Olho na rua

Confira se há um muro em torno do seu portfólio

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Olho na rua

Dos 8 aos 22 anos, assisti à cidade da janela do carro. Quadra, entrequadra, quadra, entrequadra, bacia para baixo, bacia para cima, entrequadra, quadra, entrequadra… Os apartamentos das minhas amigas tinham a mesma planta do meu.

Não há dúvida de que a cidade planejada por Lucio Costa e Niemeyer é bela. Impecável. Niemeyer mesmo nunca morou lá. Preferiu o Rio de Janeiro.

Sou apaixonada por Brasília. Andei de patins no pilotis, joguei basquete no Vizinhança da 108, aprendi a lógica das tesourinhas e agulhinhas, fiz churrasco no parque da cidade – aquele em que se encontraram Eduardo e Mônica, ela de moto, ele de camelo, já que à pé seria bem difícil chegar lá.

Cadê as calçadas? Por onde andam as pessoas? Talvez elas estejam nas passarelas subterrâneas do Eixão. Eu sempre preferi correr o risco de ser atropelada em pleno corredor do avião a entrar naquele túnel sombrio.

Um dia vou morar nesta cidade – pensei logo na primeira vez em que me vi na 25 de março, no centro de São Paulo. Gente na rua. “Só não mata marido”, gritava uma mulher vendendo veneno de barata.

Estranha sensação de sentir-me segura em meio ao caos. Segura e feliz.

Hoje sinto falta da lógica das ruas numeradas e letradas? Sim. Sei onde fica a 704 norte, ainda que nunca tenha ido lá. E se você me convidar para um café na Rua Piratininga? Precisarei de um mapa.

Mas o fato é que Brasília, com seus traços tão retos, me parece hoje uma cidade murada, cercada de cidades satélites caóticas por todos os lados. O modelo não comportou o crescimento.

Todas as sinapses se deram quando vi o urbanismo de Le Corbusier, modernista como Niemeyer e Lucio Costa, taxado de frágil no livro de Nassim Taleb.

Do lado dos antifrágeis , em contrapartida, aparece Jane Jacobs, a ídola da minha urbanista preferida, Renata Seabra, no caso, minha irmã. A morte e a vida das grandes cidades sempre moraram na cabeceira dela.

Acordei minha irmã no domingo com esta revelação. De repente, nós duas, separadas por um monte de água por um mestrado que ela inventou de fazer em Londres, estávamos mais unidas do que nunca por uma afinidade intelectual.

Minha irmã é ativista antimuros. Quando a vizinhança começou a erguer paredões em volta das casas e a defender uma muralha em torno da região em que meus pais moram em Brasília, ela subiu no palanque.

Muros e condomínios são frágeis. Cercas baixas e bairros são antifrágeis.

Eyes upon the street”, ensina Jane Jacobs. Os edifícios devem ter olhos para as ruas. Se eles viram as costas para as calçadas, a cidade fica cega.

Um muro alto é sua proteção até que o perigo seja capaz de pulá-lo. Então a ameaça estará dentro de casa e o muro te deixará mais vulnerável, encarcerado com o perigo.

No lugar de muros, meus pais e vizinhos optaram por criar uma rede de segurança, em que se comunicam por mensagens de celular. Todos com olhos para a rua. A violência resultou em uma comunidade coesa, que aprende a não repetir as vulnerabilidades do outro e – por que não? – troca receitas, ferramentas e mudas.

Deu até matéria no jornal local. Se eu fosse um ladrão, evitaria a área – não queira conhecer minha mãe brava.

Olhos para as ruas. Não erga muros. Taleb não pensava na cidade, mas no seu portfólio. Por mais contraditório que possa parecer, ele ganha ao se expor ao risco.

Você tem todo o seu dinheiro em títulos públicos pós-fixados? Tem uma carteira robusta. Isso se considerarmos que problemas de sustentabilidade fiscal terão como contrapartida não calote, mas inflação, que estimula alta de juros. O que você ganha a mais com o caos, a inflação come.

Se você tem todo o seu dinheiro no fundo DI do banco, então tem um portfólio frágil. Você não sabe, mas ele pode ter até 50 por cento em crédito privado e em geral tem, para compensar as altas taxas. Você empresta dinheiro a várias empresas e nem sabe a capacidade de pagamento delas.

O crédito, especialmente no mercado pouco líquido brasileiro é a expressão máxima da fragilidade. O preço se forma na negociação e, se ela não existe, ele não reflete necessariamente a realidade. Hoje vale 1. Amanhã pode valer 0.

Você ergueu um muro. A falta de volatilidade te cega para o risco.

Se você tem uma carteira diversificada, com grande parte do patrimônio em ativos conservadores, e o restante em ações e moedas, com proteções para todos os cenários, então se expôs à volatilidade, derrubou os muros.

Você não está simplesmente protegido da volatilidade, você ganha com ela. Você virou os olhos para a rua. Você é antifrágil.

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Se você é um cliente Prime do Bradesco, é bem provável que deixe sua reserva de emergência no fundo Prime Plus DI. É um produto com aplicação inicial de 80 mil reais e taxa de administração de 0,7 por cento ao ano.Um total de 5,65 bilhões de reais, de 29.294 cotistas, estão investidos neste fundo.

Vamos ver no que esse fundo DI investe? Vejo aqui 22,62 por cento da carteira em títulos privados. E não são somente papéis de alta nota de crédito e liquidez. Tem AAA, mas também tem AA, A, BBB e BB.

Vejo aqui debêntures da Ultrapar, da Termopernambuco, da Transmissora Aliança de Energia Elétrica…

Bem, se o fundo está emprestando dinheiro para empresas e investindo em papéis de longo prazo, na certa vai me render mais do que o CDI, certo?

Errado. O Prime Plus rende nos últimos três anos 96,94 por cento do CDI.

É um fundo frágil . Rende pouco e, por trás do muro da baixa volatilidade, guarda risco de crédito.

Minha recomendação para sua reserva de emergência é um fundo robusto, recheado de títulos públicos, com taxa de 0,2 por cento ao ano. Ele é um belo complemento à estratégia antifrágil do Felipe.

Quanto esse fundo DI rende nos últimos três anos? 97,88 por cento do CDI. Como só investe em títulos públicos e tem taxa baixa, fica perto do referencial.

97,88 contra 96,94.

Minha pergunta é: por que você prefere o fundo frágil se, além de frágil, ele rende menos do que o robusto?

 

Quer um portfólio antifrágil?

Então você precisa conhecer a Carteira Empiricus.

Um abraço,
Luciana Seabra

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