Acho que vale a pena dar continuidade

Quero apenas convencê-lo de que, se você não escolheu um fundo somente pelo retorno histórico, também não deveria sair por esse motivo.

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Acho que vale a pena dar continuidade

Ele tinha uma cabeça grande, que escondia um intrigante bico vertical. Eu gostava de observar a elegância com que descascava o alpiste e também seu voo estabanado. Tinha asas azuis, assim como seu sangue. “É um periquito australiano inglês”, disse meu irmão quando me presenteou. O mestrado estava me isolando do mundo, explicou, e eu precisava urgentemente de um amigo.

Um belo dia, o Zé Bob – apelidado em homenagem ao jornalista da novela das oito – acorda com uma massa branca, do tamanho de uma bola de gude, embaixo da asa. Recorri ao Google, que, como de costume, deu o diagnóstico fatal: um tumor.

Especialistas em pássaros não se encontram em qualquer esquina. Fui parar no hospital universitário, determinada a minimizar o sofrimento do pequeno em seus dias finais.

O veterinário pegou o Zé Bob nas mãos. Espiou mais de perto: “Quantos anos ele tem?”. Eu não sabia ao certo, mas já lamentei: “É tão jovem ainda…”. O moço do jaleco espremeu a bolinha e ela murchou, rememorando aqueles momentos frente ao espelho na adolescência. E deu o diagnóstico: “Era uma pena encravada”.

Disfarcei uma lágrima no olho direito, enquanto o doutor prosseguia: “Ele teve alguma briga feia quando filhote, perdeu várias saídas de pena, claramente não tem equilíbrio. Mas tem cores bonitas…”. E coroou: “Acho que vale a pena dar continuidade”.

Fui para casa, gaiola em punho, receita de nebulizador no bolso (jura?), engasgada com a frase. Não me lembro de ter sugerido eutanásia. Desabafei desolada na hora do almoço. E foi uma gargalhada geral. A falta de sensibilidade do veterinário virou piada lá em casa.

Queria eu que tamanha frieza viesse embutida no nosso chip de investidores. O fundo desaba, você relembra sua decisão de ali investir, percebe que nada mudou, que não houve fuga ao mandato e conclui que “vale a pena dar continuidade”.

O prejuízo simplesmente nunca pode ser motivo para resgatar. Os últimos três meses foram escolas nesse sentido. O sujeito entrou no Alaska Black, um fundo de ações, no começo de maio, depois de ver um retorno acumulado excepcional. O primeiro mês é de prejuízo, de 10%. Ele manda um e-mail reclamando. O segundo, também de queda, de 4%. Ele pede resgate. O próximo mês é de ganho, de 12%. Ele só está lá por sorte: o fundo tem carência.

O outro entra no XP Long Biased, de olho no ganho do ano. Aí veio maio: queda de 4%. Ele xinga a Bolsa para os amigos, pede o saque. Amarga ainda a queda de junho, de 2%, antes da carência vencer. E assiste, de fora, ao ganho de 6% em julho.

Aí tem o Adam. Prejuízo em maio, em junho. O investidor começa a olhar torto, estudar substitutos. Vem julho com ganho de 200% do CDI.

Poderia seguir aqui, com dezenas de outros exemplos. Quero, entretanto, apenas convencê-lo de que, se você não escolheu um fundo somente pelo retorno histórico, também não deveria sair por esse motivo. Agora, se a rentabilidade foi mesmo o motivo para sua decisão, então começou errado.

Quando não vale a pena dar continuidade, digo, quando é hora de dar adeus ao fundo no seu portfólio? Três motivos que me fazem no mínimo acender a luz amarela:

1. O gestor ou pessoas importantes para a estratégia deixaram a equipe;

2. O fundo fugiu ao mandato. Exemplo: diz que investe somente em Ibovespa, mas tem prejuízo no dia em que a Bolsa sobe, causado por posições em dólar;

3. O fundo é uma caixa preta. Você não tem acesso a qualquer tipo de informação sobre ele, especialmente em tempos ruins;

4. O fundo tem se comportado mal em janelas longas, como dois ou três anos para um fundo multimercados, ou cinco para um fundo de ações.

Ou seja, o desempenho de curto prazo jamais deve ser a única referência para a decisão de sair. Diante de um prejuízo de curto prazo em um bom fundo, apenas repita comigo: vale a pena dar continuidade.

Seu fundo

É bem provável que você já tenha se deparado por aí com um tipo de fundo de previdência que recebe o nome “ciclo de vida”. A teoria é linda: o fundo vai mudando de carteira à medida que você envelhece. Tem sentido: quanto mais jovem você é, maior a parcela de ações; quanto mais velho, melhor se concentrar na renda fixa.

Na prática, não vejo funcionar. É muito difícil encontrar uma equipe que seja boa tanto em fazer uma gestão ativa de renda fixa quanto de renda variável. Faz mais sentido você migrar seu portfólio para um produto mais conservador quando faltar poucos anos para a aposentadoria.

Uma pérola dessa categoria é a família Ciclo de Vida, da Brasilprev. Os produtos, criados ao longo dos últimos anos, entregam entre 52% e 91% do CDI. Pergunto: de que adiantou atualizar o portfólio com o avançar da idade se não foi possível sequer entregar o referencial para aplicações conservadoras?

Quem entrou nos produtos da Brasilprev que têm no nome 2020 II, 2030 II, 2040 II (dedicados a quem vai se aposentar por volta desses anos) foi agraciado com uma taxa de administração de 3,4% ao ano! Os produtos 2020 III, 2030 III e 2040 III não ficam para trás, com taxa de 3% ao ano.

Luis Stuhlberger e Rogério Xavier, os mais renomados gestores de fundos multimercados brasileiros, cobram 2% ao ano.

Apesar do desempenho bastante insatisfatório para um dinheiro de longo prazo – e que, portanto, pode ser submetido a mais ativos de risco –, a família Ciclo de Vida da Brasilprev é enorme: tem 5,79 bilhões de patrimônio.

Sendo assim, a esses fundos, não vale a pena dar continuidade, combinado? Felizmente, o mercado de previdência, assim como o de telefones celulares, nos dá o benefício da portabilidade. Isso significa que você pode migrar seu patrimônio para um fundo melhor sem perder o histórico da tabela regressiva, aquela que faz o imposto chegar a 10% depois de dez anos de aplicação.