XP, (ainda) feita para você?

Desbancarização veio para ficar e modelo XP não deve mudar da noite para o dia, ainda que outras corretoras ganhem força no mercado

XP, (ainda) feita para você?

De um lado, estouro de champanhe, memes dizendo que a XP já era Itaú na Austrália antes do anúncio oficial, comemoração total de todos os sócios. Capaz que estivesse tocando “Celebration”, do Kool & the Gang, como trilha sonora daquele momento.

Um aporte do Itaú de nada menos que 6,3 BILHÕES DE REAIS, dos quais 5,7 bilhões diretamente para o bolso dos acionistas, em troca de 49,9 por cento do capital social da XP. E com direito concedido à corretora de vender 100 por cento do negócio de 12 bilhões de reais já em 2024, se seus sócios assim desejarem.

Estamos falando de um montante financeiro sem precedentes para o mercado de corretoras. É um pacote que vai agregar, além de dinheiro, estrutura, segurança e solidez à maior corretora — ou shopping financeiro, como prefere se autointitular — do Brasil.

Independência, autonomia, segregação de atividades, manutenção de princípios e valores fazem parte de um discurso repetido à exaustão nos últimos dias, com o intuito de acalmar clientes.

De outro lado, estão investidores desconfiados e nervosos com a operação. Frustração, insegurança, raiva e memes que questionam todo o discurso defendido pela XP desde o início. O refrão “Você pagou com traição, a quem sempre lhe deu a mão” não sai da cabeça, com certa ironia remetendo ao nome da música da Beth Carvalho: “Vou Festejar”.

“Seu banco não presta? Ele agradece”, dizia a chamada de capa da revista Exame de julho do ano passado, com a foto em destaque de Guilherme Benchimol, fundador da XP.

Ousada, a corretora contratou o global Murilo Benício para convidar as pessoas a mudarem para a XP, em comercial veiculado em TV aberta.

 

A defesa ferrenha da desbancarização, do modelo de plataforma aberta, de uma oferta de taxas mais atrativas e a crítica às propostas de investimento dos bancos ficaram em xeque desde o anúncio da operação XP/Itaú.

É verdade que os planos da XP de um dia virar banco nunca foram propriamente um segredo, mas daí a vender participação tão relevante para o principal banco do Brasil já é outra história.

Mas tudo tem um preço nessa vida, e obviamente não seria diferente no mercado financeiro.

O negócio está feito, os sócios da XP estão cheio$ de motivos para comemorar, e o foco agora está nos clientes: afinal, o que muda?

Aproveito algumas das perguntas enviadas a mim por clientes da corretora para esclarecer pontos importantes dessa operação, e acrescento alguns pitacos para você ficar atento aos próximos capítulos dessa história.

Devemos começar a considerar uma possível portabilidade para outra corretora?

Heloísa A.

 

Por ora, não vejo motivos para você tomar qualquer medida, Heloísa. A operação acabou de acontecer e tem muita água para rolar. Não será de uma hora para outra que tudo que a XP fez para se transformar na principal corretora independente do Brasil vai virar pó. A ampla oferta de produtos deve seguir firme e forte, assim como os preços não serão reajustados do dia para a noite, nem a qualidade do serviço vai cair.

Pode ser que a estrutura mude com o tempo? Sem dúvida. Como a XP vai continuar com um modelo competitivo atacando bancos (e roubando seus clientes) agora que o Itaú é seu parceiro segue como incógnita, o que nos leva à segunda pergunta do mesmo tema:

É possível fazer a portabilidade dos investimentos de uma corretora para outra? Pergunto isso, pois tenho investimentos no Tesouro Direto pela XP e, com a compra do Itaú, gostaria de mudar de corretora. Todavia, não gostaria de ter prejuízo com isso.

Sérgio T.

 

Sim, Sérgio, é possível, e não tem custo. Explicamos o passo a passo no relatório Você Investidor de abril, no qual mostramos que a portabilidade vale para todos os produtos, de renda fixa e variável, com uma exceção: fundos de investimento.

Mas, como disse antes, não acredito que seja o caso de migrar de corretora, se você estiver satisfeito com a XP. Pelo menos não agora.

Os mais bem humorados também deram as caras.

Há algum impacto para os correntistas da XP/Rico com essa compra do Itaú? (…) Tenho conta corrente no Itaú e na Rico, rodei e acabei no mesmo lugar, coisas da vida… Realmente o Itaú foi feito pra mim. Agora o slogan fez sentido.

Ederson C.

 

Realmente, Ederson, a compra da Rico pela XP parece bem amarrada com a venda de participação para o Itaú, afinal, era de se imaginar que a Rico teria grandes chances de crescer entre as corretoras independentes num eventual espaço deixado pela XP. Lembre-se que a XP se expandiu no vácuo da corretora Ágora, que desapareceu do mercado após ter sido comprada pelo Bradesco.

Está gostando desse artigo?Insira seu e-mail e comece já a receber nossos conteúdos gratuitos

Não adianta tentar “fugir” para Rico ou Clear, já que ambas pertencem à XP. A grande incógnita agora é se outra corretora terá força para crescer e se colocar de vez como uma opção de peso ao investidor que quer permanecer distante dos grandes bancos de varejo.

As apostas estão em grande parte voltadas para a Easynvest, especialmente depois da entrada da gestora americana Advent em seu capital. A corretora cresceu no mercado de renda fixa especialmente com a isenção de taxa no Tesouro Direto, mas ainda precisa se estabelecer como uma opção voltada para qualquer investidor, e também mais rentável para os sócios.

Outros estão entusiasmados com a proposta do BTG Digital, que começa aos poucos a tatear um terreno até então dos bancos de varejo e das corretoras independentes. A plataforma ainda está muito concentrada em produtos do próprio BTG, o que limita seu alcance, mas a proposta de oferecer produtos a partir de 3 mil reais atrai.

Resta ver se o foco do BTG em clientes de alto poder aquisitivo na plataforma vai se perpetuar…

Há ainda algumas outras corretoras que poderiam entrar na disputa de maneira mais agressiva, ao estilo XP, por clientes. Guide (do banco Indusval), Genial (do Brasil Plural), Nova Futura e CM Capital Markets foram algumas das casas mencionadas por quem acompanha de perto esse mercado, mas todas têm muito chão pela frente.

A XP conta com uma rede de cerca de 2 mil agentes autônomos. É gente pra caramba!

A XP pode ter sucumbido à graça do Itaú, mas sua grande conquista, de aumentar o número de investidores pessoas físicas buscando opções mais rentáveis e diversas fora dos bancos, vai se perpetuar.

E corretoras mais espertas poderão tirar maior proveito dessa conquista de agora em diante.

Por isso, tenha alguns cuidados: preste atenção nas propostas de seu agente autônomo; questione taxas e produtos ofertados; se desejar migrar de corretora, teste a plataforma antes de investir; e esteja sempre aberto para modelos mais avançados e para corretoras que coloquem você no primeiro lugar.

Essa briga também é nossa!

Um abraço,
Beatriz

PS: Se quiser acompanhar a oferta de produtos e os preços cobrados pelas corretoras mais voltadas para pessoas físicas, não deixe de ler os relatórios do Você Investidor. Mais do que nunca, a comparação será fundamental para você fazer bons negócios!

Conteúdo relacionado