luiz recentemente para lhe dar um abraço: ganhou muito dinheiro imitando o mestre.

E o desejo de compor um portfólio equilibrado, em que as posições em Bolsa casam-se com aquelas em juros e câmbio, foi um dos planos que uniu Luiz Alves a Henrique Bredda, seu sócio na Alaska, o engenheiro que já geriu fundos na Skipper e na VentureStar. Luiz levou com ele mais um gestor, Ney Miyamoto.

Bredda e Ney são os homens dos números e as cabeças macro. Luiz Alves, a experiência e a intuição. Não há caixinhas separadas de ativos. Todos palpitam em tudo. O histórico da equipe em ação conjunta é curto, porém tentador. O Black, de ações, entrega nada menos do que 126 por cento no ano. O Range, multimercados, 28 por cento.

Já assistiu Animal Planet? Odeio, confesso. Sabe aquela cena dos gnus fugindo em manada do leão? “Enquanto gnus comem grama pisoteada, a Alaska vai sempre atrás de grama verde”, diz Bredda.

Voltando da selva, enquanto os gestores investiam, neste ano, em Itaú, Renner e Cielo; Luiz Alves pesava a mão em Rumo, Magazine Luiza e Sanepar. E comemora a volatilidade recente como quem chega à feira no fim e aproveita a xepa.

No ano, de 25 a 30 por cento do resultado do multimercado vem de bolsa. Além disso, a Alaska faz arbitragem na curva de juros e opera câmbio. O plano é que o multimercado seja muito mais comportado do que o fundo de ações, mas mira volatilidade alta para o segmento, de 6 a 7 por cento.

A beleza da coisa é que, tanto no fundo de ações, com o caixa, quanto no multimercados, com mais liberdade, quando o leão atacar, a Alaska não terá mais um gnu só. Terá vários, em diferentes partes da selva. “Assim não vamos precisar devolver o dinheiro do cotista se acharmos que a Bolsa vai para o saco”, explica Henrique.

E, também fora da Bolsa, a Alaska é não convencional. Dificilmente teremos o “kit Brasil”, diz Henrique. Talvez por conta de sua grande e antiga posição em Comgás, Luiz Alves é tido como um grande adepto do buy and hold, jargão de mercado para comprar e carregar, mas a verdade é que ele gira bastante a carteira.

Agora, Luiz Alves mostra que o que sempre acompanhamos com olhares curiosos – o fundo Poland – era só uma de suas facetas.

“Por que inventar agora de gerir o dinheiro da pessoa física?” – o Felipe perguntou na nossa conversa com Luiz Alves. O movimento mais comum é o contrário, eu completei. O cara cuida de dinheiro da pessoa física, fica rico e depois resolve cuidar só do próprio e não se estressar mais em prestar contas. “Pra mim, primeiro você gere só o seu. Se for bem, aí pode gerir o dos outros”, respondeu.

Para fechar, enquanto o Alaska Black só recebe investidores qualificados, com mais de 1 milhão de reais em aplicações financeiras, o multimercado Range é pop: qualquer um pode entrar. Por enquanto está só na Easynvest, mas soube que em breve também estará na XP.

O Range está sob análise. Acompanhe o relatório!

Uma virada de verdade

E, assim, com o gestor que também escolheu o investidor pessoa física em 2016, encerro minha última conversa com você deste ano.

O Felipe me perguntou na segunda se estou feliz. Hoje meus textos alcançam 30 mil investidores, metade dos assinantes que meu jornal inteiro tinha. E o que temos não é uma relação imparcial, é uma conversa. Como não estar feliz?

Se tive medo da mudança? Claro. Houve quem dissesse que ninguém mais no mercado falaria comigo. Quer maior ameaça do que uma longa agenda de contatos, construída com suor por cinco anos, no lixo? Quase desisti.

Para minha surpresa, foi exatamente o contrário. Nunca tive tantas portas abertas. Não bastasse os contatos constantes com o Luiz Alves, o gestor mais avesso a holofotes de que tenho conhecimento, o livro Conversas com gestores de ações brasileiros é a maior prova disso. Todos ansiosos para falar com você, investidor, nossa maior força.

Em 2017, ouse!

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Um abraço,

Luciana Seabra.

 

Analistas responsáveis: Felipe Miranda, CNPI, e Walter Poladian, CFP®.

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