Um livro para você que investe em fundos

Uma recomendação valiosa e a análise do fundo quantitativo da Bozano

Um livro para você que investe em fundos

Me belisca?

“Era uma vez uma menina que era querida por todos – bastava olhar para ela para gostar dela. Mas quem mais a amava era sua avó, que fazia de tudo para lhe agradar. Um dia, a avó deu a ela um chapeuzinho de veludo vermelho…”.

Por que Jacob e Wilhelm Grimm não começaram um dos contos infantis mais populares do mundo assim:

“Menina que vai visitar a avó é vítima de estelionato ao conversar com desconhecido na floresta e escapa da morte porque é salva por um caçador”.

O texto dos irmãos Grimm seria rechaçado por um manual de jornalismo moderno, acusado de nariz-de-cera: um parágrafo introdutório por meio do qual o escritor retarda o objetivo principal do texto – no caso, ensinar crianças a não falar com estranhos.

O fato é que a história da Chapeuzinho Vermelho tem atravessado gerações. Já o lead, um começo impessoal que responde às perguntas básicas – o quê, quando, onde, como e por quê?, aprendi na faculdade de jornalismo – nasce pela manhã e com frequência chega ao entardecer com fins muito menos nobres (cansei de ver, na casa da minha mãe, minhas reportagens forrarem a gaiola do Tiquinho).

Às vezes me pergunto por que também um relatório de corretora, seja qual for o público, precisa ser tão frio e impessoal. Imagino o analista que visita uma mina da Vale chegando à noite em casa:

“E aí, meu amor, como foi a visita?”

“Ah, querida, a estimativa de Ebitda da companhia certamente será elevada”

Bem, prefiro o nariz de cera. O meu culmina hoje na indicação de um livro.

É uma coletânea de escritos de quem deixa a frieza de lado e maneja as palavras com habilidade para atingir um objetivo nobre: formar bons investidores.

A obra chama-se “Felipe Miranda 100 Ensaios”.

O estrategista-chefe da Empiricus criou um estilo de escrita nunca antes visto no universo dos herméticos relatórios financeiros.

Sua expressão máxima está no Daily Pro, uma newsletter diária enviada somente aos assinantes da casa. O livro é uma coletânea dos melhores textos.

Começa com uma bananeira assobrada, com a prosa poética de Clarice Lispector, com a dor na coluna de George Soros, com uma lembrança melancólica do pai, um trecho de música, um sonho com o João Pedro (o filho do autor).

Daí sem você perceber evolui para uma moral: tenha cuidado com os conflitos de interesse de sua corretora ou banco, fique atento aos seus vieses de comportamento nas finanças, duvide de modelos econométricos para explicar a vida real… E, o valor máximo: proteja seu portfólio contra o inesperado.

O que isso tem a ver com seu universo de investidor de fundos?

O fundo em que você investe está no topo do ranking. Bate aquela coceira de colocar todo o seu patrimônio ali? Ressoa a voz de Felipe Miranda: será que não foi sorte? Será que não há riscos ocultos? Será que esse gestor está protegido do próximo cisne negro?

Se você é um seguidor do Daily Pro, na certa sabe muito mais do que a média, por exemplo, o real risco de um fundo de crédito. Até mais do que alguns gestores.

O “100 Ensaios” é um livro para ler sempre, como aquele da cabeceira da vovó que você abre em uma página qualquer por dia. Funciona como aquela frase que você diz ao ser mais próximo quando tudo parece bom demais para ser verdade: “Me belisca?”.

Melhor um beliscão do que cair do cavalo.

Como ensinar sobre investimentos em um país sem qualquer vestígio de educação financeira, por meio da internet, em concorrência com humoristas de sucesso, gatos malabaristas e vídeos de entrevistados interrompidos por crianças fofas?

O Felipe conseguiu. Tem hoje um séquito de 153 mil leitores fiéis.

Ele encontrou a fórmula, hoje replicada por outros analistas da casa, para entregar conceitos complexos de investimentos de forma agradável, poética e viciante.

Faz-me lembrar do que Paulo Freire chamaria de pedagogia da autonomia: partir da realidade do ser educado – como de um riacho poluído em uma cidade carente – para então chegar ao que se pretende ensinar.

O resultado: um leitor capaz de tomar decisões bem informadas sozinho e lutar por seus direitos no mercado financeiro.

“Por que não estabelecer uma necessária intimidade entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos?”, escreveu Freire.

Os indicadores econômicos observados pelo estrategista-chefe da Empiricus também estão, claro, nos textos diários. E foram replicados nos livros, na proporção que merecem: em fonte menor. Um bom investidor sabe que o ruído de curto prazo pode ser importante, mas não deve contaminar seus princípios.

Paul Zak, fundador do Centro de Estudos Neuroeconômicos da Universidade de Claremont, descobriu por meio de neurotransmissores o que uma leitura dos testemunhos recebidos nos e-mails da Empiricus também revelaria: histórias com conteúdo emocional resultam em um entendimento melhor dos pontos chave que o autor pretende destacar, permitindo a lembrança deles semanas depois.

Me parece uma arma valiosa de educação do investidor.

Daniel Kahneman, psicólogo que conquistou o prêmio Nobel de economia ao descobrir os vieses cognitivos do investidor, defende a importância de termos consciência permanente das armadilhas de nosso cérebro. Para mim, o Daily Pro cumpre esse papel.

Formação financeira da boa feita da forma mais prazerosa possível. “Decência e boniteza de mãos dadas”, como diria Paulo Freire sobre o trabalho do professor.

“Gostaria de saber o que você acha dos fundos quantitativos. Por exemplo: Bozano Quant”. Rafael M.

Você lê fundo quantitativo e imagina o quê? Robôs, máquinas, o mundo dos Jetsons?

Para atender aos pedidos enviados a essa seção quinzenal, bati um papo ontem no Rio com os gestores do Bozano Quant, o maior fundo quantitativo brasileiro em patrimônio, com 475 milhões de reais.

Os quatro responsáveis pela carteira – Ricardo, Antônio, Vinicius e Diego – trabalham juntos desde 2010, quando fundaram a Trapezus, uma das primeiras gestoras quantitativas do Brasil. Naquela época, eram basicamente ela, a Kadima e a Murano.

O fundo da Bozano não tem nada a ver com alta frequência: operações feitas a cada segundo. As posições têm horizonte de um dia a um ano.

A característica principal do fundo é ter um processo não discricionário. O que significa isso? Lá não são os gestores que mandam. Não são eles que escolhem a hora de montar ou desmontar uma posição, seja em juros, câmbio ou Bolsa.

O fundo segue quatro modelos principais de investimentos, que chama de teses. Uma, chamada de momentum, capta grandes tendências. Outra, de valor intrínseco, joga no campo oposto, em posições contrárias a ativos com grandes distorções de preços. Uma terceira detecta fluxos e a quarta capta padrões de curto prazo e sazonalidades.

Pelo equilíbrio entre as teses – em geral, cada uma deve ter um quarto do risco do fundo – a carteira pode estar direcional para o longo prazo em real forte, por exemplo, mas ficar por uma semana com uma posição quatro vezes maior em dólar forte.

Achou complexo? De fato, uma estratégia quantitativa não é das mais fáceis de explicar. Um alocador me confidenciou esses dias que até gosta dos fundos quantitativos, vê valor neles, mas prefere não recomendar porque, quando o fundo dá prejuízo, ele não é capaz de explicar ao investidor por que isso aconteceu.

O fundo da Bozano é consistente em termos de retorno e bastante descorrelacionado com os demais fundos multimercados, mais posicionados em grandes tendências.

Os gestores miram retorno próximo a 125% do CDI e anunciam um objetivo de preservação de capital. A volatilidade é baixa, de 2%.

O único ano em que o fundo da Bozano perdeu para o CDI foi em 2016. Fácil de entender, não? Um fundo quantitativo fia-se em padrões históricos de comportamento dos ativos. E o ano passado foi um lago de cisnes negros: impeachment, Brexit, Trump…

O resultado do fundo da Bozano em 2016 revelou uma fragilidade que os gestores já conheciam – o inesperado, por definição, não é a praia dos fundos quantitativos – mas também trouxe uma mensagem positiva: o fundo é capaz de se proteger nesses momentos. Há uma disciplina rígida de stops. No ano, o fundo rendeu 88 por cento do referencial.

O fundo da Bozano nunca vai ser o produto a estourar a boca do balão naquele ano com o movimento de queda de juros nem a estampar a capa do jornal porque capturou o ganho com dólar. O modelo é pensado para ser estável em diferentes janelas de tempo.

O produto permite resgate no curtíssimo prazo – em quatro dias, o dinheiro está na conta – porque investe em ativos bastante líquidos. Mas o investidor não deve se deixar levar por isso. Os próprios gestores dizem: o ideal é pensar em um horizonte de 3 a 5 anos, como em qualquer multimercado.

O fundo da Bozano já está na nossa análise, assim como os demais quantitativos. Que tal um relatório somente sobre essa espécie, tão grande no exterior e ainda tão subdesenvolvida no Brasil? Escreva para nós com suas dúvidas: fundos@empiricus.com.br.

Lá vem o pato…

“…ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. Paulo Freire.

É pela falta de consciência dos vieses que o investidor pessoa física é com frequência o pato do mercado de capitais. É o ingênuo, aquele que está na ponta errada, o que cria condições para o investidor institucional ganhar dinheiro.

Não quer ser o pato? Leia o livro do Felipe.

Um abraço,

Luciana Seabra.

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