Os 3 princípios do investidor de fundos

Investidores armados com princípios básicos, metas bem definidas e autoconhecimento de tolerância a risco têm mais sucesso.

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Os 3 princípios do investidor de fundos

Moisés sabia das coisas. Não posso garantir que quando listou os Dez Mandamentos, que seriam decorados por gerações e gerações, ele estivesse ciente de que, milênios depois, uma empresa atrairia 150 milhões de visitantes por mês e seria avaliada em mais de 1 bilhão de reais fazendo listas. O fato, entretanto, é que ele lançava ali um poderoso viral (com todo o respeito de quem já foi coroinha várias vezes lá em Diamantina).

Você talvez não se atente para a chamada “Saiba como perder 5 quilos em uma semana”. Dificilmente resiste, entretanto, a ler quais são as “3 formas de perder cinco quilos em uma semana”, ainda que saiba que nenhuma das duas promessas seja executável sem o risco de acabar a semana saboreando sopa de hospital.

Hoje vou me aproveitar desse recurso milenar não para orientá-lo a não desejar a mulher do próximo (o homem da próxima pode?) nem para dizer as 16 vezes em que as redes de fast-food exageraram (uma das listas mais lidas do BuzzFeed, com direito a nuggets de Cheetos e quesadillas de Kit Kat).

Vou recorrer a uma lista numerada para contar a você as regras de um investidor de fundos de sucesso, segundo ninguém menos do que meu ídolo, David Swensen, o homem que não abriu o Mar Vermelho, mas que garante há décadas a multiplicação do montante doado à Universidade de Yale por meio de uma boa alocação em fundos.

No livro “Unconventional Success”, Swensen defende que investidores armados com princípios básicos, metas bem definidas e autoconhecimento de tolerância a risco têm mais sucesso. Ele lista então os três princípios para uma alocação de longo prazo. Leia, decore, confronte com seu portfólio, viralize:

1. VIÉS PARA AÇÕES
Para defender a necessidade de que o portfólio tenha um peso significativo em renda variável, Swensen recorre a um estudo do Ibbotson Associates, que cobre 78 anos da Bolsa americana. Ao longo desse período, o retorno das ações supera o ganho com títulos de renda fixa em 5 pontos percentuais em média.

“Mas no Brasil é diferente, porque o retorno da renda fixa é muito alto” – diz você. Acabo de puxar aqui na Quantum uma lista de 150 fundos de ações que bateram o CDI nos últimos cinco anos (ainda que o período de 2013 a 2015 tenha sido desastroso para o Ibovespa).

No CDI, o dinheiro cresceu 69,92%. Em gestoras como Alaska, Atmos, Núcleo, BTG, SPX, HIX, Ibiuna, IP, M Square e Brasil Capital, a valorização ultrapassou 100% no período.

2. DIVERSIFICAÇÃO DE VERDADE
Se o retorno da renda variável é tão superior, por que não concentrar tudo em Bolsa? Swensen cita a crise de 1929, em que investimentos em ações de pouca liquidez, por exemplo, perderam 90% de valor.

Uma diversificação bem-feita, mostra o alocador, leva a mais retorno para o mesmo nível de risco. Há também um efeito psicológico, defende. Investidores com carteiras muito concentradas sentem enormes pressões, internas e externas, para mudar de ideia em fases de retorno ruim.

Swensen reforça que não adianta diversificar somente em ativos que costumam caminhar juntos. Reflita sobre isso se você tem hoje uma carteira concentrada em títulos prefixados, ações e reais, por exemplo. Todas as posições andam com um Brasil melhor e se machucam com um pior.

3. PREOCUPAÇÃO COM IMPOSTOS
Acostumado ao universo do investidor institucional, com vários benefícios fiscais, Swensen preocupa-se com a carga tributária no livro que dedica ao investidor pessoa física, no caso, nós.

No Brasil, especialmente ao investir em fundos de renda fixa e multimercados, ter a tabela regressiva em mente ajuda muito. Se você sacar em menos de seis meses, paga 22,5% sobre o ganho de capital. Esse valor cai para 20% no período de seis meses a um ano, para 17,5% em seguida e, se o saque for feito dois anos após o investimento, chega-se à melhor alíquota, de 15%

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Desde que Richard Donchian criou o que parece ter sido o primeiro fundo quantitativo do mundo, em 1939, estratégias do tipo cresceram bastante ao redor do globo, especialmente nos Estados Unidos.

A partir da observação dos movimentos históricos dos preços das commodities, Donchian definiu um conjunto de regras que determinavam os momentos de dar ordens de compra e venda nos mercados futuros.

No Brasil, os fundos que usam estratégias sistemáticas para tomada de decisões somam um patrimônio pequeno – são pouco mais de 30, que totalizam cerca de 2,5 bilhões de reais.

Se você é cliente da Órama ou da XP, já deve ter se deparado com o fundo multimercados Kadima II, que também tem um fundo de previdência segurado pela Icatu. Ela é uma das pioneiras no uso de abordagem quantitativa no Brasil.

O primeiro fundo da casa completou uma década de vida neste ano, mas Sergio Blank, o fundador da Kadima, começou a usar a estratégia ainda em 2002, na tesouraria do antigo Banco Brascan. Ele se deparou com a estratégia ao pesquisar o que os grandes hedge funds globais faziam.

Desde a criação, o multimercado da Kadima rende 137% do CDI. No seu pior mês, perdeu 1,13%; e, no melhor, ganhou 5,04%.

O fundo mira volatilidade em torno de 5,5%, mas a gestora tem também uma versão de alta volatilidade de seu multimercado, com 11% de alvo.

A Kadima usa mais de 40 modelos criados dentro de casa, principalmente os chamados seguidores de tendências, que, de forma simplificada, determinam compras e vendas não com base nos fundamentos do ativo, mas no movimento recente dos preços. Elas são responsáveis por 70% do risco do fundo.

Os alocadores brasileiros têm preconceito contra os fundos quantitativos, seja pelos problemas de liquidez dos mercados brasileiros, seja pelos limites tecnológicos para operações rápidas, ou até mesmo pelo fato de se basearem no desempenho histórico dos ativos.

Para quem acredita na recorrência de cisnes negros talebianos – eventos inesperados e de grandes proporções com forte impacto sobre os mercados – também é difícil engolir uma estratégia que se baseia no entendimento de que padrões passados tendem a se repetir no futuro.

O fato, entretanto, é que a consistência do fundo da Kadima ao longo desses dez anos, recheados de rupturas, impressiona. Sobre os cisnes negros, Rodrigo Maranhão, que gere o fundo da casa juntamente com Blank, diz que a carteira pode até sofrer no curto prazo – como inclusive deve acontecer com os demais, defende – mas que se adapta com velocidade à nova tendência. O fundo da casa segue tendências de curto prazo, de um a três dias.

Para evitar problemas na execução, a Kadima tem controles de risco diferenciados, como os sons que avisam quando um robô entrou em operação, ativado por um modelo (um deles soa como o sabre de luz de Star Wars, o que revela a equipe de nerds que compõe a gestora), e os chamados firewalls, soluções de segurança nas corretoras que processam as operações, com direito a testes-surpresa, para evitar boletas grandes indesejadas.

A maior ameaça ao desempenho do Kadima, segundo Maranhão, não é a ruptura, mas a baixa volatilidade. A tendência não aparece em mercados de calmaria. De fato, o desempenho do fundo historicamente reflete essa tese.

A baixa correlação com os demais multimercados é um trunfo do produto da Kadima. O exemplo mais recente é o 18 de maio, quando o fundo, na contramão do mercado, ganhou 3,02%. E a aplicação mínima baixa, de 20 mil reais, é uma boa notícia para quem ainda nutre um desconforto com os quantitativos, mas tem simpatia pela estratégia.
Os Melhores Fundos de Investimento. Espero você lá!

 

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