Procuram-se gênios

Desempenho dos multimercados desde a quinta-feira fatídica deixa três lições para o investidor.

Compartilhe:
Enviar link para o meu e-mail
Procuram-se gênios

Conversei com ao menos 30 gestores renomados de fundos nas últimas 168 horas. Matemáticos, engenheiros, PhDs, ex-diretores do Banco Central, os primeiros da classe – gestores de bilhões de reais.

Ninguém esperava. Ninguém sabe.

Em momentos de pânico, como o da última quinta-feira, não há gênios. Quem estava mais otimista perdeu mais. Quem estava mais pessimista perdeu menos (isso para não entrar no debate da informação privilegiada, que já está nas mãos da CVM).

A seleção abaixo, de quatro dos meus gestores de multimercados preferidos, bastante aderentes ao mandato, reforça meu ponto.

Agora ordene a tabela pelo retorno no ano. Os últimos serão os primeiros. Quem ganha muito está exposto a perdas maiores. Não tem mágica.

É claro que um dia ou cinco meses não dizem nada de definitivo sobre os fundos acima. Luis Stuhlberger, do Verde, segue como o melhor gestor brasileiro de todos os tempos. E Márcio Appel continua fazendo inveja à frente do Adam Macro – em 12 meses rende admiráveis 166,7 por cento do CDI.

Meu ponto aqui é outro: houve uma cambalhota no cenário. Quem se virou melhor em meio a ela? Ninguém.

Quem estava posicionado grande perdeu mais. Tinha, porém, mais retorno acumulado. Quem estava pequeno perdeu menos. Tinha, entretanto, menos gordura para gastar.

Vejo três lições para nós, investidores, em meio a esse caos.

 

A primeira lição: para ser quem muito ganha, você tem que estar disposto a perder mais. Não conheço quem corra risco e ganhe sempre.

A segunda: em meio a chuva de canivetes, não há gênios. Não tente você ser um. O desempenho de seu portfólio de quinta-feira para cá estava definido ex-ante. Tentar explorar oportunidades em meio a um cenário tão nebuloso é atribuir a si uma genialidade irreal.

Não há diploma que te salve em meio ao caos. Desde quinta somos todos simplesmente humanos. As horas-biblioteca pouco servem e passa a pesar o que você aprendeu naquele dia em que foi pego matando aula: controle de ansiedade, confiança, disciplina.

Bom ponderar apenas que a discrepância qualitativa entre gestores, que pouco se revelou no pânico, vai fazer diferença agora. Como diriam os tios lá de Minas: “agora é que a gente vai ver quem é bão mesmo”.

Se você perdeu mais do que suporta nos últimos dias, seu portfólio não está ajustado ao seu perfil de risco. É hora de revisitar sua alocação. E aí vem a terceira lição, repetida aqui à exaustão:

POR QUE DIABOS VOCÊ NÃO PROTEGEU O PORTFÓLIO?

Sob pena de ser a chata do “avisamos”, sabe qual foi o retorno de um fundo cambial, no qual recomendamos ter sempre uma parcela de seu dinheiro, na quinta-feira? 6,72 por cento. Seria um bom contraponto aos seus multimercados, não?

O Stuhlberger é o maior gestor brasileiro de todos os tempos justamente porque ele compreendeu que não há grandes gênios. O medo é a arma dele para manter um fundo tão consistente.

Eles não sabem. Você não sabe. Eu não sei.

E a arma contra toda essa nossa ignorância é precaver-se. Algo que você já deveria ter aprendido na adolescência, naquela aula constrangedora de Biologia: quando o risco é alto, não confie a outro a proteção. Faça a sua.

Juros, juros, juros

Muitos fundos bateram seus limites de risco desde a quinta-feira e foram obrigados a reduzir posições. À medida que as nuvens começam a se dispersar, sobra apenas uma perna do tripé Brasil que reinava nas carteiras: os juros.

Saiu real, saiu Bolsa direcional, terra ainda inexplorada por grande parte dos multimercados, e os juros prefixados seguiram como a posição mais consensual.

A não ser pela contratação de um ou outro perito de gravações, a taxa de desemprego não diminuiu. Ainda que o dólar tenha subido, qual será seu efeito sobre a inflação? Posso apostar que aquela caixa de som à prova d’água não passou pela sua cabeça nos últimos dias. Diante disso, a probabilidade de o Banco Central ter que seguir reduzindo juros para estimular a economia não é maior do que a de que eleve?

“Talvez juros voltem a fazer mais sentido”, disse para mim o André Salgado, sócio da Adam Capital, que manteve os juros longos prefixados, apenas reforçando as proteções.

Na Ibiuna, os ex-diretores do Banco Central, Mário Torós e Rodrigo Azevedo, mantiveram as posições com vencimento em 2017 e 2018. E na Kapitalo, agora mais tática, o gestor Carlos Woelz está menor, mas ainda posicionado, para 2018.

Está gostando desse artigo?Insira seu e-mail e comece já a receber nossos conteúdos gratuitos

“Gostaria da sua ajuda para entender se os rumores da saída de gestores importantes do fundo ARX Extra FIM são verídicos e se a melhor estratégia seria repensar essa carteira ou aguardar alguns dias para avaliar possíveis novos gestores que possam assumir esse fundo”. Eduardo V.

Não são somente rumores, Eduardo. De fato, a gestora carioca ARX Investimentos, comprada pelo banco BNY Mellon em 2001, perdeu toda a equipe de frente, em uma forte debandada para criação de uma nova gestora: a Truxt.Soube, em uma versão não confirmada pelos dois lados, que, encerrado o acordo de não competição, a equipe de gestores queria criar uma nova casa. O BNY Mellon teria uma fatia, nos moldes de Credit Suisse Hedging-Griffo (CSHG) e Verde. O acordo, entretanto, não chegou a ser selado.

Em meio à revoada de gestores e pedidos de saque, o BNY Mellon contratou um novo gestor, Roberto Benisti, que começou no Banco Garantia e fundou a própria gestora, Kyros. A casa até tinha a admiração dos alocadores, mas acabou fechando as portas no começo deste ano, sem um desempenho brilhante.

Nenhum fundo da ARX tinha sido aprovado em nossas análises quantitativa e qualitativa até aqui. E não será tão cedo. Montar uma equipe do zero e azeitá-la não é trivial. Prefiro assistir de fora.Vemos com bons olhos a Truxt, nova gestora de Alberto Tovar e Bruno Garcia. Rafael Vasconcellos, que tinha se somado à equipe há poucos meses para gerir os multimercados em companhia de Mariana Dreux, também seguiu para a nova gestora, com um excelente histórico pregresso no Opportunity na bagagem.Vamos nos sentar com a nova equipe e avaliar os produtos nascentes. Aguarde novidades aqui.

 

Por fim, respire

Para você, investidor de fundos, uma boa notícia: os últimos dias foram melhores e os gestores já se recuperaram das perdas. Com nuvens negras, entretanto, a volatilidade tende a ser intensa. Esteja preparado.

Um abraço,
Luciana.

Links Recomendados

:. Cisne Negro

:. Seis pontos para destruir o Brasil

:. Seguro Contra Catástrofe Financeira

Conteúdo recomendado