Candidato, avaliei seu portfólio (de graça!)

Como eu vou confiar na capacidade do sujeito de resolver a questão fiscal do país e criar diretrizes para a alocação de capital se ele deixou um centavo que seja do próprio patrimônio na mirrada poupança.

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Candidato, avaliei seu portfólio (de graça!)

Estou determinada a lançar minha candidatura à Presidência pelo PCP, o Partido Contra a Poupança. Poupança na qual estão 481.836 reais do candidato pelo PSL, Jair Bolsonaro, segundo ele mesmo declarou ao Tribunal Superior Eleitoral. Poupança também em que estão 59.552 reais do ex-banqueiro João Amoêdo, do Partido Novo.

E, por fim, poupança em que residem 29 centavos de Alvaro Dias, o que faria dele meu ídolo, não fosse o fato de que ele declarou 538.322 reais parados em conta-corrente (sim, isso consegue ser pior do que a poupança).

Vou direto ao ponto, senhoras e senhores: como eu vou confiar na capacidade do sujeito de resolver a questão fiscal do país e criar diretrizes para a alocação de capital se ele deixou um centavo que seja do próprio patrimônio na mirrada poupança.

Vejamos a situação de Bolsonaro, com 21% do patrimônio na caderneta. Vamos partir do pressuposto – bastante factível, claro – de que ele possa precisar de 481.836 reais na mão a qualquer momento (imprevistos milionários acontecem!). Por isso, a escolha de um produto com liquidez imediata.

Sendo assim, a pergunta é: haveria uma alternativa tão líquida e segura quanto a poupança, porém mais rentável? Sim!

Quanto rendeu o patrimônio de Bolsonaro que descansa na caderneta nos últimos dois anos? Vamos imaginar que ele tenha a poupança antiga, mais rentável, anterior à mudança de normas: 14%.

Qual seria a alternativa? Apresentá-la-ei agora: um fundo DI barato. Para nosso exemplo, usarei o do BTG (poderia ser da Órama ou da XP, com taxa de 0,2% ao ano, ou a LFT, lá no Tesouro Direto). Retorno bruto nos últimos dois anos: 20%.

Descontados os impostos que incidem sobre o fundo para tornar justa a comparação com a poupança, Jair Bolsonaro ainda fica na desvantagem: deixou de ganhar 12.479 reais nos últimos dois anos apenas por não recorrer à melhor opção para o dinheiro de curto prazo.

Agora, suponhamos que o candidato pudesse contar com 400 mil reais para gastos de última hora e investisse os 81.836 reais restantes na Bolsa, por exemplo. Então o dinheiro deixado na mesa, ou seja, o ganho desperdiçado, subiria para 22.538 reais.

Poderia seguir com exemplos infindáveis aqui. O fato é: o dinheiro não foi alocado da forma mais eficiente possível.

Talvez você me ache injusta com João Amoêdo, que tem menos de 1% do seu patrimônio de 425 milhões de reais na poupança. A questão é: por quê? Qual a racionalidade de ele ter dinheiro ali?

Rentabilidade? Já mostramos que não. Liquidez? O fundo DI, assim como a poupança, permite resgate no mesmo dia. Praticidade? Investir em um fundo DI é tão fácil quanto na poupança. Investimento para os filhos? Com tanto tempo pela frente para investir, os herdeiros merecem um bom fundo de ações, isso, sim.

No meu mandato, caso eleita, vou substituir a poupança por um fundo DI barato no patrimônio de todos os brasileiros.

E o crédito imobiliário? Encontraremos outro caminho para financiá-lo, que não penalize quem poupa.

P.S.: Antes que o TSE impugne minha candidatura por idade – ai de você se disser que eu pareço ter mais do que 35 anos – digo que este é um plano para 2022.

Cota murcha

Geraldo Alckmin também não ficou muito à frente na administração do patrimônio, com 219.725,41 reais em um fundo de curto prazo. Ou seja, o candidato tem 16% de seu patrimônio em um produto pouco eficiente (mesmo para aquele dinheiro que ele possa vir a precisar a qualquer momento).

Os fundos de curto prazo têm dois defeitos. Eles são muito similares a um fundo DI tradicional, mas têm em geral taxas bem maiores do que eles. E, se você não precisar do dinheiro para logo, vai pagar mais impostos.

Explico: enquanto em um fundo DI de longo prazo a alíquota de imposto começa em 22,5% e cai a 15% para mais de dois anos, no produto de curto prazo a regressão de imposto começa em 22,5% e para em 20%.

É difícil que alguém escolha um fundo de curto prazo para deixar o dinheiro – a opção não sobreviveria a uma mínima pesquisa. Em geral, é nele que vai parar o patrimônio que fica parado na conta, automaticamente investido pelo banco.

Um fundo de curto prazo consegue com frequência ter retorno inferior ao da poupança.

Cota cheia

Os candidatos à Presidência Alvaro Dias e João Amoêdo parecem ter as carteiras mais diversificadas (digo “parece” porque os dados não são tão detalhados no TSE).

Amoêdo, com 425 milhões de reais de patrimônio, certamente conta com assistência para investir os recursos. A parcela investida em ações, fundos de ações e participações, cerca de 3%, é tímida em relação ao patrimônio total, mas pelo menos tem volume: são 11 milhões de reais.

Alvaro Dias, apesar do grande montante parado em conta-corrente, mostrou-se um investidor mais sofisticado, com 8,8% de seu patrimônio em ações.

Alckmin tem 0,5% alocado diretamente em ações e Bolsonaro, 0,06%.

O que não entendo é como o item é apresentado no sistema do TSE: “ações (inclusive as provenientes de linha telefônica)”. Alguém ainda tem ações de linha telefônica?

Fim

Caro candidato, a Empiricus tem duas publicações para quem quer saber como alocar melhor seu dinheiro. Para bolsos pequenos, como o do Guilherme Boulos (15 mil reais), siga a série Portfólio Empiricus, do Walter Poladian. Para bolsos mais fartos, caso do João Amoêdo, o caminho é a Carteira Empiricus, com Felipe Miranda e João Piccioni.