Bitcoin é uma bolha?

Daí, então, eu pergunto: você shortearia (apostaria na queda, materialmente) das moedas digitais?

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Bitcoin é uma bolha?

Se sua vida privada, a forma com que você realmente age e toma decisões cotidianas, conflita com sua opinião intelectual, sua opinião intelectual é automaticamente cancelada, não sua vida privada.

Esse é um dos motes do novo livro de Nassim Taleb, batizado Skin in the game, ainda em confecção.

Não falo apenas de uma questão estritamente ética. A dinâmica revela informação. Se seu vendedor de carros trabalha na Toyota e dirige um Honda, ele está sugerindo um problema potencial.

 

Quando eu falo em prol da antifragilidade nos investimentos, é porque realmente vivo isso. Inclusive, sou tomado por ridículo pela repetição cansativa, em conversas pessoais e profissionais, sobre a comparação ininterrupta sobre o quanto temos a perder se algo der errado, frente às possibilidades de ganho na eventualidade das coisas darem certo.

Faço isso conversando até com a pessoa mais insuportável de todas: eu mesmo. Num eterno processo dialético, vivo uma dicotomia de perguntas e tentativas de respostas, apontando de oportunidades e riscos constantes, caminhadas em círculos, que, certa vez, muito louco de sei lá o que, batizei de raciocínio espiral.

O rigor entre a fala e a ação (no sentido de atitude, e não do valor mobiliário, claro) não pode se dar pela observação alheia. Se você age de determinada forma apenas para colher o aplauso da plateia, então aquilo não vale. Papai do céu não vai lhe recompensar por esse teatro – e essa talvez seja uma brecha da escolha de Pascal.

Está lá, em Mateus, 6:1-4:

“Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus.

Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão.

Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita;

Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.”

Se você acha uma ação boa, vai lá e compra. Se acha ruim, abra o short. É tão simples quanto isso.

Daí, então, eu pergunto: você shortearia (apostaria na queda, materialmente) das moedas digitais? Escolha qualquer um: bitcoin, ethereum, ripple. Você faria mesmo isso?

O que vou lhe contar abaixo é estritamente verdadeiro. Talvez eu lhe passe algum ou outro detalhe de forma um pouco lúdica e exagerada, mas a essência está fidedignamente preservada.

Tenho um sócio, mais sábio e muito mais rico do que eu, que há cerca de um ano respondeu assim ao meu “bom dia”:

  • To comprando bitcoins. Que cê acha?
  • Nossa, não acho nada. Não li e não gostei.
  • Você não é todo a favor da “desintermediação”, tirar o poder do centro, dos Bancos Centrais, dos bancos comerciais? Devia ler….
  • Não tem valuation isso daí, meu…É perda de tempo tentar entender quanto vale isso. Então, não dá pra mim…
  • Felipe, você não fala toda hora de perseguir assimetrias, convexidade, aquele seu bla bla bla insuportável? Isso é totalmente assimétrico. Uma oferta rígida, com uma demanda que pode ser enorme no futuro. Talvez essa brincadeira esteja só começando.
  • Mas quem garante que vai ter demanda mesmo por isso?
  • Tô falando que pode, ser, meu. Não tô falando que vai ser. E daí que vem a assimetria.
  • Puta cara de bolha isso daí…
  • E se for bolha? Você lê alguma coisa além do Taleb? Já viu o Dan Bunting?
  • Dando Bundin? Nada contra, mas eu mesmo tô fora…
  • ahhahahaha. Não, idiota. Ele fala assim ‘nunca perca uma bolha. Você vai fazer a maior fortuna com as piores ações.’
  • O Soros fala umas coisas parecidas.
  • Pois é…
  • Mas difícil é saber a hora que a bolha explode…
  • Se você encara isso como value investing, não vai chegar a lugar nenhum mesmo. Precisa saber o que está fazendo, inclusive saber que pode ser uma mega bolha. Isso é pra você colocar pouquinho, um cheirinho só, entendeu? Pensa como se fosse uma microcap… Aquele seu racional: 500 paletas mexicanas contra uma start up que pode virar um Google lá na frente, pagando a conta toda pra você. Coloca pouquinho dinheiro, dentro de uma carteira diversificada. É a danada da convexidade que você me enche o saco…
  • Eu não gosto de comprar as coisas depois que já subiu muito. Se sobe mais de 100%, eu fico ressabiado.
  • Nossa, agora você perdeu a linha. Imagina o cara que saiu nos primeiros 100% de alta de Facebook, Amazon, Apple, Netflix, Magazine Luiza…
  • Você sabe que eu sou um conservador. Gosto mais de um tiranossauro rex do que de um block chain. Coisa nova me dá coceira.
  • Quer apostar?
  • Fechado. A brincadeira, meramente platônica, vai ser: eu tô long Rumo e short Bitcoin. Você é minha contraparte.
  • Tchado. Vale um almoço?

 

Olha, Rumo até andou bastante bem nos últimos 12 meses. Mas não dá pra comparar com os bitcoins, que saíram de US$ 1 mil para US$ 4 mil.

Eu não ligo de ter perdido a oportunidade, sinceramente. Forcei à catequização no erro tipo II, aquele que o investidor pode cometer. Você pode tomar como falso o que é verdadeiro; deixar de comprar um ativo que é bom. Mas não pode tomar como verdadeiro o que é falso, ou seja, achar que uma ação é boa, comprar e ela destruir seu patrimônio. Ai você quebra.

O problema mesmo foi pagar um almoço pro Caio. Isso que acabou comigo. Eu até topei pagar o Parigi sem reclamar – você acha que ele escolheria almoçar no Burger King nesse dia? Ruim foi a derrota moral. O camarada não passa um dia sem me lembrar: “US$ 4.500… and counting”. Dou de ombros. Quer dizer: finjo. Quero matá-lo todas as vezes em que ouço isso.

Vou reconhecer aqui, só entre nós, torcendo para que ele não leia (eu que não admito a derrota!): o Caio estava certo. Agora, já vendeu metade da posição com lucros de mais de 100 por cento e é impossível perder dinheiro.

Mas não é só porque ele ganhou alguns milhares de dólares sob uma base de capital pífia. Isso faz parte. Mas pela filosofia da coisa: com pouco dinheiro (por favor, com POUCO dinheiro) e diversificado, sabendo que se trata de um investimento de alto risco e você pode perder (invista algo que você tope perder), pode fazer muito sentido.

E também vale para os ICOs, ou seja, os IPOs das criptomoedas, as ofertas iniciais de novas moedas digitais? Vale, sim, com o argumento amplificado. Ainda mais potencial, com ainda mais risco, claro.

É com isso em mente que eu lhe convido para conhecer a série feita brilhantemente pelo Fernando Ulrich, o maior especialista da área, para nossos assinantes. Confesso que eu mesmo ainda não comprei nenhuma criptomoeda. Mas estou acompanhando diligentemente o Fernando para ver se vale a pena. Sugiro que você faça o mesmo. Sendo esse o assunto mais quente do mundo hoje na esfera financeira, simplesmente não podemos ignorar o tema.

Encerro minha participação voltando a Taleb:

“A verdadeira virtude está em ser gentil e agradável com aqueles negligenciados pelos outros, com os cases menos óbvios, aquelas pessoas que o grande negócio da caridade tende a desprezar, aquelas causas que não estão (ainda) em promoção comercial.”

De novo, não é apenas uma afirmação ética. Vale também para os investidores e os contrarians – nós entre eles – já reconheceram. O verdadeiro valor está naquilo que é negligenciado pelos outros. Ali estão as verdadeiras assimetrias.

Mercados iniciam a quinta-feira demonstrando cautela. Seria natural alguma realização de lucros depois do rali recente, catalisada por apreensão à espera da ata do BCE, que pode sinalizar eventualmente redução dos estímulos monetários.

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