Pode sofrer, só não pode vender

Alguns dos melhores gestores de ações contam como agem em um dia difícil de bolsa

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Pode sofrer,  só não pode vender

Passei duas horas da última sexta-feira, dia em que o Ibovespa caiu 3,7 por cento, com Dório Ferman. Ele é uma lenda – seleciona ações desde 1986 no Opportunity para um clube que virou um dos fundos mais conhecidos do País, o Lógica II.

O que eu tenho para lhe dizer é surpreendente: Dório é humano! Como eu e você.

Como você imagina o gestor, aos 71 anos, a maior parte deles dedicados à Bolsa brasileira, em um dia como esse? Enquanto o Ibovespa afunda, ele calmamente toma um suco de laranja?

Vou contar: o celular do Dório treme de meia em meia hora, quando uma mensagem programada mostra o desempenho do fundo que ele gere em comparação com dados de mercado. Ele dá um salto, pede desculpas, espia rapidamente e brinca que a visita da Empiricus é a única coisa boa do dia: “Bom conversar sobre o passado glorioso em um dia terrível”.

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À espera de uma resposta clichê sobre a tranquilidade de quem mira o longo prazo, pergunto se ser gestor é sofrido. “Muito. Você ganha quebrando pedra. E perde também quebrando pedra. É difícil. É uma luta. Não ache que é simples. Não, não é não”, responde Dório.

Bom ver o mito transformar-se em homem

A cena remete a Luis Stuhlberger, gestor do fundo Verde, em 2014. Enquanto o dólar insistia em não subir, contrariando todas as previsões do oráculo do câmbio, ele repetia em público com um olhar triste que estava apanhando com a tese “mais do que cachorro vira-lata”.

Olha, me desculpa, mas diante dessa imagem do Stuhlberger como vira-lata, o que sobra para nós, reles mortais? Pensando bem, talvez ele não seja humano, somente um deus humilde…

O fato é que foi o segundo em 20 anos de história em que o Verde perdeu para o CDI, mas foi por pouco. E a recompensa veio em 2015, com o retorno de 29 por cento.

Se me apego, sou teimoso; se vendo, sou ansioso

Se o investidor vende a ação ou resgata do fundo em um momento de pânico, e ela sobe depois, é acusado de visão de curto prazo. E caso se mantenha firme em sua posição e a ação siga em queda livre? Então é condenado pelo viés de aversão a risco. Difícil ser investidor.

A ideia de segurar por segurar a ação não é razoável, diz Dório. “Você tem de reavaliar se compraria essa posição naquela hora. Você fica com o papel enquanto acha que ele vale mais do que o preço que estão pagando”. Também parece simples.

A vez em que Dório sofreu menos, ele confessa, foi aquela em que não conseguiu vender as ações de um banco porque perdeu o malote (sim, as ações eram físicas). Quando encontrou, a ação tinha subido e seu patrimônio se multiplicado. Pena que não seja sempre assim.

A Oportunidade da Década na Renda Fixa

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Fazer o quê? Nada.

Fui na segunda-feira bater um papo com Leivi Abuleac e Sérgio Carettoni, sócios-fundadores da Gas, hoje as almas da renda variável na Vinci. Foram outras duas horas de muitos causos de bolsa, que ainda vou trazer a você. Por ora, quero me concentrar no curto prazo.

Leivi e Sérgio veem os riscos – principalmente eleição e alta dos juros americanos –, mas estão confiantes com o cenário doméstico. O governo “foi muito hábil em escolher essa tropa”, disse Leivi em referência à nova equipe econômica, ainda que tenha ciência de que a vida não será uma festa.

O que Leivi e Sérgio fizeram com suas posições diante da queda de três por cento da bolsa na sexta? NADA! Pararam, estudaram as posições, reforçaram as teses e ficaram quietos.

O segredo para se ter sucesso na renda variável parece ser, assim, separar o que é medo do que é entendimento de que os fundamentos realmente mudaram. A empresa deixou de ser boa? O gestor deixou de comparecer?

Como tirar de quem não tem?

A dupla da Vinci e também o Flávio Sznajder, sócio-fundador da Bogari, lembram que muitos fundos de pensão locais e gestores de fundos estrangeiros ainda estão leves na Bolsa brasileira, abaixo da média histórica.

Sabe quanto do patrimônio investido em fundos brasileiros está em carteiras de ações? Somente 5 por cento. Sabe qual era esse percentual há seis anos? Onze por cento. É o nível mais baixo desde 1996.

Conclusão: não é que haja um caminhão de dinheiro para fugir do risco no Brasil. “Na hora que esse negócio der uma ajeitada, vai chover dinheiro. Porque hoje não existe retorno em nenhum lugar”, diz Flávio.

O gestor da Bogari lembra que a base baixa de crescimento brasileiro pode ajudar agora. A capacidade instalada está aí. No momento, Flávio investe principalmente em bancos, energia elétrica – como Eletrobras e Energisa – e varejo, com destaque para Guararapes.

A recomendação do Flávio sobre as cotações recentes? “Tem de esquecer, não pode ficar olhando”.

Disseram que eu voltei americanizada…

Gente, mas como incomodam esses juros americanos, não? Todo mundo pensa igual: vai subir alguma hora, mas vai ser devagar para não frear a economia dos Estados Unidos. Aí dizem lá fora que vai subir e todos se descabelam? Jura?

De fato, como bem apontou a equipe do Opportunity, os investidores se posicionaram para tomar risco com base em um cenário de que os bancos centrais vão atuar infinitamente no sentido da expansão monetária. E, de uns dias para cá, começou a parecer que a fonte infinita de dinheiro pode ter fim.

André Ribeiro, gestor do fundo de ações da Brasil Capital, também enxerga os riscos. Afirma que está mais cauteloso no curto prazo, que se preocupa com China e eleição americana e, internamente, que a reforma da previdência e o teto dos gastos ainda podem sofrer dificuldade de aprovação na Câmara.

O gestor da Brasil Capital vê alguma realização no curto prazo por causa disso tudo, mas, como os demais, prevê uma rota positiva, ainda que não linear, para ações bem escolhidas nos próximos 12 a 18 meses.

O juro não ia cair?

Não somente de bolsa foi feito o sofrimento dos últimos dias. A renda fixa também passou por um estresse, com as expectativas para os juros ajustando-se para cima.

E aquela história que vocês, da Empiricus, contaram, de que o juro vai cair e que por isso é hora de se posicionar em prefixados e indexados à inflação?

Mais válida do que nunca!

Se você tem um bom fundo multimercado, provavelmente vai ver que ele sofreu nos últimos dias. A posição em queda dos juros é a maior nos melhores portfólios, sem exceção. Inclusive gestoras de ex-BCs estão nessa, como a Ibiuna.

A queda dos juros é a maior certeza dos bons gestores desde a valorização do dólar contra o real, que tanto fez sofrer o Stuhlberger (que é o fã número um das NTN-Bs há tempos, diga-se de passagem).

O que eu digo é: um excelente gestor de multimercados, porém discreto, reagiu à minha pergunta sobre o estresse da semana com a resposta de que tão somente se aproveitou do momento para comprar mais títulos prefixados.

Resumo: não é hora de fugir do risco.

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A semana começou com uma bomba no mercado de fundos. O Galileo, um dos multimercados de melhor histórico da indústria brasileira, perdeu mais uma peça importante: o Nicholas McCarthy. Ele trocou a gestão do Safra pelo private banking do Itaú.

Em outubro do ano passado, o Safra já tinha perdido o principal nome da gestão do Galileo – Márcio Appel deixou o banco para seguir carreira solo, com a Adam Capital.

O Galileo fecha para novos investidores esta semana, de forma que muito provavelmente você não vai mais conseguir entrar. Acontece que muitos de vocês já me contaram que investem no fundo, que ultrapassa 10 bilhões de reais de patrimônio. Por isso investiguei o tema ao limite nesta semana.

O fato é que são duas perdas importante em um ano. E os fundos são feitos de pessoas. Resta, entretanto, um homem forte lá dentro: Fabiano Godoi, o diretor de investimentos, que criou o Galileo junto com o Appel e que, desde a saída dele, acumula também a função de CEO.

Com a função executiva, sobra tempo para colocar a mão na massa? Pessoas próximas dizem que sim, que o Fabiano ainda senta na mesa de operações e participa intensamente do dia a dia da gestão. E que todas as decisões são colegiadas e os processos institucionalizados.

A gestora também reforçou a equipe recentemente, pelo que apurei. Passou de dois a quatro economistas e contratou um ex-tesoureiro do BTG.

Há quem no mercado diga que o fundo já não é o mesmo, que o padrão de volatilidade mudou – ou seja, que o Galileo está correndo menos risco, o que deve implicar menos retorno. A volatilidade caiu um pouco, de fato. Por sua vez, os defensores do fundo lembram que a volatilidade perdeu tônus nos mercados globais e que o fundo somente refletiu isso.

Então vamos fazer assim? Há um problema. A saída do Nicholas tem menos peso do que a do Appel, mas é a segunda consecutiva e o mérito de uma equipe que trabalha junta há muito tempo é incontestável. O próprio Safra sempre se gabou disso.

Por ora, entretanto, dada a qualidade do Fabiano, e os processos deixados pelo excelente Appel, optamos por manter o fundo dentre os recomendados. O momento exige sim um cuidado e, por isso acendemos uma luz amarela. Do meu lado, vou observar o desempenho com duas lupas.

Como o Safra tem quase a totalidade dos cotistas sob suas asas, praticamente sem distribuidores externos, isso deve evitar um resgate expressivo. Com a saída do Appel, o patrimônio deu apenas um soluço e logo se recuperou.

Algo mais passa pela minha cabeça: acho um desperdício o Nicholas no private banking do Itaú… Por que não colocam o moço para gerir um multimercado decente no banco feito para nós?

Beba um milk-shake

Por fim, se você escolheu bem suas ações e títulos ou seu fundo e não colocou em risco uma parcela do patrimônio que deveria ser alocada de forma conservadora, respire, sente na mão, como diria o Felipe (ele anda cabisbaixo desde sexta. Sofre, mas continua firme nas posições).

E tome um milk-shake crocante. O Alexandre Mastrocinque, nosso mais novo analista de fundos imobiliários (muito bom, diga-se de passagem), veio com um papo de que não pode mais chamar o clássico do Bob’s de Ovomaltine. O contrato de exclusividade para uso do nome acabou. Agora a pedida é um milk-shake crocante.

Como sabemos, porém, que o fundamento persiste – a bebida segue feita com o mesmo insumo – nós seguimos comprando. E você?

Um aviso final: na próxima terça-feira fica pronto o relatório com os melhores fundos de previdência do país. A julgar pela qualidade dos produtos no mercado, muito provavelmente o que você tem é pior do que os recomendados. Se não assinou ainda o relatório de fundos, clique aqui.

Ficou com dúvida? Escreva para mim: fundos@empiricus.com.br.

 

 

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Um abraço,
Luciana Seabra

 

Analistas responsáveis: Felipe Miranda, CNPI, e Walter Poladian, CFP®.

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