Vou chegar mais cedo

Ser a última a chegar à festa não somente não é recompensado como também pode ser bastante nocivo nesse universo.

Vou chegar mais cedo

Algumas pessoas são sempre as últimas a chegar. “Eu não me estresso, mas tudo dá sempre certo para mim”, dizem. Confesso uma ponta de inveja quando a moça de cabelos molhados chega às vésperas do voo e passa à minha frente naquela longa fila de despacho de bagagem. Aeroporto é um universo em que a pontualidade britânica definitivamente não é recompensada.

Minha pequena vingança (feio, eu sei) é pensar que a moça de cabelos ainda molhados dificilmente se dá bem no mundo dos investimentos. Ser a última a chegar à festa não somente não é recompensado como também pode ser bastante nocivo nesse universo.

Três pesquisadores, Arnott, Kalesnik e Wu, acabaram de publicar a análise de uma estratégia muito comum entre investidores: chegar a um fundo atrasado, depois de um recente período excepcional, ou pular fora após uma fase de prejuízo. O nome do artigo: “A insensatez de contratar vencedores e demitir perdedores”.

Montar um portfólio em que você tem como regra colocar para dentro os fundos de maior retorno nos últimos três anos e expulsar os de pior ganho no mesmo período leva a perdas, concluíram os pesquisadores. E recomendaram: os investidores deveriam urgentemente parar de confiar tão fortemente no desempenho passado na hora de escolher investimentos.

Não há dúvida de que alguns dos gestores que se destacaram recentemente são habilidosos, mas frequentemente foram beneficiados pela sorte, escrevem Arnott, Kalesnik e Wu no artigo da Research Affiliates, empresa especializada em pesquisa ligada à gestão de ativos.

Ao chegar a eles só no fim da festa, você tende a encontrar ativos e estratégias em seu auge, enquanto, por outro lado, deixa para trás estilos de gestão e ativos baratos, posicionados para a próxima rodada de sucesso.

O estudo mostrou que o grupo de ganhadores recentes tem desempenho inferior ao de perdedores recentes de, em média, 1,1 ponto percentual por ano.

Qual é o remédio então? Os pesquisadores encontraram maior eficiência em uma estratégia de avaliar as perspectivas futuras de retorno a partir do preço a que os ativos chegaram.

Aplicando ao nosso mundinho, com o juro brasileiro hoje em patamar mais baixo, por exemplo, claramente há menos espaço para estratégias que ganham com a queda dele do que houve nos últimos três anos. Leia-se: fundos recheados de títulos prefixados, o que inclui multimercados macro.

Outro caminho apontado por Arnott, Kalesnik e Wu como mais eficientes do que observar o retorno dos últimos três anos é ficar de olho nos custos do fundo e na habilidade da equipe de gestão em selecionar ativos de diferentes estilos.

Enquanto nos últimos três anos a capacidade de montar estratégias em juros e interpretar os movimentos do Banco Central foi o maior trunfo de um gestor de multimercados, por exemplo, para o futuro brilha mais aos meus olhos um gestor que sabe também operar a Bolsa brasileira.

Não estamos sugerindo que o desempenho passado é irrelevante, escrevem os pesquisadores, mas somente que é um previsor terrível dos resultados futuros.

Diante da minha bola de cristal pouco polida, eu humildemente acrescentaria uma receita casamenteira ao receituário do trio de pesquisadores: montar um portfólio de gestores capazes, com interesses alinhados (ou seja, dinheiro próprio no fundo) e investir neles na alegria e na tristeza, até que o fechamento do fundo nos separe.

O receituário dos pesquisadores tem a ver com avaliar não se os fundos foram bem ou mal nos últimos anos, mas sim se os ativos que os recheiam parecem caros ou baratos.

Façamos então um exercício totalmente contraintuitivo e vejamos quem são gestores com belo histórico que tiveram retornos ruins no passado recente, com uma tese que não andou.

No círculo dos multimercados, dois saltam aos meus olhos: Luis Stuhlberger, do renomado fundo Verde, e Arminio Fraga, da Gávea. Os dois têm ficado bastante para trás com suas teses pessimistas para a situação fiscal brasileira e para a economia chinesa.

No ano, até agosto, o Gávea Macro rendeu 1,66% e o Verde, 4,56%, muito atrás dos 7,34% do CDI.
O que o trio de pesquisadores diria sobre isso? Se um gestor teve mau desempenho e os ativos em que investe estão em um patamar excepcionalmente barato, os investidores deveriam considerar seriamente promovê-lo em vez de demiti-lo.

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Acredito que eu poderia replicar a pesquisa acima investindo sempre no fundo que mais aparece na minha caixa de e-mails, seguido da pergunta: por que você não recomenda esse fundo, Luciana?

O tipo que mais tem aparecido na sequência dessa pergunta, no momento, é o prefixado, também chamado com o inofensivo nome de fundo de renda fixa.

Esse fundos, recheados de títulos prefixados, tiveram retorno excepcional nos últimos três anos por causa dos cortes na meta para a Selic pelo Banco Central (e no ajuste das expectativas do mercado para tal).

Pois bem, agora que a meta para os juros básicos está em 8,25% e o mercado já põe nos preços uma taxa em um patamar ainda mais baixo, parece-me claramente que temos nesse tipo de fundo um vencedor.

Quer ajuda dos universitários? Se um gestor tiver mostrado um desempenho brilhante e seus ativos estiverem em níveis recordes em relação ao mercado, seria defensável que os investidores resgatassem, não que investissem mais, segundo a pesquisa.

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