Bois don’t cry; eles compram seguros

Até mesmo do ponto de vista psicológico, os seguros podem lhe fazer transitar melhor pelo momento de desespero, blindar-lhe contra os vieses cognitivos mais mordazes e permitir-nos chegar do outro lado do rio na hora de tempestade.

Bois don’t cry; eles compram seguros

Por que as pessoas jogam na loteria sabendo que isso dá um lucro danado para a Caixa Econômica Federal?

Por que a gente compra seguro mesmo ciente de que as seguradoras estão ai há séculos bastante rentáveis?

A pergunta, formulada com a linguagem técnica, é por que aceitamos participar de jogos, apostas, loterias ou qualquer ambiente de incerteza que envolva uma matriz de payoff com valor esperado negativo?

Originalmente, Daniel Bernoulli se debruçou sobre o tema e formulou aquilo que seria a base para a Teoria da Utilidade esperada, posteriormente estendida por John Von Neumman e Oskar Morgenstern para ambientes em que há risco e incerteza. A ideia central é de que as pessoas não maximizam valor esperado. Não é essa sua variável de interesse. Elas querem maximizar sua Utilidade, sua função pessoal que mede o nível de satisfação, felicidade, alegria ou o termo que você preferir para definir seu estado de espírito.

A essa concepção central, Bernoulli adicionou uma outra hipótese sobre o comportamento humano: a aversão a risco. Ou seja, não gostamos muito desse negócio de risco, não. Essa hipótese oferece uma implicação direta sobre o formato da tal função Utilidade. Ela passa a ser côncava, igual aquela função logarítmica que aprendemos na oitava série.

Isso implica que ela cresce a taxas decrescentes. Em outras palavras, o primeiro dólar que você ganha lhe proporciona um aumento brutal de utilidade. O segundo dólar também aumenta seu nível de felicidade, mas o tamanho do ganho de utilidade é menor. E o terceiro ainda menor. A coisa segue indefinidamente.

Portanto, quando as coisas vão bem e você está rico, ganhando dinheiro e tal, um retorno adicional em seu portfólio lhe proporciona um menor incremento de utilidade. Já quando as coisas vão mal e você está curto de grana, tem feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, qualquer pequeno retorno positivo vai lhe proporcional um incremento gigantesco de utilidade.

Essa é uma outra maneira de entender a importância de se comprar seguros. Mesmo quando o valor esperado dessa aposta é negativo, seu ganho de utilidade pode ser tão grande que lhe compense.

De forma simples e direta, no momento em que as coisas vão bem, você não está precisando de dinheiro e qualquer ganho adicional lhe proporciona pequeno incremento de utilidade. Já quando as coisas vão mal, ai é a hora que você mais precisa do dinheiro. Se você tiver um seguro para lhe trazer um pequeno ganho na hora do pesadelo mor, seu ganho de utilidade vai ser muito alto.

Até mesmo do ponto de vista psicológico, os seguros podem lhe fazer transitar melhor pelo momento de desespero, blindar-lhe contra os vieses cognitivos mais mordazes e permitir-nos chegar do outro lado do rio na hora de tempestade.

Insisto neste ponto num momento em que sinto cheiro da típica complacência com riscos ligadas ao bull market. Em situações nas quais há uma clara e vigorosa tendência de alta, ninguém lembra de proteger-se. Todos querem saber de surfar a onda. As notícias não importam mais tanto, pois tudo é interpretado com a conveniência que queremos. A forma com que o mercado reage à notícia é mais relevante do que a notícia em si.

No momento, há uma clara disposição a se interpretar tudo de forma favorável. É provável que as coisas continuem assim. Até quando? Sinceramente, não sei. Acho que ninguém sabe. Precisamos, sim, surfar a onda – e por isso temos uma alocação sugerida em ações muito superior às carteiras de consenso e às sugestões de asset allocation tradicionais; isso não significa, sobremaneira, que estamos complacentes com os riscos.

Aprecie com moderação. Qualquer relação mais quente precisa ser feita com a devida proteção. Curto prazo ainda parece empurrar as coisas para cima. São nesses momentos que temos condições de comprar seguros mais baratos.

Hoje temos pagamento de cupom de NTN-B, com consequente rebalanceamento do IMA-B (reinvestimento de cupom e mudança na composição). Isso pode criar momentum de curto prazo para a parte intermediária da curva dos indexados, com reinvestimento, mesmo que parcial, de cupom. Também pode criar demanda adicional por ações, principalmente pelos fundos de pensão, com necessidade de colocar um pouco mais de risco na carteira num ambiente de taxas de juros cadentes.

Lá fora, abrandamento das tensões entre Coreia do Norte e EUA alimenta migração para o risco. Wall Street Journal noticiou que Kim Jong teria desistido de sua ameaça de atacar a ilha de Guam, onde há base militar norte-americana.

Dólar sobe contra principais moedas depois que William Dudley, do Fed de NY, sugeriu possibilidade de nova alta do juro básico ainda neste ano. Minério de ferro caiu 2 por cento na China com temores de medidas restritivas à especulação.

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Agenda local traz vendas ao varejo (+1,2 por cento, acima do esperado) e discussão interminável sobre meta fiscal. Nos EUA, temos também vendas ao varejo, NY Empire State, estoques das empresas e índice NAHB de confiança das construtoras. Alemanha solta PIB trimestral e Reino Unido oferece índice de preços ao consumidor.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,3 por cento, acompanhando exterior. Dólar sobe na esteira de outras moedas emergentes. Juros futuros registram alta com preocupação fiscal, surpresa nas vendas ao varejo e desvalorização cambial.

Encerro com um convite para leitura do riquíssimo material sobre criptomoedas feito com excelência a partir da ajuda do Fernando Ulrich – eu mesmo não sei nada sobre esse negócio, mas estou bastante interessado em conhecer.

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