O que eu quero é pimenta

"No Brasil, esses fundos ainda são restritos a investidores qualificados, aqueles que têm mais de 1 milhão de reais em investimentos financeiros. Entenda o motivo."

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O que eu quero é pimenta

Um amigo diz que um dia vai abrir uma boate chamada Private Equity. Acho um bom nome. Só espero que não tenhamos que esperar até lá para que o termo caia na boca do povo. Burger King, Casa do Pão de Queijo, Equatorial… Conhece? Todas elas estão ou já estiveram dentro de um private equity um dia. Não da boate, do fundo.

O nome é pomposo – e sexy, aos olhos do meu amigo – mas o conceito é simples. O fundo de private equity compra principalmente empresas que ainda não são negociadas em Bolsa. O gestor descobre as companhias em uma fase anterior àquela em que são listadas e ajuda a organizar a gestão e a acelerar o crescimento. Mais risco do que as empresas listadas em Bolsa? Sim. Mas também muito mais potencial de retorno.

Agora vem a má notícia: esse é um clube fechado, primeiramente pela regulação. Aqui não basta provar que tem mais de 18 anos. É só para quem tem mais de 1 milhão de reais em investimentos financeiros, ou seja, qualificado.

Mas a realidade é ainda mais restritiva. Ainda que você tenha esse porte, dificilmente terá acesso a um convite. E aí, desculpem-me os gestores, mas a culpa é de vocês. Esses fundos têm em geral tíquetes de entrada altos, e nunca vi nenhum deles nas plataformas de varejo.

Na verdade, quando vejo a oferta de fundos para investidor estrangeiro – ou mesmo para o brasileiro de alto patrimônio – fico triste. O cardápio do varejo me parece ter um único prato: arroz com feijão. Eu quero carne, salada, batata frita e, claro, uma pimentinha, como uma boa mineira.

Veja David Swensen, provavelmente o alocador em fundos mais famoso do mundo. Ele diversifica o dinheiro da Universidade de Yale – com incrível retorno e consistência – no que chama de oito classes:

– Ações de empresas americanas;
– Títulos da dívida pública dos EUA;
– Bolsas de países desenvolvidos;
– Ações de emergentes;
– Retorno absoluto;
Private equity;
– Ativos reais;
– Dinheiro.

Veja a lista acima e diga em quantas dessas classes você investe. Se você vai além de ações de emergentes, dinheiro e ativos reais – pode colocar aquele fundo imobiliário aqui – já fico muito feliz.

Mas isso aqui não é um mimimi. Quero contar a você que um patamar de juros mais baixos – quem ia querer competir com o CDI? – vai abrir caminho para a oferta de outras classes no varejo.

Já comecei a ouvir discussões sobre private equity no varejo, retorno absoluto – aquele que não se apega a índice nenhum – e fundos globais de alto nível em novos esforços para chegar ao investidor.

O novo pode exigir mais paciência – dificilmente você aguentaria mais de uma noite na Private Equity do meu amigo, mas precisará estar disposto a deixar o dinheiro investido por até dez anos se quiser ser o sofisticado cotista de um fundo de private equity. Afinal, um gestor não vende uma empresa fechada na mesma velocidade em que negocia ações em Bolsa.

Agora imagine que o tal private equity invista somente em empresas fechadas que têm algum impacto social. Como assim? Vamos supor que uma das companhias em que ele investe tenha descoberto uma forma barata e eficiente de levar saneamento a comunidades de baixa renda. E que outra tenha criado um jogo online que prepara estudantes de escolas públicas para passar no Enem.

Não estou falando de caridade, atenção. Mas de empresas que ganham dinheiro gerando impacto social. Agora demos um passo além na direção do futuro. Fundos de impacto são a última palavra em investimentos no mundo desenvolvido. Aqui, eles engatinham; no mundo, já são o destino de cerca de 50 bilhões de dólares.

Vi o futuro se desenhar na minha frente esses dias ao receber, aqui na Empiricus, Alexandre Azevedo, chefe da área de investimentos em impacto social da Quest. A gestora é a primeira brasileira a criar um segmento dedicado a esse tipo de produto.

O primeiro fundo a sair do forno da AZ Quest, há pouco mais de um ano, ainda não é um private equity de impacto. Temos esperança de que, aos poucos e com uma ajuda da regulação, chegaremos lá – até hoje, esses fundos estão em geral restritos a investidores profissionais (com mais de 10 milhões em patrimônio financeiro) e esse mercado não chega a 1 bilhão de reais.

Mas o primeiro passo foi dado. E há mérito nisso. A Quest criou um fundo que reúne diferentes estratégias da casa – como em crédito privado e multimercados – e destina 30% da sua taxa de administração a aceleradoras de impacto, ou seja, empresas que assessoram empreendedores na criação de negócios do tipo.

O fundo, AZ Quest Azimut Impacto, tem taxa de 1% ao ano e não cobra performance. A aplicação inicial é baixa, de 1 mil reais.

O mais legal é que a Quest criou um conselho consultivo de peso para, por meio de reuniões trimestrais, escolher o destino da parcela doada da taxa de administração. Faz parte da equipe, por exemplo, o presidente da Vox, pioneira no mercado de impacto brasileiro, infelizmente acessível até agora somente a grandes bolsos.

Para você ter uma ideia, uma parte da receita já foi doada para a Gerando Falcões, uma empresa que cria projetos culturais para jovens da periferia. O fundador, Eduardo Lyra, foi eleito pela Forbes um dos 30 jovens com menos de 30 anos capazes de mudar o mundo (uau, hein?).

Vejo o futuro ali na esquina. E ele se parece mais com uma bela feijoada do que com um prato de arroz com feijão.

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Aberto a novas experiências?

 Os gestores têm me perguntado e eu repasso a bola: o investidor está disposto a deixar o dinheiro conosco por até dez anos se o retorno compensar? Ou seja: se ele te prometer que vai fazer tudo para garantir uma boa festa, você se compromete a ficar até o fim? Quanto dinheiro você estaria disposto a investir em um fundo de private equity? Conte para mim no fundos@empiricus.com.br

Adoraria mostrar ao mercado que nós também sabemos apreciar uma boa pimenta.

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