S02E20 – Lost Highway

A vida é uma mistura de caos, aleatoriedade e desconhecido no meio do caminho. Por mais que você tenha feito o dever de casa e a análise das suas ações com esmero, alguma coisa pode dar errado.

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S02E20 – Lost Highway

Trilha da semana
Lost Highway – Soundtrack

 

Em junho de 1997, Mary Schmich apresentou em sua coluna no “Chicago Tribune” o que falaria se fosse convidada para discursar em uma formatura – começa enfatizando a importância do uso de protetor solar e depois dá uma série de conselhos bem interessantes a jovens graduandos.

O texto viralizou (sim, as coisas já viralizavam em 1997) até que virou um vídeo com narração do Baz Luhrmann algum tempo depois. Eu gostei do vídeo/texto logo de cara – sou branco de fazer inveja a qualquer comercial de alvejante e tive diversas experiências catastróficas com a falta de protetor solar.

Infelizmente, há alguns anos, o Bial gravou a sua versão e a coisa toda ganhou contornos de retrospectiva do Big Brother. O Brasil estragou o Orkut, a maionese Heinz e o vídeo do protetor solar.

Mesmo depois da tragédia do Bial, eu ainda volto de tempos em tempos para dar uma olhada no vídeo original que, mesmo tendo virado clichê, tem vários bons conselhos para sua vida e, sim, investimentos.

Curioso que, conforme o tempo passa, uma ou outra passagem me chama mais a atenção. Na última “revisitada”, perdi mais tempo com “Get to know your parents. You never know when they’ll be gone for good” – difícil não se sentir nostálgico nessa época do ano.

De todos os conselhos, o que mais gosto e tomo como modo de encarar o mundo é “Whatever you do, don’t congratulate yourself too much, or berate yourself either. Your choices are half chance.” Em uma tradução livre: “Faça o que fizer, não se parabenize nem se critique demais. Suas escolhas são 50/50.”

O que não falta é gente achando que sabe de tudo e que acertou os calls porque é gênio. Há um componente aleatório muito maior do que nossa mente, que adora acreditar que tem controle sobre as coisas, é capaz de aceitar – “a bola entra também por acaso, que nossa pretensa sabedoria se desmancha em um piscar de olhos e que tudo é muito frágil e incerto” diria Tostão.

Há algumas semanas, fui falar com um gestor amigo meu sobre Wiz (WIZS3). À época, o papel sofria pelas discussões contratuais entre a companhia, a Caixa e o sócio francês. Eu nunca fui muito fã da posição exatamente pelo risco do contrato e, quando a coisa realmente se materializou, fui dar uma olhada para ver se o mercado não estava batendo demais no papel.

O gestor me perguntou se eu não ia tirar sarro dele, pela posição que sangrava há alguns dias. Respondi com toda sinceridade que não: realmente acredito que a recomendação certa ou errada tem muito daquela bola que bate na trave e pode entrar ou sair.

O que seria do Tetra (e da carreira do Baixinho), se aquele penal contra a Itália fosse um pouquinho só mais para a esquerda? E o que seria da Seleção de 86 se o chute de Belloni não tivesse voltado da trave nas costas do Carlos?

Há alguns meses, fiz uma atualização no meu modelo de Marcopolo (POMO4). A companhia está enxuta, rodando com baixos custos e pronta para pegar a retomada da economia – faz uns três anos que não se compra ônibus nesse país, quando voltar, vai voltar com gosto.

Pouco depois de incluir a posição na carteira do MAC, um dos galpões da fábrica de Ana Rech (principal planta da companhia) pegou fogo. Por sorte (sim, não há outra palavra aqui), o fogo foi controlado, ninguém se feriu os danos e prejuízos não foram muito extensos.

Pense bem, e se o fogo tivesse destruído toda a planta de Ana Rech, a principal unidade produtiva de carrocerias de ônibus do Brasil? Não ia ter seguro que cobrisse a perda – quanto anos para a companhia se recuperar? Quantos pedidos perdidos?

É o tipo de evento que acaba com uma companhia e não há análise fundamentalista que se sustente. Não tem conversa com investidor, visitas à fábrica e projeções macroeconômicas que te salvem desse tipo de evento. Controle é só uma ilusão!

No hay banda!

O mundo é muito mais parecido com um filme do David Lynch do que com uma comédia romântica da Sandra Bullock. A vida é uma mistura de caos, aleatoriedade e muito, muito mesmo, desconhecido no meio do caminho.

A única forma de encarar tudo isso sem enlouquecer (ou se frustrar demais) é aceitar que seus planos para as férias vão sofrer mudanças e que aquela obra vai atrasar/custar bem mais caro.

Da mesma forma, por mais que você tenha feito o dever de casa e estudado suas ações com esmero, alguma coisa vai dar errado no meio do caminho. Aquele “short” óbvio pode te machucar só porque um acionista resolveu amassar quem estava contra – quando você olha, o papel sobe 15% na sua cara e você é obrigado a stopar a posição.

Claro que você deve continuar se planejado e fazendo análises. Só esteja preparado para que as coisas andem contra você. Tenha ciência de que às vezes as coisas dão errado porque dão. Erros e acertos são menos seus do que você pensa – o importante é sempre correr os riscos que quer e pode correr.

Não entre em nada que, por mais improvável que seja, pode te levar à ruína. Diversifique, se proteja, não acredite demais em si mesmo e muito menos nos especialistas de plantão.

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Citando o belo texto do Ricardo, parceiro barbudo, escolha do que você quer se arrepender, porque de alguma coisa, você VAI se arrepender.

Só não vale se arrepender de pegar leve no Natal. Coma o que quiser e depois tire o atraso em 2018.

Beba sem moderação.