Por que Buffett não ganharia tão facilmente a aposta no Brasil

Simulamos a mesma disputa que acontece nos Estados Unidos para gestores ativos brasileiros versus o Ibovespa. Veja quem ganhou.

Por que Buffett não ganharia tão facilmente a aposta no Brasil

Em dezembro sairá um vencedor da aposta que o megainvestidor Warren Buffett fez com Ted Seides, um alocador de fundos ativos. Buffett apostou 500 mil dólares que nenhum gestor profissional seria capaz de selecionar fundos que batessem nos dez anos seguintes (de 2007 a 2016), pós-custos, o índice de mercado.

Seides, um alocador da Protégé Partners, escolheu cinco fundos de fundos, recheados de cem gestores ativos em Bolsa, para serem comparados a um fundo da Vanguard de baixíssimo custo que compra todas as ações que compõem o S&P500, índice da Bolsa americana.

Estamos no último ano da aposta e Buffett já canta vitória. Com razão. De 2007 a 2016, os fundos de fundos renderam entre 2,9 por cento e 62,8 por cento. O fundo passivo escolhido pelo megainvestidor acumula 85,4 por cento de ganho.

A gestão ativa sofreu uma dura derrota nos Estados Unidos. Fato.

Ao transpor esse resultado para o Brasil, a decisão deveria ser esquecer a seleção de fundos de ações e investir no ETF do Ibovespa, fundo que compra todas as ações do índice e é negociado em Bolsa.

Mas será que Buffett ganharia a aposta no Brasil? Tenho motivos para acreditar que não.

Fiz o mesmo estudo para o mercado brasileiro. Dos 92 fundos de ações livres brasileiros ativos de 2007 a 2016, são 66 os que superaram o Ibovespa.

Ou seja, 72 por cento dos fundos ativos bateram o índice no período. E mais: um terço dos fundos excedeu o Ibovespa em mais de 100 pontos percentuais.

Você pode alegar que houve um viés de sobrevivência. Ao considerar apenas os fundos que têm histórico para todo o período, não conto os que morreram no meio do caminho, que deveriam ter um retorno pior.

Fiz outro estudo. Considerei todos os fundos que estavam disponíveis para um alocador montar a carteira no primeiro dia de 2007 com pelo menos um ano de histórico. Eram 120, incluindo os que se tornaram inativos na década seguinte.

Suponhamos que os 28 fundos que morreram no meio do caminho tenham perdido para o Ibovespa, o que não é necessariamente verdade. Ainda assim, 55 por cento dos fundos ativos teriam batido o Ibovespa.

Se você acreditar que um alocador será no mínimo capaz de identificar os fundos de ações que não vão morrer no meio do caminho, pode ficar com o percentual de 72 por cento que superaram o Ibovespa.

Você há de admitir que, no mínimo, Buffett não ganharia a aposta com tanta facilidade no Brasil. Ou seja, do lado de cá, gestores ativos de ações, que não replicam o índice, têm sido capazes de superar o referencial.

Nossos gestores são melhores do que os do tio Trump?

Os motivos para a maior parte dos gestores que não se apegam ao Ibovespa terem batido o índice na última década são assunto para outro dia, mas uma das hipóteses principais é que o oponente era fraco.

O Ibovespa foi por boa parte da década da aposta de Buffett fácil de bater. O índice tinha muitas falhas, como o crescimento em peso das ações muito negociadas. Isso levava empresas como a OGX a ganhar espaço em fundos indexados enquanto sofria fortes prejuízos.

A metodologia do Ibovespa foi alterada em 2014, tornando o índice melhor. Ele segue muito concentrado em poucas ações – o peso somado de Itaú, Vale, Bradesco, Petrobras e Ambev chega a 50% – mas está melhor.

Por muito tempo, o peso de Petrobras e Vale foi ainda maior. As empresas tiveram um longo período ruim e foram evitadas pelos gestores ativos, seja por risco político seja por exposição a fatores externos, como preço do minério.

Se essa for a verdade, a gestão ativa até pode ter batido o Ibovespa na última década, mas não é possível induzir o que acontecerá na próxima.

Outra explicação possível é que a Bolsa brasileira seja menos eficiente do que a americana. Aqui as informações não circulam com tanta isonomia ou não se refletem com tanta velocidade nos preços e quem se move primeiro ganha.

O fato é que, com as informações que tenho até o momento, acredito na capacidade de gestores bem escolhidos, por critérios quantitativos e qualitativos, de selecionar ações na Bolsa brasileira.

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Se Buffett fosse brasileiro, ele talvez somasse uma gestora de ações aos seus negócios. No período da aposta, 2007 até 2016, a gestora de melhor desempenho foi a Dynamo.

O fundo mais rentável da casa entregou 289,67 pontos percentuais acima do Ibovespa. Infelizmente os produtos da gestora carioca não recebem mais cotistas e não há previsão para tal. Mas você pode ler uma entrevista com os gestores no livro Conversas com Gestores de Ações.

O levantamento foi feito no Quantum Axis, que recolhe as informações registradas na CVM, o órgão regulador brasileiro, considerando fundos classificados como Ações Livre, ou seja, que não se comprometem a seguir o índice.

 

Fique atento aos fundos indexados brasileiros. Eles nem sempre são baratos como o combatente escolhido por Buffett.

Aliás, há alguns absurdos dente os fundos indexados ao Ibovespa.
Destaco aqui três deles, com suas respectivas taxas de administração:

– Caixa Ibovespa FI Ações: 4 por cento ao ano

– Bradesco Indexado Ibovespa FIC Ações: 3,5 por cento ao ano

– Santander Índice Bovespa FIC Ações: 3 por cento ao ano

– Itaú Índice Ibovespa FIC Ações: 2,5 por cento ao ano

São fundos que cobram, para replicar o Ibovespa, mais do que é praticado em geral pelos gestores de ações ativos independentes, 2 por cento ao ano, caso inclusive da Dynamo, nosso Cota Cheia.

Buffett precisaria de cautela ao escolher seu soldado em terras tupiniquins.

 

Quer uma ajuda para escolher um bom fundo de ações? Aqui.

Um abraço,
Luciana.

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