Você mentiu nos últimos 10 minutos?

Para cuidar dos seus investimentos, não busque quem simplesmente se diz honesto, mas quem está o menos submetido possível a oportunidades de ser desonesto.

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Você mentiu nos últimos 10 minutos?

Se você é distraído como eu, na certa já precisou de um chaveiro para abrir seu carro ou sua casa. Não ficou impressionado com a facilidade com que ele fez isso?

O professor de Psicologia e Economia Comportamental na Duke University, Dan Ariely, conta que um de seus alunos questionou o chaveiro sobre tal fragilidade dos lares. “As fechaduras estão nas portas apenas para manter honestas as pessoas honestas”, rebateu o responsável pelo serviço.

E detalhou sua teoria: um por cento das pessoas sempre será honesto e nunca roubará, outro um por cento sempre será desonesto e tentará arrombar sua fechadura e roubar a televisão. O resto será honesto desde que as condições sejam favoráveis; mas, se as tentações forem suficientemente grandes, também serão desonestos.

A história que ilustra o livro “A mais pura verdade sobre a desonestidade”, de Ariely, está acompanhada de uma série de pesquisas que levam à mesma conclusão, quando aplicadas ao nosso universo: não procure pessoas honestas para cuidar do seu dinheiro – é muito provável que você não encontre. Busque profissionais que estejam o mínimo possível submetidos a conflitos.

Não foi à toa que comprei três livros de Ariely na Amazon (maldito botão “compre com um clique”) em seguida à sua encantadora palestra no congresso da B3, em Campos do Jordão, que começou com a pergunta: “Você mentiu nos últimos 10 minutos?”.

As pesquisas de Ariely validam uma sensação antiga minha: pergunte a uma pessoa legal que distribui dois fundos qual é a melhor opção para você. Se você comprar A, ela fica com 10 por cento da taxa de administração; se escolher B, ela fica com 20 por cento.

Ela pode recolher o cocô do cachorro na praça; pode ajudar idosos a atravessar a rua; pode ser uma esposa fiel ou um marido devotado aos filhos. É altamente provável que o dia acabe com você incentivado a investir em B.

Pela estrutura de comissões, posso dizer a você que A é melhor do que B. Essa é a prática do mercado. Fundos bons pagam menos rebate; alguns dos melhores sequer pagam comissões pela distribuição.

Eu tenho minha própria amostra: alguns fundos de péssima qualidade aparecem com recorrência na minha caixa de e-mails. “Meu assessor [existe também a variação meu gerente] disse que para mim o melhor é esse fundo aqui” – escreve você.

Sem conhecer as políticas de remuneração das gestoras – a CVM já tentou forçar uma transparência dessas comissões, mas na prática elas continuam a ser negociações secretas entre gestores e distribuidores – posso colocá-las em ordem de pagamento de rebates a partir da minha caixa de entrada. As que aparecem mais pagam mais.

Por que não tabelar as comissões? Assim os assessores seriam indiferentes entre um e o outro fundo. A qualidade do produto passaria a pesar mais. Vejo caretas quando faço essa sugestão.

Voltemos ao Ariely, Ph.D em psicologia cognitiva e em administração, uma das maiores referências globais no tema.

A tese central da teoria dele é que nosso comportamento é conduzido por duas motivações claramente em conflito. Por um lado, queremos nos ver como pessoas honestas e honradas. Por outro, queremos nos beneficiar com a trapaça, diz Ariely. É aqui que nossa fantástica flexibilidade cognitiva entra em ação.

O equilíbrio entre as duas se dá na chamada “teoria da margem de manobra”. Esse processo pode chegar ao limite, no caso do assessor, de ele convencer a si mesmo de que o fundo que paga rebate é mesmo o melhor para o investidor.

Um experimento clássico de Ariely envolve submeter dois grupos de estudantes do MIT a 20 problemas matemáticos simples, mas com tempo reduzido para resolvê-los, somente cinco minutos. A cada resposta correta, o estudante ganha 50 centavos de dólar.

Para o primeiro grupo, a pesquisadora calcula a nota e paga por isso. Nessa situação, as pessoas acertam em média quatro questões – ganham 2 dólares.

O segundo grupo é estimulado a calcular sua nota, triturar a prova e dizer quanto merecem. A média sobe para seis acertos, e os ganhos para 3 dólares.

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Toda as variações do estudo vão na mesma linha. Lançadores de dados estimulados a adivinhar o número da face de cima e não contar a ninguém são muito mais “sortudos” do que os que são levados a anotar o valor imaginado em algum lugar.

Resultados similares foram obtidos em diferentes países: Suécia, Quênia, Israel, EUA…

“Meu ponto é que a desonestidade faz parte da humanidade. Então, quando temos conflitos de interesse, o pior da humanidade se revelará” – é a triste conclusão empírica de Ariely.

Logo, para cuidar dos seus investimentos, não busque quem simplesmente se diz honesto, mas quem está o menos submetido possível a oportunidades de ser desonesto.

Gostaria de saber se vocês já fizeram a análise do Fundo Sparta Top Renda Fixa. Filipe B.

O Sparta Top é um dos mais povoados fundos de crédito privado fora de banco, Filipe, com 17.121 cotistas. O patrimônio também é significativo, de 1 bilhão de reais.

O fundo é bem diferente da maior parte dos portfólios de crédito que você conhece, pela pulverização. A carteira tem hoje mais de 300 títulos de cerca de 140 emissores. Nenhum deles tem mais do que 5 por cento do patrimônio do fundo e, em média, a fatia de cada um é de 1 por cento.

Uma vantagem da equipe da Sparta é compreender o alto risco embutido em crédito. Como há pouca volatilidade nesse mercado, é comum que a possibilidade de inadimplência seja simplesmente ignorada.

Se há risco de alguma empresa não conseguir arcar com sua dívida, então melhor diversificar a cesta. “É como aquela rede de proteção do Cirque du Soleil. Se algo der errado, o acrobata não morre”, disse para mim Ulisses Nehmi, sócio da gestora.

Já houve momentos de estresse, como da debênture Libra Terminal Rio. Em um primeiro momento, foi preciso zerar o valor dela no fundo, mas, como o título tinha uma parcela muito pequena do patrimônio, nem fez cosquinha no retorno.

É claro que, se houver uma crise geral de inadimplência, o fundo sofrerá como um todo. Ou seja, o risco de crédito segue ali.

Mas, se analisar crédito é tão complexo, como acompanhar 140 emissores? Ulisses diz que o filtro quantitativo ajuda nesse trabalho, em que métricas de solidez financeira são levadas em conta.

A taxa de administração é bastante razoável, de 0,7 por cento ao ano, mas há ainda a taxa de performance, de 20 por cento do que exceder o CDI.

O fundo não tem liquidez diária – o resgate leva 30 dias – o que também vemos como uma vantagem importante. No mundo do crédito, é preciso que o gestor tenha tempo para liquidar as posições.

A meta de retorno do fundo é 110 por cento do CDI. Em alguns anos, como 2014 e 2015, o produto ficou abaixo desse retorno, mas com uma rentabilidade razoável, a partir de 106 por cento do CDI. Neste ano, chega a 113 por cento do referencial.

Ulisses está animado com o futuro para o fundo. Com a queda da Selic e a recuperação da economia, a expectativa dele é que as empresas voltem a emitir dívida para financiar suas operações.

Você já sabe que eu sou chata para crédito. Hoje recomendo somente dois gestores com fundos abertos nessa categoria. Nutro, entretanto, uma simpatia maior pelo Sparta Top do que por aquele seu fundo de crédito do banco que concentra em poucos ativos e rende 101 por cento do CDI. Se algo der errado, meu amigo…

 

TEM 1 MILHÃO?

Construir um patrimônio de 1 milhão de reais é possível. A Empiricus tem um programa que vai ajudar você a chegar lá. Melhor correr, as vagas acabam às 19h.

Um abraço,

Luciana

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