XPersonnalité: o que muda para fundos

Existem pelo menos três riscos para o investidor pessoa física que não tem um milhão de reais para aplicar.

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XPersonnalité: o que muda para fundos

O Itaú foi tão lento em perceber que deveria estender para além dos fundos de marca própria a oferta ao cliente de varejo que foi atropelado. Pelo próprio Itaú.

Há um ganho, não tenho dúvida, na compra de 49,9 por cento (que chegarão a 75 por cento) da XP pelo Itaú. Ele atende pelo nome de marca. Quem sempre teve medo de abrir sua conta em uma plataforma on-line e investir em um daqueles fundos de nomes desconhecidos, agora pode se sentir mais à vontade. O “banco feito para você” deu seu selo.

E, sim, o Itaú merece o crédito: apesar da demora, foi o mais ágil dentre seus pares, os bancos de varejo, a ceder à plataforma aberta. Há tempos escuto que o Bradesco fará o mesmo. Nem sinal até agora.

Três riscos, entretanto, pairam sobre o investidor desde que o contrato bilionário foi assinado. Ao menos sobre os que não têm milhões de reais para aplicar em fundos.

Risco 1: A tartaruga comeu a lebre. Qual ritmo vai prevalecer?

A XP seguirá independente, defende a família Benchimol. O Itaú terá “somente” a maioria do comitê de auditoria e indicará o auditor interno. O erro está no somente.

Hoje, quando um bom fundo nasce, a XP trabalha para oferecê-lo ao varejo na largada. O Itaú demora meses em seus processos burocráticos. Essa ameaça tem tirado o sono dos gestores independentes: qual será a velocidade a partir de agora?

Todos queremos uma boa análise de risco. O problema é quando ela é excessivamente rigorosa para proteger o banco, não o investidor. Privar o investidor menor de bons produtos – que geram retorno ao custo de volatilidade – é a saída óbvia de uma auditoria rigorosa demais.

Se o investidor não entender direito o produto oferecido pelo banco (apesar de o gerente ser sempre tão didático) e assumir mais risco do que suporta, vai dar trabalho legal demais para a receita que gera. Então melhor mesmo é demorar o quanto for preciso e deixá-lo chegar atrasado.

Quando o Adam Macro ganhou sua versão na prateleira do Personnalité, em dezembro de 2016, o fundo estava prestes a ser fechado. E o espelho da XP, aberto oito meses antes, acumulava ganho de 178 por cento do CDI.

Risco 2: O reinado de Homer Simpson

Hoje qualquer um que tenha 50 mil reais pode investir por meio da XP no fundo Gávea Macro, gerido por Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central. Para acessar o mesmo produto no Itaú, você precisa ter R$ 1,5 milhão investido por meio do banco.

O argumento do Itaú para tantos limites sempre foi o de que o investidor de menor porte não suporta a volatilidade. O resultado é trágico: o investidor é empurrado a não correr risco de verdade e assim fica frustrado, sem retorno, ou a correr risco de crédito, mascarado pela baixa volatilidade.

A favor da independência, foi usado nos últimos dias o argumento de que a relação que o Itaú terá com a XP será similar com a que tem com a Kinea. O que não é bom. A equipe da gestora é excelente, mas para que o produto seja oferecido mais ativamente pela Itaú, a volatilidade é controlada.

Vide o Kinea Previdência, nas mãos do qualificado Marco Freire, mas que mira volatilidade de somente 2 por cento para o dinheiro de longo prazo. Uma Ferrari com freio de mão puxado.

Se nivelar o investidor por baixo era pretexto para não ampliar a grade, então o Itaú não tem sido muito transparente com o investidor. Se isso era feito por convicção, devo esperar que se estenda com o tempo à comprada XP. Seja como for, não é uma fotografia alvissareira para o pequeno investidor.

Risco 3: Manter versus fomentar

Dos bancos comerciais, o Itaú é sem dúvida o mais atento às tendências. Há uma diferença, entretanto, entre se preocupar com novidades que ameaçam o seu negócio e fomentá-las.

O exemplo mais claro disso é o ETF. O banco tem uma equipe de excelência em fundos de índices. Posso apostar, entretanto, que o gerente nunca te ofereceu um ETF para se posicionar em Ibovespa. Também nunca vi uma propaganda do tal no intervalo da novela.

No mercado de ETFs, muito mais baratos do que fundos ativos, o Itaú tem uma carta na manga. Se o mercado evoluir, ele está preparado. Não tem feito nada, entretanto, para que evolua.

Não será o mesmo que pretende fazer com a XP? Manter, não alimentar?

Bom lembrar que o interesse financeiro segue maior no banco. O gerente do Itaú vende um fundo de gestão própria: toda a receita dentro de casa (depois do bônus do atendente). A XP vende: é preciso dividir o bolo com o agente autônomo, o gestor independente… E, no que fica para a própria XP, o Itaú leva apenas metade, ao menos neste primeiro momento.

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O Itaú Personnalité acaba de ceder ao charme do Kapitalo Kappa, um excelente multimercado gerido por egressos do BBM. Infelizmente é preciso ter R$ 1 milhão investido no banco (de volta ao Homer Simpson), mas, se você tem, está aí uma rara oportunidade de investir bem sem sair de lá.

 


Além de distribuir fundos de terceiros, a XP é uma das cinquenta maiores gestoras brasileiras, com 8,15 bilhões de reais de investidores em produtos próprios.Considerando que o Itaú chegará ao controle, a indústria de fundos brasileira ficará ainda mais concentrada nas mãos de poucos. Itaú, com Kinea e XP, consolida sua posição como o terceiro maior gestor, com 570 bilhões de reais.Os cinco maiores bancos reforçam seu pedaço do bolo – 67 por cento de todo o valor investido em fundos. Seria ótimo, se as melhores cabeças que conheço não estivessem no terço restante.

 

O que nos move

Elencaria um quarto elemento em risco a partir do negócio do ano, se ele não fosse tão pouco palpável: paixão. Se você já conversou com um executivo do Itaú e com um da XP – ou com um gerente e um agente autônomo – já entendeu tudo.

Um abraço,
Luciana Seabra.

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