Vó, vô, esta é para vocês

O assédio dos bancos a idosos exige atenção redobrada com produtos de investimento ruins

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Vó, vô, esta é para vocês

Tenho um tio-avô supersincero. Zafá, abriu uma sorveteria na esquina, o senhor viu? Porcaria!, ele responde sem cerimônia. Zafá, a vizinha está vendendo doces, vamos experimentar? Porcaria! Zafá, o remédio fez bem? Porcaria!

Pode parecer que Zafá seja ranzinza, mas, na realidade, ele é muito bem-humorado. Cultiva orquídeas raras e se diverte com brinquedos que compra naqueles canais de vendas de eletrodomésticos: uma pipoqueira, um descascador de laranja, uma máquina de colocar gás no suco.

O Zafá só não hesita em dar sua opinião. Quando ele aprova, também fala: Ô, Luciana, mas isso é muito bom – disse, no nosso primeiro contato por Skype, quando instalaram internet na casa em que ele mora com minha tia-avó, a Mena.

Lembrei-me do Zafá e da Mena quando recebi um e-mail da Olga com o título “Do or not to do?”. Aos 58 anos, sem filhos, como meus tios-avós, ela queria saber se deveria contribuir para uma previdência. Fazer ou não fazer?

Essa é uma dúvida comum e não vai ser o gerente que vai ajudá-lo com ela. Como recebe comissões gordas na previdência, ele tende a achar o produto sempre muito bom. Quando faz sentido e quando não faz?

Você tem fundo DI, Tesouro Selic, CDB, LCA?

Começou o ciclo de queda da taxa de juros (Selic), que vai condenar todas as aplicações remuneradas pelo CDI.

Ativos que eram bons perderão grande parte da rentabilidade nos próximos dias. Não deixe seu patrimônio acorrentado a maus investimentos.

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Quando não tem objetivo de sucessão: “Porcaria!”.

Acabei de fazer 58 anos, sou funcionária pública aposentada como enfermeira, sem filhos, solteira nos documentos e casada na prática há 36 anos com um solteiro, 60 anos, doutor em Física, sem filhos (que eu saiba… kkk) e com um bom padrão financeiro. Nesta altura do campeonato, compensa fazer um fundo de previdência de 500 reais ou 200 reais mensais?
Olga M.

Olga, o principal motivo para fazer uma previdência “nesta altura do campeonato” é a sucessão. Os planos de previdência não passam por inventário e, em geral, também não pagam ITCMD, o Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação – por meio do qual o Leão morde de 2 por cento a 8 por cento do seu patrimônio.

É bom lembrar que as regras têm mudado em alguns Estados, como Minas Gerais, Goiás, Rio e Paraná, nos quais o ITCMD passou a incidir sobre a previdência, reduzindo essa vantagem.

No caso de vocês, Olga, não há filhos (que a senhora saiba!) e, pelo que entendi, nenhum desejo de deixar patrimônio para a posteridade, né?

Outra vantagem é a possibilidade de converter a previdência em renda em caso de doença grave sem pagamento de impostos. Aí é o caso de avaliar a vulnerabilidade da família em uma situação dessas. O próprio patrimônio acumulado já não daria conta?

Para um horizonte de dois anos: “Porcaria!”.

Felizmente, vivemos cada vez mais. Acreditar que vamos passar na Terra uma centena de anos não é um prognóstico absurdo.

Se você já tem uma longa estrada, mas ainda enxerga um horizonte de investimento de mais de dez anos, aí pode ter em conta outro benefício. Uma das grandes vantagens da previdência é a possibilidade de aderir à tabela regressiva do Imposto de Renda. O que isso significa? Os anos passam, o imposto cai.

Dez anos depois da contribuição, o imposto chega a 10 por cento, o menor existente na face da Terra sobre investimentos tributáveis. O porém é que resgates anteriores a esse prazo são muito penalizados. Em resgates em até dois anos, o Leão morde 35 por cento!

Em caso de morte até seis anos depois da contribuição, 25 por cento ficam para o Leão.

Como grande parte dos fundos de previdência é ruim – até porque as regras são mais engessadas e proíbem algumas estratégias – e ainda há prazos em que o dinheiro não pode ser resgatado e taxa de saída, “nesta altura do campeonato”, pode ser que faça mais sentido montar a própria carteira de investimentos fora da previdência.


Ações pode?

Mande, logo, URGENTE, como chego a um bom fundo de investimento, não ligado a DI (como você orienta e bem). E a principal razão dessa urgência é que somos velhinhos – eu tenho 74 e meu marido, 76 anos –, mas, graças a Deus, conseguimos juntar 1 milhão de reais mal aplicados, pois não conhecíamos vocês. Abençoados! E adoraríamos algumas dicas de ações melhorzinhas. Umas cinco ou seis ações (que você aplicaria para seus avozinhos).
Eva D.

Que pressa, hein, Dona Eva? Reserva de emergência: fundo DI barato. Nesse caso não há como fugir, ainda que vá render pouco; tem de estar seguro! E onde encontrá-lo? Comigo, aqui!

Quer recomendação de cinco ou seis ações? Aí não é comigo. Que tal assinar As Melhores Ações da Bolsa, do Bruce Barbosa?

Hoje é dia da seção “Seu Fundo”, mas bem que poderia ser um “Cota Murcha”.

Sou funcionária pública aposentada, tenho 71 anos e moro em Belo Horizonte. Não entendo nada de mercado financeiro. Minhas economias da vida toda – e são poucas – estão aplicadas no Banco do Brasil. Recentemente, o gerente – sem me consultar e sem pedir minha assinatura – passou muito mais da metade delas, 150 mil reais, para um fundo da Brasilprev Estilo LP chamado VGBL RT FIX VI FIC. O meu filho me disse que esse não é um plano para idosos, porque idoso pode precisar de dinheiro a qualquer momento e esse plano não deixa retirar. Eu estou apavorada e não sei a quem recorrer! Por favor, me ajude! É a única renda que eu tenho se me acontecer alguma coisa! Maria R.

Maria, como assim o gerente não a consultou? Nesse caso, saímos das páginas de Finanças e partimos para as policiais.

Em primeiro lugar, para a reserva de emergência, investir em um VGBL é uma péssima ideia. Isso porque a previdência pune resgates no curto prazo. Como a senhora optou pela tabela regressiva – vi aqui na apólice que enviou –, resgates em menos de dois anos pagam imposto de 35 por cento sobre o retorno! De dois a quatro anos, 30 por cento!

Se a reserva de emergência estivesse em um fundo DI, a mordida do Leão seria de 22,5 por cento para resgates em menos de seis meses e 15 por cento para mais de dois anos. Bem melhor, não?

Ah, mas o fundo que está dentro desse péssimo pacote é bom? Não! Desde que foi criado, em junho de 2006, o fundo Brasilprev RT FIX FIC Renda Fixa rende míseros 88 por cento do CDI, o Certificado de Depósito Interfinanceiro.

E, para completar, o Banco do Brasil prendeu a Dona Maria. O resgate só pode ser feito depois de 180 dias!

 

Dinheiro no bolso e canja de galinha…

 

Então, ótimo, previdência pode fazer sentido para um idoso? Sim. Pode ser um completo engano também? Pode. Nesse caso, surpreenda o gerente. Quando ele vier oferecer a você, diga: “Porcaria!”.

Aproveitando o tema: atenção, bancos! Uma pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito mostra que 67% dos idosos são os únicos tomadores de decisão sobre bens e serviços que compram. E querem principalmente bom atendimento, bancos para descanso e sinalizações com letras maiores.

Por fim, e a tempo! Lembrei-me do Zafá porque ele sofreu um enfarte na semana passada. Está ótimo, só reclamando de ter de tomar banho todos os dias. Zafá, sare logo, porque precisamos da sua lucidez!

 

 

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Analistas responsáveis: Felipe Miranda, CNPI, e Walter Poladian, CFP®.

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