S02E27 – De que lado você está?

Nunca tinha parado para pensar, mas, embora não exista uma fórmula mágica nem uma receita de bolo capaz de te dar todas as ferramentas para a decisão perfeita, existem perfis diferentes de análise de investimento.

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S02E27 – De que lado você está?

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Metallica – Garage Inc.

 

“Que tipo de analista você é?”

Recebi a pergunta com uma certa perplexidade… Nem sabia que existiam tipos diferentes.

Sou analista flex, bebo destilado e fermentado.

“Não, tem dois tipos: (i) aquele cara que gosta de ouvir e debater ideias, pensar sobre os cases e temas e (ii) tem aquele outro que prefere se debruçar sobre o balanço, ler cada notinha de rodapé e saber até quanta gasolina o CEO gasta até o trabalho.”

Nunca tinha parado para pensar, mas, sim, existem perfis diferentes. Tem o cara que sabe as margens, previsões e o consenso para cada linha da DRE, e tem o cara que mal sabe se a companhia está reportando lucro ou prejuízo. A abordagem diferente tem a ver, em parte, com o horizonte de investimentos; em parte tem a ver com o perfil pessoal de cada um.

Eu, particularmente, sempre dei mais relevância às histórias e aos temas do que à tentativa de prever números futuros – os poucos que me leem (família e namorada não contam) já devem saber que considero impossível (e pouco prático) prever números de vendas e margens para o longo prazo.

Se eu vou me “casar” com uma empresa e comprar suas ações “para sempre”, é importante saber mais detalhes: os principais drivers, concorrentes, estrutura de custos, passivos não apresentados no balanço, riscos e tudo o mais que puder. Mas será que preciso estimar, para os próximos 20 anos, qual vai ser o crescimento de volumes?

Por outro lado, se estou olhando uma empresa por conta de um evento societário específico – uma nova emissão de ações ou a venda de controle –, será que preciso olhar para algo mais do que o evento em si?

Tudo o que você precisa saber sobre a Eletrobras, neste momento, é se a danada da privatização vai sair ou não. Todo o resto é irrelevante.

Veja, não tem certo ou errado aqui. Mas é preciso ter em mente que ter MAIS informação não quer dizer ter a MELHOR informação e, menos ainda, não necessariamente implica melhores decisões de investimento. Existem excelentes gestores que não leem jornal – “é tudo ruído”, dizem.

Lá no fim de 2015, começo de 2016, “meu” gestor me pediu para dar uma olhada na John Deere, gigante mundial de tratores e equipamentos agrícolas. Com bem menos acesso do que tenho às companhias brasileiras, minha análise se baseou nas informações disponíveis no site de RI, poucos relatórios de “sell side”, notícias de jornais, informações de blogs de produtores e, claro, conversas com amigos fazendeiros. Por coincidência, a Bloomberg disponibilizou um call com o CFO e, no fim, consegui fechar uma visão generalista, mas que me deixou confortável sobre o case.

A suposta falta de informação [Office1] não me impediu de recomendar a compra do papel por cerca de US$80,00 no fim de 2015 – hoje, a empresa está cotada a US$163,00 por ação. Mais de 100% (em dólares!) em pouco mais de dois anos. Um retorno espetacular.

Em contrapartida, já montei modelo bem completo de Fibria (FIBR3) – dava até para estimar as margens com base na velocidade de crescimento das florestas. Eu sabia Ebitda, margens, alavancagem, crescimento e rentabilidade de cor. Nada disso me impediu de segurar demais o papel e vê-lo, depois de subir mais de 170%, voltar dos R$50,00 para R$18,00 em pouco mais de seis meses.

Isso porque, muito mais importante do que a maturação do eucalipto ou a redução do custo caixa, o que acaba mandando no preço do papel é o preço da celulose (em reais, de preferência), e qualquer um que já tenha olhado para o setor sabe que é mais fácil pegar uma mosca com hashi do que acertar o preço da commodity e para onde vai o dólar.

Fazer análise é pesquisar. É buscar informações o tempo todo. Não tem uma fórmula mágica nem uma receita de bolo que vai te dar todas as ferramentas para a decisão perfeita.

Por exemplo: tem gente que gosta de falar com ex-funcionários da empresa analisada. Eu acho isso ruim – a chance de pegar alguém descontente é enorme, e você acaba incorrendo em problema grave de seleção adversa.

Eu gosto muito de falar com concorrentes ou clientes, de preferência empresas sem capital aberto – a equipe de análise do Safra era ótima (imagino que ainda seja) para isso. Sempre tinha um almoço com um fornecedor da Weg ou com um consultor das montadoras. Mas tem gente que não liga muito para isso.

Reza a lenda que o Buffett, que tem uma ou duas coisas a falar sobre o assunto, nunca fez um modelo de fluxo de caixa descontado, mas já ganhou MUITO dinheiro investindo em ações. Não se pode dizer que o velhinho está deixando alguma coisa passar…

Mais importante do que observar esse ou aquele número, questionar uma notícia ou conversar com o CFO, é olhar para aquilo que você julga pertinente. No fim das contas, muitas vezes a decisão de investimento está tomada bem antes de você terminar o seu processo de análise. Todo o resto é só um ferramental para suportar sua decisão.

Então, olhe para o que quiser e só invista quando se sentir confortável. Uma vez tomada a decisão, não se puna muito caso as coisas não saiam de acordo – muito do seu sucesso se deve ao acaso (bem mais do que você gostaria de acreditar).

Você pode ajeitar a bola com carinho, olhar bem para o canto escolhido e chutar com todo o capricho do mundo. Se bater na trave, a distância entre entrar e ir para fora não é maior do que alguns centímetros.

Onde fuçar para buscar as informações?

Te conto na semana que vem.