Rendi-me às criptomoedas

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Rendi-me às criptomoedas

Foi a Dileine quem me levou para Campos do Jordão. Foi ela quem colocou minha mala no porta-malas, dirigiu com segurança por mais de duas horas, ofereceu bala de iogurte. Uma empresa norte-americana, que atende pelo nome de Uber, levou 20 por cento do valor da viagem.

A Uber teve um papel importante, diria você: organizou os motoristas, estruturou os contratos, garantiu o meio de pagamento seguro. Ela mereceu sua fatia.

Mas e se houvesse uma nova tecnologia que permitisse aos próprios motoristas se organizarem, como em uma cooperativa, e ficarem com o valor total da corrida? Da mesma forma, o Airbnb poderia ser um contrato entre mim e o proprietário daquela charmosa casa em Cabo Polonio, sem um intermediário central.

Ao que parece, essa tecnologia está a caminho. Chama-se blockchain. Foi o que disse lá no meu destino, em Campos do Jordão, em um congresso organizado pela Bolsa, Don Tapscott, o homem que fundou o Blockchain Research Institute.

“O blockchain representa uma segunda era da internet”, disse o Tapscott, autor do best-seller Blockchain Revolution. Você já deve ter ouvido falar de bitcoin. Ele é só um ativo desse novo mundo.

Como assim segunda era da internet? Hoje, quando envio um e-mail, você recebe não a informação, mas uma cópia dela. Pode ser um PDF, Word, Pages, arquivo de voz…

E se eu quisesse enviar um valor a você sem um intermediário central? Dinheiro, ações, bonds, uma obra de arte, uma música, créditos de carbono? Nesse caso, enviar uma cópia seria uma ideia muito ruim, né? Se eu envio mil reais para você, é importante que eu deixe de tê-los.

E se, provoca Tapscott, não tivéssemos apenas uma internet de informação, mas uma internet de valores, em que eu pudesse transacionar com você de maneira segura, sem o intermédio do banco e suas altas taxas?

A segurança é uma peça-chave nesse processo. O modelo atual dos intermediários é centralizado, o que facilita a vida de hackers. A confiança entre as partes, no caso da blockchain, seria fruto não de intermediários, mas de criptografia.

E é daí que vem o nome blockchain: “cadeia de blocos”. Mais difícil violar uma única caixa ou milhares delas? Atuar como um hacker nesse mundo seria tão difícil quanto transformar um McNuggets numa galinha de volta, disse o Tapscott.

Sim, é complexo, também achei, mas dá para entender a ideia, certo? E também como isso pode ser revolucionário.

A essa altura você me pergunta:

Agora que a moda é bitcoin, que tal um relatório sobre fundos que tenham essa modalidade em suas carteiras (se é que existe)? Paulo P.

 

Paulo, ainda não existe um fundo que invista em criptomoedas no Brasil. Mesmo no exterior, esse movimento ainda é incipiente. Já encontrei dois fundos lá fora, mas que têm uma alocação muito pequena em bitcoins. Estou de olho e vou avisar dos próximos movimentos, certo?

Por enquanto, já abri minha conta para investir diretamente em criptomoedas e até presentear! Alto risco, pouco dinheiro obviamente.

Tenho um Bar Mitzvah nesta semana. Se eu der dinheiro, o Michel provavelmente vai gastar. Se eu der criptomoedas, ou elas viram zero, assim como o dinheiro, ou elas disparam e fazem um jovem feliz. Um presente assimétrico!

Esse é um tema em que eu sou aprendiz como você. Quer entender mais? Recomendo a excelente série da Empiricus.

De volta ao mundo dos investimentos conhecidos, agosto foi excepcional para os fundos de ações. O mês não acabou ainda, mas os dados até o dia 28 impressionam.

Lidera a lista dos fundos de ações livres – não apegados a índices – o HIX Capital SPO III FI Ações, carteira criada pela gestora paulista para reunir investidores de longo prazo em Senior Solution. Bela tacada. No mês, o fundo rende 20,91 por cento e, no ano, 68,83 por cento.

Dentre os fundos abertos, o destaque é o Alaska Black, com 13,94 por cento de ganho. O veterano da Bolsa Luiz Alves enterrou de vez o pesadelo Joesley e acumula impressionantes 50,05 por cento de retorno em 2017.

Também na fila dianteira está Tarpon, que, embalada pela recuperação de BRF, sua principal posição, rende 11,91 por cento em agosto, tirando boa parte do atraso do ano. Segue atrás do Ibovespa, mas com ganho de 14,31 por cento.

 

Dado o excelente mês para os gestores de ações – e também o ano de retorno que já ultrapassa 15 por cento para o Ibovespa – senti falta de um cidadão falando sobre o investimento em renda variável no congresso da Bolsa.

Foi, sem dúvida, um evento excepcional, com destaque para o blockchain de Tapscott e para as finanças comportamentais de Dan Ariely, que desde sábado tem um pedaço do meu coração (voltaremos a ele em breve neste espaço).

Em meio à teoria econômica, ao pessimismo fiscal e às especulações políticas para 2018, faltou, entretanto, uma mesa de gestores de ações ou alocadores discutindo a Bolsa. Não que precisasse ser otimista – ainda que seja esse o tom predominante no mercado hoje – mas não dá para ignorar que já ultrapassamos os 70 mil pontos.

Acredito que o investidor da Bulgária, que fazia perguntas à distância, e também o pessoal do fundo de pensão, sentado atrás de mim, esperassem isso de um congresso organizado pela Bolsa. Os juros gordinhos estão ficando para trás..

 

O retorno

Além de García Márquez, Benedetti e Zambra, eu me divirto lendo algumas cartas de gestores. Mitológica era a escrita por Pedro Cerize, que tinha abandonado a caneta há alguns anos. A boa notícia é que ela voltou!

Um abraço,
Luciana Seabra

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