Quem mexeu na minha Fielder?

Uma ameaça está a caminho nos fundos que investem em crédito privado

Quem mexeu na minha Fielder?

Eu tenho uma Fielder 2008. E, antes que você pergunte, não quero vendê-la ou trocá-la. No máximo, ofereço uma carona. Assisto ao rito de passagem do meu possante da alcunha de “velho” a “antigo” repetindo não às propostas. “Esse carro é muito grande pra você, menina”, ouvi dia desses, seguido por: “Você não quer vender pra mim?”.

Em um dia de rebeldia cedi aos apelos da minha irmã – para quem o carro não condiz com minha idade – e estacionei a pobre da Fielder (de ré, para ter certeza de que ela não assistiria à ameaça de traição) em frente à concessionária. Perguntei o preço do modelo mais jovem da mesma marca. Fui demovida pelo próprio vendedor: “Não faça isso, você não vai ser feliz”.

Abri a porta envergonhada com meu feito e, naquele dia, dei à minha companheira de aventuras uma lavagem completa.

De Brasília a São Paulo e daqui ao Uruguai, a Fielder nunca me deixou na mão. Nunca até o dia em que resolveram dar álcool pra coitada beber.

Meu sentimento ao receber a notícia do combustível adulterado, depois de ter ficado parada no meio da rua (em um dia de chuva, como não poderia ser diferente) foi de profunda vulnerabilidade. Como eu poderia adivinhar que um posto em uma importante avenida da cidade, com bandeira reconhecida, trairia minha confiança dessa forma?

Álcool na gasolina, óleo no azeite, farinha no brigadeiro. É uma prática desleal manjada: reduzir a qualidade e manter o preço.

O que me preocupa é que uma ameaça similar esteja a caminho nos fundos que investem em crédito privado. Aqui, o álcool que corrói a qualidade em silêncio dá lugar ao título de dívida de qualidade inferior, ou seja, com maior probabilidade de inadimplência.

A brincadeira começa com os juros básicos em queda. Para conservar bons retornos, os gestores de fundos conservadores de renda fixa têm dois caminhos: reduzir a taxa de administração ou aumentar o investimento em títulos de dívida. Lamento dizer que não vejo a primeira opção com frequência.

Na feira do crédito, o excesso de demanda leva a prêmios espremidos. Um gestor de crédito me disse esses dias que, há um ano e meio, encontrava letras financeiras de grandes bancos privados a 105 por cento do CDI. Hoje, é mais fácil achar algo perto de 101 por cento do CDI. Suba um degrau no risco, para um banco de montadora. Há 18 meses, 112 por cento do CDI. Hoje, 105 por cento do CDI.

Para manter o prêmio, o gestor pode escolher dar um passo além: investir em títulos de dívida com mais risco de inadimplência. Já assisti a esse filme.

No período de 2012 a 2014, na esteira da queda dos juros básicos, a fatia de títulos de dívida com nota superior a AAA nos fundos de crédito caiu a menos de 50 por cento, dando lugar a crédito de qualidade inferior, o que não aconteceu em nenhum outro ano dessa década. Nos anos que se seguiram, estouraram alguns casos de inadimplência.

Torço para que dessa vez seja diferente, mas se o seu fundo que investe em crédito –inclusive fundo DI – não reduziu a taxa de administração no último ano e continua rendendo a mesma coisa, desconfie de que ele está correndo um risco maior com o seu dinheiro.

Nada contra crédito de alto risco, desde que eu ganhe por isso e que não seja na parcela conservadora do meu portfólio.

E nada contra álcool, desde que não seja no tanque da minha Fielder.

Não soaria muito modesto dizer que o gestor do maior hedge fund do mundo, Ray Dalio, uniu-se ao nosso coro. O fato, entretanto, é que o mito usou seu Twitter na semana passada para recomendar o investimento em ouro como forma de proteger o portfólio, o que o Felipe faz desde a tenra infância. A preocupação imediata do gestor: as tensões na Coreia do Norte.Como comprar barras de ouro? Em distribuidoras online, no Banco do Brasil ou via contratos futuros na Bolsa. Uma alternativa é investir no metal por meio de fundos. Há opções com aplicação mínima a partir de mil reais.

 

“Achei muito interessante o conteúdo sobre os melhores fundos dentro dos bancos. Gostaria de saber, porém, se existe a possibilidade de fazer este levantamento também no Banrisul, um dos bancos de maior importância no Estado do RS e o banco pelo qual optei por concentrar todas as minhas operações. Espero que seja relevante para vocês fazerem este levantamento, pois, para mim, seria essencial!”  Betina M.

Betina, de fato faltou o Banrisul no estudo dos melhores e piores fundos DI dos grandes bancos. Fiz um estudo aqui para atender ao seu pedido e de outros conterrâneos.Vou dar o Cota Murcha ao pior fundo do banco, o Banrisul Automático, com taxa de administração de 5,5 por cento ao ano.Agora, a boa notícia, Betina. Para a sua reserva de emergência, a melhor opção no banco dentro da nossa análise é o Banrisul Soberano Simples. Ele tem taxa bastante inferior, de 0,5 por cento ao ano, aplicação mínima de 10 mil reais e investe somente em títulos públicos.Se você estivesse disposta a sair do banco, aí eu teria uma opção equivalente a recomendar com taxa de 0,2 por cento ao ano, mas respeito seu desejo de ficar.

Finalmente vou entender os bitcoins!

A Empiricus lançou nesta semana uma série especial para ensinar a investir em bitcoins, sob os cuidados do especialista Fernando Urich. Desde a última temporada de “Billions” que não sigo uma série com tanta expectativa.

Um abraço,
Luciana Seabra

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